(Trecho de Meu Ismael - Daniel Quinn - páginas 203 a 211)
— Sabe disse eu —, acho que você poderia fazer algo para me ajudar mais. Nem sei se tenho o direito de pedir isso, mas vamos lá.
Ismael franziu o cenho.
— Por acaso dei a impressão de que meu programa não está aberto para mudanças? Você me considera assim tão rígido, a ponto de pensar que não estou disposto a me adaptar a suas necessidades?
Opa, disse comigo mesma, mas, depois de pensar um pouco, resolvi não pedir desculpas.
— Provavelmente, faz muito tempo que não se vê uma menina de doze anos conversando com um gorila de quinhentos quilos.
— Não entendo o que o peso tem a ver com isso — retrucou ele asperamente.
— Tudo bem. Então, com um gorila de cem anos.
— Não tenho cem anos, e peso menos de trezentos quilos.
— Meu Deus — disse eu —, essa conversa parece tirada de Alice no País das Maravilhas.
Ismael riu e me perguntou o que poderia fazer para ajudar.
— Conte para mim como o mundo seria, em sua opinião, se realmente conseguíssemos começar a "viver de um modo diferente".
— É um pedido procedente, Julie. Nem posso imaginar por que hesitou para fazê-lo. Você sabe por experiência que, a esta altura, muita gente imagina que eu estou pensando num futuro no qual a tecnologia tenha desaparecido. Para vocês, é fácil demais colocar a culpa de todos os problemas na tecnologia. Contudo, os humanos nascem com vocação para a tecnologia, assim como nascem com vocação lingüística. Não conheci nenhum povo Largador que vivesse sem ela. Como muitas outras facetas da vida dos Largadores, porém, a tecnologia que empregam tende a permanecer invisível a olhos acostumados a uma tecnologia tão furiosamente poderosa e extravagante como a de vocês. De todo modo, não vislumbro para vocês um futuro
desprovido de tecnologia.
"Com freqüência, as pessoas acostumadas a pensar conforme o sistema dos Pegadores me dizem: ‘Bem, se o modo de vida dos Pegadores não é o correto, qual é o modo correto?’ Mas, obviamente, não existe um modo correto para as pessoas viverem, assim como não existe um modo correto para os pássaros fazerem ninhos ou as aranhas tecerem teias. Portanto, não estou pregando um futuro em que o império dos Pegadores seja destruído e substituído por outro. Isso é um absurdo. O que a Mãe Cultura diz que vocês devem fazer?"
— Ora — respondi —, acho que ela diz que não devemos fazer absolutamente nada.
Ele balançou a cabeça.
— Ouça a voz dela, não fique nas conjecturas. Há um minuto você mencionou os ensinamentos da Mãe Cultura sobre essa questão. São os seguintes: "Vocês sofrem de uma doença indefinida e provavelmente
incurável; nunca descobrirão do que se trata exatamente. Mas podem experimentar alguns remédios. Tente essa; se não funcionar, tente outra. Se não funcionar, tente outra. E assim por diante". Ad infinitum.
— Certo. Estou entendendo o que está querendo dizer. Deixe-me pensar um pouco.
Fechei os olhos e, depois de cinco minutos, vislumbrei uma resposta.
— Talvez eu esteja completamente errada — disse eu. — Pode ser uma simplificação, mas o que eu ouvi foi: ‘Claro, você pode salvar o mundo, mas vai odiar isso. Vai ser doloroso demais".
— Por que seria doloroso demais?
— Por causa das coisas que teríamos de deixar de lado, abrir mão. Como já falei, é uma simplificação.
— Não se trata de simplificação, Julie. É uma mentira da Mãe Cultura. Embora a Mãe Cultura não passe de uma metáfora, ela muitas vezes se comporta estranhamente como uma pessoa real. Por que você acha que ela conta essa mentira?
— Acho que ela quer desencorajar as mudanças.
— Claro. Sua principal função é preservar o status quo. Isso não é peculiar à sua Mãe Cultura. Em todas as culturas, a função da Mãe Cultura é preservar o status quo. Não quero insinuar que isso seja uma atividade iníqua.
— Estou entendendo.
— A Mãe Cultura pretende bloquear as pessoas desde o início, persuadindo-as de que qualquer mudança será
inevitavelmente para pior. Por que, no caso de vocês, qualquer mudança será inevitavelmente uma mudança para pior, Julie?
— Não entendo por que você diz "no caso de vocês".
— Bem, vamos pensar nos bosquímanos da África no lugar de vocês. Por que qualquer mudança seria inevitavelmente uma mudança para pior no caso deles?
— Ah, estou entendendo o que você está querendo dizer. A resposta é não, claro. Para os bosquímanos da África, qualquer mudança seria para melhor de acordo com a Mãe Cultura.
— Por quê?
— O que eles possuem não tem o menor valor. Portanto, qualquer mudança é um progresso.
— Exatamente. E por que uma mudança para vocês seria para pior?
— Porque o que temos é perfeito. Não dá para melhorar nada: portanto, qualquer mudança ipso facto só pode ser para pior. Certo — ipso facto?
— Certíssimo, Julie. Eu fico surpreso ao ver que muitos de vocês parecem acreditar que o que têm é perfeito. Levei algum tempo para me dar conta de que isso resulta de uma estranha compreensão da história e da evolução humana. Muitos de vocês pensam consciente ou inconscientemente na evolução como um processo de melhoria inexorável. Imaginam que os seres humanos começaram como uns pobres coitados, mas, sob a influência da evolução, foram se tornando, aos poucos, melhores e melhores e melhores e melhores e melhores e melhores e melhores e melhores e melhores e melhores e melhores, até que um dia chegaram até
vocês, com direito a geladeira frostfree, fornos de microondas, ar-condicionado, vans e televisão via satélite com seiscentos canais. Por causa disso, a desistência de qualquer coisa representaria necessariamente um passo para trás no desenvolvimento humano. A Mãe Cultura, portanto, formula o problema assim: "Salvar o mundo significa abrir mão de alguns bens e isso quer dizer voltar à vida
miserável. Portanto..."
— Portanto, nada de abrir mão dos bens.
— E, mais importante, nada de salvar o mundo.
— E o que você está dizendo?
— Eu digo também: "Nada de abrir mão dos bens". Vocês não devem se ver como um povo rico, que precisam abrir mão de algumas riquezas. Devem pensar em si mesmos como um povo desesperadamente necessitado. Você já pensou no significado da palavra "riqueza", Julie?
— Acho que não.
— Que mais ela significa?
— Significa estar numa boa, obviamente.
— Claro. Bem não é sinônimo de coisas materiais e sim de bem-estar. Em termos de produtos, vocês estão muito ricos, mas, em termos de riqueza humana, são pateticamente pobres. Em termos de riqueza humana, são o povo mais miserável da face da Terra. E é essa a razão por que vocês não pensam em abrir mão de nada. Como se poderia esperar que os miseráveis da Terra abrissem mão de qualquer coisa? Seria impossível. Pelo contrário, vocês devem se concentrar em obter tudo — desde que não seja uma torradeira nova, Julie. Nem rádios. Televisores. Telefones. Aparelhos de CD.
Brinquedos. Vocês precisam se concentrar em obter os bens dos quais precisam desesperadamente como seres humanos. No momento em que desistiram de todos esses bens, decidiram que eles eram impossíveis de se obter. Considero minha tarefa, Julie, mostrar que não é esse o caso. Vocês não
precisam desistir dos bens dos quais necessitam desesperadamente como seres humanos. Eles estão ao alcance da mão — se souberem onde procurá-los. Se souberem como procurá-los. Foi isso que você veio aprender aqui.
— Mas como podemos fazer isso, Ismael?
— Vocês precisam ser mais exigentes, pedir mais, Julie — e não menos. Nesse aspecto, discordo dos seus religiosos fanáticos, que os encorajam a ser corajosos e resignados e esperar pouco desta vida — para ganhar muito na vida após a morte. Vocês precisam exigir para si a riqueza que os povos aborígines do mundo inteiro estão dispostos a morrer para defendê-la. Vocês precisam exigir os bens que os seres humanos possuem desde o início dos tempos, que consideraram uma riqueza acessível por centenas de milhares de anos. Vocês precisam exigir a riqueza que jogaram fora para se tornarem senhores do mundo. Mas não podem exigir isso de seus líderes. Eles não a guardam. Não a possuem para dá-la a vocês. Por isso, devem ser diferentes dos revolucionários do passado, que simplesmente queriam ver pessoas diferentes comandando o sistema. Vocês não vão conseguir resolver os problemas simplesmente trocando-os.
— Está certo, mas de quem vamos exigir isso a não ser de nossos líderes?
— Exijam de si mesmos, Julie. A riqueza tribal é a energia que os membros da tribo dão uns aos outros para preservar a tribo. Essa energia é inesgotável, um recurso plenamente renovável.
Gemi.
— Você não está me dizendo como fazer isso.
— Julie, os bens que vocês querem, como seres humanos, estão disponíveis. Venho repetindo essa mensagem incessantemente. Vocês podem ter essas riquezas. As pessoas que vocês desprezam, que chamam de selvagens ignorantes, têm tais bens. Por que vocês não podem tê-los também?
— Mas como? Como podemos obtê-los?
— Em primeiro lugar, devem se dar conta de que é possível obtê-los. Sabe, Julie, antes de ir à Lua, vocês precisaram perceber que era possível ir à Lua. Antes de construir um coração artificial, precisaram perceber que era possível fazer um. Entende isso?
— Claro.
— No momento, Julie, quantos de vocês percebem que seus ancestrais tinham um modo de vida que funcionava bem, em beneficio das pessoas? Aqueles que viviam daquele jeito não lutavam constantemente contra crime, loucura, depressão, injustiça, pobreza e raiva. A riqueza não se concentrava nas mãos de uns poucos sortudos. As pessoas não viviam aterrorizadas pelos
semelhantes. Elas sentiam segurança, e estavam seguras, de uma forma quase inimaginável para vocês.
Esse modo de vida ainda existe, e funciona tão bem como sempre funcionou, para as pessoas — ao contrário do seu modo, que funciona muito bem para os negócios, mas é péssimo para as pessoas. Quantos de vocês se dão conta disso?
— Nenhum.— disse eu. — Ou pouquíssima gente.
— E por onde eles podem começar? Para ir à Lua, foi preciso primeiro perceber que isso era possível.
— Então, o que você está dizendo? Que isso é impossível?
Ismael suspirou.
— Lembra-se do que eu pedia no anúncio?
— Claro. Você procurava alunos com um desejo sincero de salvar o mundo.
— Presumo então que você veio até aqui porque tinha esse desejo. Você achou que eu ia lhe dar uma varinha de condão? Ou uma metralhadora para liquidar todos os malfeitores desse mundo?
— Não.
— Você achava que não era possível fazer nada? Que viria até aqui, ouviria tudo e voltaria para casa, sem fazer nada? Acha que não fazer nada é a minha idéia de salvar o mundo?
— Não.
— Com base no que já foi dito aqui, Julie, o que precisa ser feito? O que precisa ser feito antes que as pessoas comecem a pensar num jeito de obter os bens dos quais necessitam tão desesperadamente?
Balancei a cabeça, mas não adiantou. Levantei-me da poltrona e agitei os braços. Ismael me olhou, curioso, como se eu tivesse perdido o juízo. Disse a ele:
— Ei! Você não está falando em salvar o mundo. Não estou entendendo! Está falando em nos salvar!
Ismael fez que sim com a cabeça.
— Compreendo suas dúvidas, Julie. Vou explicar melhor. As pessoas de sua cultura se engajaram no processo de tornar o planeta inabitável para vocês mesmos e para milhões de outras espécies. Mesmo que consigam fazer isso, a vida continuará, certamente, mas em níveis que vocês (em seu modo preconceituoso) consideram indubitavelmente mais primitivos. Quando você e eu falamos em salvar o mundo, referimo-nos salvação do mundo como o conhecemos atualmente — um mundo habitado por elefantes, gorilas, cangurus, bisões, alces, águias, focas, baleias, e assim por diante. Está entendendo?
— Claro.
— Só há duas maneiras de salvar o mundo nesse sentido. Uma delas é destruir vocês imediatamente — não esperar que tornem o mundo inabitável para os outros. Não conheço um modo de fazer isso, Julie. Você conhece?
— Não.
— O outro jeito de salvar o mundo é salvar vocês. Mostrar como podem obter os bens de que necessitam desesperadamente — em vez de destruir o mundo.
— Ah! — murmurei.
— Minha bizarra teoria, Julie, diz que as pessoas da sua cultura não estão destruindo o mundo porque são malvadas e estúpidas, como a Mãe Cultura ensina, mas porque são terrivelmente carentes, porque vivem privadas dos bens de que os seres humanos precisam desesperadamente, sem os quais não podem viver ano após ano, geração após geração. Minha bizarra teoria afirma que, se tiverem a chance de escolher entre destruir o mundo e conseguir as coisas que realmente querem, vocês escolherão a segunda opção. Mas, antes que possam fazer tal escolha, vocês precisam perceber que ela existe.
Encarei-o como mesmo olhar frio com que ele sempre me fitava.
— E a minha tarefa é mostrar a eles que têm essa escolha, certo? É isso?
— Isso mesmo, Julie. Não era isso que queria fazer em seu devaneio? Trazer a iluminação para o mundo, de longe?
— É. Era o que eu queria fazer no meu devaneio. Mas, na vida real, tenha dó! Sou apenas uma menina que imagina como vai ser a minha vida quando eu finalmente chegar ao segundo grau.
— Sei disso. Mas você não será uma menina para sempre. Quer saiba ou não, você veio aqui para ser modificada, e você mudou. Saiba disso ou não, a mudança é permanente.
— Sei disso muito bem — disse eu. — Mas, sabe, você não respondeu à minha pergunta. Perguntei como o mundo seria se realmente conseguíssemos começar a viver de um outro jeito. Acho que precisamos de uma meta. De todo modo, eu preciso.
— Farei isso, Julie, mas da próxima vez. Creio que basta por hoje. Você pode vir na sexta-feira?
Uma espiada no futuro - A Revolução Necessária
— Para você, isso não passa de mais um episódio da história antiga, como a Restauração* ou a Guerra da Coréia. Contudo há vinte e cinco anos, milhares de jovens de sua idade descobriram que o modo de vida dos Pegadores era um modo de morte. No fundo, eles não sabiam muito mais do que isso, mas tinham certeza de que não queriam fazer o que seus pais haviam feito: casar, arranjar um emprego, ficar velho, aposentar-se e morrer. Queriam viver de um jeito novo, mas os únicos valores reais que eles possuíam eram o amor, companheirismo, sinceridade, drogas e rock ‘n’ roll — que não são absolutamente coisas ruins, embora não sejam suficientes como fundamento para uma revolução, e era isso que eles queriam. Assim como não possuíam uma teoria revolucionária, não dispunham de um programa revolucionário. Só tinham um slogan: “Entre em sintonia, se ligue e caia fora”. Eles imaginavam que todos iam simplesmente seguir essas palavras. Todos sairiam dançando pelas ruas e uma nova era da humanidade se iniciaria. Estou contando isso porque é tão importante saber a razão do fracasso das coisas quanto de seu sucesso. A revolta dos jovens nos anos 60 e 70 fracassou porque eles não tinham uma teoria ou um programa. No entanto, eles estavam certos em uma coisa: chegara a hora de fazer algo novo.
“Vocês precisam de uma revolução para sobreviver, Julie. Se continuarem no rumo atual, é difícil imaginar que sobrevivam mais um século. Mas não podem ter uma revolução negativa. Qualquer revolução que pregue a volta aos ‘velhos tempos’, considerados melhores e mais simples, nos quais os homens cumprimentavam as mulheres com o chapéu, as mulheres ficavam em casa cozinhando e ninguém se divorciava ou questionava a autoridade, se baseia apenas em sonhos. Qualquer revolução que dependa da disposição das pessoas para desistir de coisas que elas querem, em troca de coisas que elas não querem, está destinada ao fracasso, não passa de utopia. Vocês precisam fazer uma revolução positiva, uma revolução que dê ao povo mais do que as pessoas realmente querem e não menos do que eles não querem. As pessoas não querem jogos eletrônicos de dezesseis bits, mas, se for o melhor que podem conseguir, elas os aceitarão. Uma revolução não iria muito longe se pedisse às pessoas que desistissem dos jogos de dezesseis bits. Se você quer que elas percam o interesse pelos joguinhos, deve lhes dar algo muito melhor do que eles”.
“Essa deve ser a base de sua revolução, Julie: não a pobreza voluntária, mas a riqueza voluntária. Mas riqueza de verdade, agora. Nada de brinquedos, equipamentos ou entretenimento. Nada de coisas que possam ser guardadas nos cofres dos bancos. A verdadeira riqueza é aquela com a qual os seres humanos já nascem. Falo de riquezas que os seres humanos desfrutaram por centenas de milhares de anos — e continuam a desfrutar, onde quer que o modo de vida dos Largadores permaneça intato. E essa riqueza vocês podem aproveitar sem sentir culpa, Julie, pois não terá sido roubada do mundo. Trata-se de uma riqueza que deriva totalmente de sua própria energia. Está me acompanhando?”
— Estou.
— Bem, vamos ver se conseguimos um modo razoável de olhar para o futuro da sua revolução. Por volta de 1816, o barão Karl von Draise, de Karlsruhe, Alemanha, resolveu arriscar a sorte no campo das invenções (a Revolução Industrial havia atingido todas as classes, altas ou baixas, cooptando talentos). Ele pretendia criar um veículo auto-propulsor e conseguiu um bom protótipo em sua primeira tentativa: uma bicicleta impulsionada pelos pés, que ficavam no solo. Bem, se ele pudesse olhar para o futuro, dali a setenta anos, veria uma bicicleta que funcionava realmente bem, construída pelo inglês James Starley, que, exceto por alguns refinamentos, continua em uso até hoje, mais de um século depois”.
“Assim como o barão, nós podemos olhar para o futuro e ver um sistema social humano global que funcione bem de verdade. Tal sistema pode vir a existir — mas não podemos sequer imaginá-lo, assim como o barão não poderia imaginar a bicicleta de James Starley. Está entendendo o que estou dizendo?”
— Acho que sim.
— De todo modo, estamos numa situação melhor que a do barão. Ele não poderia olhar para o futuro em busca de orientação (porque ninguém pode), nem para o passado, pois não havia bicicletas para estudar. Estamos numa situação melhor, embora não possamos olhar para a frente e ver um sistema social global que funcione bem, mas podemos olhar para trás e estudar um sistema que funcionava muito bem. Tão bem que se pode dizer, com certa segurança, que se tratava de um sistema final, impossível de ser melhorado, para os povos tribais. Não havia organizações complexas. Tínhamos apenas diversas tribos usando a estratégia da retaliação sem nexo: “Pague na mesma moeda, mas não seja muito previsível”.
— Certo.
— Bem, qual o princípio legal que a estratégia da retaliação sem nexo reforçava ou protegia entre os povos tribais?
— Bem... ela protegia a identidade e a independência das tribos.
— Sim, isso é verdade, mas essas coisas não são princípios, nem leis. Pensei no assunto, mas no final fui obrigada a admitir que não sabia responder. — Não faz mal. A estratégia da retaliação sem nexo reforçava a seguinte lei: Não existe um único modo correto de vida para todas as pessoas.
— Claro! Estou percebendo agora.
— Trata-se de uma afirmação tão verdadeira hoje quanto há um milhão de anos. Nada pode torná-la obsoleta. Essa lei é algo com que podemos contar, Julie. Pelo menos você e eu, enquanto revolucionários. Os oponentes da revolução insistirão que existe sem dúvida um jeito certo para as pessoas viverem e continuarão insistindo que o conhecem, como sempre. Tudo bem, desde que não tentem impor esse modo de vida aos outros. “Não existe um único modo correto de vida para todas as pessoas”, esse é o começo de tudo, assim como “Penso, logo existo” marcou o começo de tudo para Descartes. As duas declarações devem ser aceitas como evidentes, ou simplesmente recusadas. Nenhuma é passível de prova. Elas podem ser contrapostas a outros axiomas, mas não se pode provar que uma delas é falsa. Está entendendo?
— Acho que sim, Ismael. Quase tudo.
— Portanto, você já tem um lema para a sua bandeira: “Não existe um único modo correto de vida para todas as pessoas”. Já temos um nome para a revolução propriamente dita?
Depois de pensar por algum tempo, disse:
— Ela poderia ser chamada de Revolução Tribal.
Ismael balançou a cabeça.
Trata-se de um bom nome, Julie. Mas acho melhor usarmos Nova Revolução Tribal. Caso contrário, as pessoas pensarão que estamos falando em usar arco e flecha ou morar em cavernas.
— É, tem razão.
— Eis algumas coisas que podemos esperar da Nova Revolução Tribal, com base na experiência da Revolução Industrial. Podemos chamar isso de Plano dos Sete Pontos.
Um: A revolução não ocorrerá num único lugar, de uma vez só. Não será uma espécie de golpe de Estado, nos moldes da Revolução Francesa, ou Russa.
Dois: Ela será feita paulatinamente, com base na experiência acumulada e modificada pelas pessoas. Essa foi a grande inovação que estimulou a Revolução Industrial.
Três: Não haverá um líder. Como a Revolução Industrial, não haverá necessidade de guia, organizador, líder, comandante ou chefe. Será algo grande demais para que alguém assuma a liderança.
Quatro: Ela não acontecerá por iniciativa de uma instituição governamental, política ou religiosa — novamente, como a Revolução Industrial. Alguns alegarão, sem dúvida, que apóiam e protegem a revolução; sempre aparecem líderes prontos a assumir o comando depois que as pessoas mostram o caminho.
Cinco: Ela não tem um objetivo final específico. Por que deveria ter?
Seis: Não seguirá nenhum plano. Como poderia, afinal, haver um plano?
Sete: Quem promover a revolução será pago com a moeda da revolução. Na Revolução industrial, quem contribuía muito para o aumento da riqueza recebia muito da riqueza produzida; na Nova Revolução Tribal, quem contribuir com muito apoio receberá muito apoio.
“Bem, tenho uma pergunta para você, Julie: que acontecerá com os Pegadores nessa revolução?”
— Como assim?
— Quero que você comece a pensar como revolucionária agora. Não me obrigue a fazer o trabalho sozinho. A primeira idéia das pessoas será tornar o modo de vida dos Pegadores ilegal, certo?
— Olhei para ele, confusa.
— Não sei.
— Pense, Julie.
— Como seria possível tornar o modo dos Pegadores ilegal?
— Suponho que se faça isso do jeito costumeiro que se usa para tornar algo
ilegal.
— Não, quero dizer... se não existe um único modo correto para as pessoas viverem, não se pode considerar o jeito dos Pegadores ilegal. Ou qualquer outro estilo de vida.
— Assim está melhor. Se não há um modo correto para as pessoas viverem, obviamente não se pode tornar o modo dos Pegadores ilegal. Ele continuará a existir, e as pessoas que o adotarem serão aquelas que realmente gostam de trabalhar para comer. Só quem preferir deixar a comida trancada à chave o fará.
— Os Pegadores perderão muita gente nesse caso, pois o resto desejará que a comida fique por aí, disponível para quem precisar.
— Então, acontecerá exatamente isso, Julie. Você não precisa tornar o modo dos Pegadores ilegal para que desapareça. Basta abrir a porta da prisão para as pessoas começarem a sair dela. Contudo, sempre haverá alguns que preferem o modo de vida dos Pegadores, que realmente adoram essa vida. Talvez eles possam se reunir na ilha de Manhattan, que seria declarada um parque nacional. As crianças poderiam ir lá, em excursões escolares, conhecer a vida dos habitantes.
— E como o resto das pessoas vai trabalhar, Ismael?
— No sistema original, o nascimento determinava sua participação em uma tribo. Ou seja, você nascia Ute, Penobscot ou Alawa. Não tinha escolha. Suponho até que fosse possível, mas era raríssimo. Por que um Hopi desejaria se tornar Navajo, ou vice-versa? Todavia, na Nova Revolução Tribal, a participação se dará exclusivamente por escolha, pelo menos no início.
Imagine um mundo em que Jeffrey, em vez de viajar de um grupo de amigos Pegadores para outro, pudesse viajar de uma tribo para outra — ou para tribos diferentes, todas elas de portas abertas para as pessoas que quisessem entrar ou sair. Acha que ele teria se afogado no lago?
— Não, acho que não. Acho que ele teria encontrado uma tribo na qual as pessoas ficavam passeando, tocando violão e recitando poesia.
— Eles provavelmente não “realizariam” muitas coisas, certo?
— Claro que não. Mas quem se importa com isso? Não existem muitas comunidades assim por aí hoje?
— Inúmeras. Mais do que nunca. Infelizmente, todas elas funcionam dentro da prisão dos Pegadores. São forçadas a tanto, pois a prisão dos Pegadores não tem lado de fora. Os Pegadores reivindicaram há muito tempo o planeta inteiro para si. Portanto, só existe dentro.
— Que isso tem a ver?
— Dentro das prisões reais, os presidiários formam grupos para vários propósitos — alguns sancionados pelas autoridades; outros, não. Por exemplo, alguns bandos se formam para proteção; os membros cuidam uns dos outros. Esses bandos não contam com o reconhecimento oficial. São proibidos, fora da lei. E, se fossem permitidos, seriam inúteis, pois não poderiam agir de um modo que as autoridades condenam. Para realizar sua tarefa, eles precisam continuar clandestinos — livres para quebrar as regras. Quando se tornam legais, viram uma espécie de clube de xadrez ou clube literário — obedientes às regras da prisão e, portanto, de pouca importância para as necessidades reais dos presidiários.
— E que isso tem a ver com as comunidades intencionais?
— As comunidades intencionais quase sempre visam à sanção da lei dos Pegadores no início. Isso evita que sejam perseguidas pela polícia, mas limita a importância que podem vir a ter na vida dos seus membros. Essa é a diferença entre comunidades intencionais, de um lado, e as seitas e gangues, de outro. Comunidades intencionais querem receber a sanção oficial, enquanto as gangues e seitas não desejam isso — o que explica o fato de seitas e gangues ganharem importância tribal na vida de seus membros.
— Que você quer dizer com “importância tribal?”.
— Quero dizer que pertencer a um culto ou gangue adquire a mesma importância que pertencer a uma tribo de Largadores. Basicamente, vale a pena morrer para ser membro, Julie. Quando os seguidores de Jim Jones viram que Jonestown estava condenada, não viram mais motivo para continuar vivendo. Jones disse a eles: “Se vocês me amam como amo vocês, devemos partir todos juntos, ou seremos destruídos de fora”. Sei que isso ocorreu algum tempo antes de você nascer, mas acho que já ouviu falar do caso.
— Disse-lhe que não.
— Novecentas pessoas cometeram suicídio junto com ele. As tribos de Largadores tomam a mesma atitude quando percebem finalmente que não há esperança de continuarem existindo como tribo.
Balancei a cabeça, confusa, e ele perguntou o que estava errado.
— Não sei bem. Ou, talvez, saiba. Estou acostumada a considerar o pessoal das gangues um bando de animais. E quem participa desses cultos como lunáticos. Colocar as tribos de Largadores junto com gangues e cultos me deixa muito confusa.
— Compreendo. À medida que você crescer nesse mundo, verá que as pessoas intelectualmente inseguras tentam aumentar sua confiança mantendo os assuntos em categorias sólidas, impermeáveis. Tudo é bom, ou então ruim. A Revolução Industrial é ruim, e dela não pode sair nada bom. Gangues e cultos são ruins, e deles não pode sair nada bom. Tribos, por outro lado, são boas, e não deve haver nenhuma ligação entre elas e coisas ruins como cultos e gangues. É admissível notar que as tribos de Largadores vivem muito bem sem classes e propriedade privada, mas é preciso enfatizar que eles não andaram lendo livros indecentes de Marx e Engels.
— Sim, acredito nisso. Mas ainda não consigo ver o que isso tem a ver com as comunidades intencionais.
— Quando as autoridades governamentais começaram a investigar o Templo do Povo, Jim Jones o levou para a Guiana. Ele fez isso por saber que ele deixaria de funcionar, se fosse obrigado a seguir as regras do governo.
Para dar um exemplo diferente, saiba que um alcoólatra recuperado, Charles Dederich, fundou um centro de reabilitação para drogados em Santa Mônica em 1958. Chamava-se Synanon. Não era exatamente uma comunidade, pois os viciados podiam entrar e sair. Mas, com o passar do tempo, Dederich ficou insatisfeito com esse modelo. Ele queria uma comunidade, e não demorou muito para começar a convencer viciados a ficar trabalhando lá depois da recuperação. Em seguida, Dederich abriu a comunidade para pessoas de fora — profissionais liberais, empresários e outras pessoas dispostas a entregar a Synanon suas propriedades, carros, contas bancárias e ações, para participar de uma comunidade única, e ter o que esperavam ser um lar para o resto da vida. Gradativamente, Synanon foi deixando de ser um centro de tratamento para se tornar uma seita — e uma seita belicosa, armada não apenas para defesa como também para ataque.
Eles se envolveram em tentativas de assassinato e violências contra pessoas que consideravam seus inimigos nas comunidades vizinhas. As seitas de Bhagwan Shree Rajneesh, o Hare Krishna e a Alamo Christian Foundation atraíram pessoas dispostas a entregar seus bens materiais e trabalhar de graça para poderem pertencer, ser membros e ter direito a tudo o que um membro poderia almejar — comida, abrigo, roupas, transporte, tratamentos de saúde, etc. Numa palavra, segurança.
— Bem, continuo sem saber direito por que você está me falando tudo isso.
— Estou tentando mostrar que essas pessoas não são loucas. Elas querem desesperadamente algo que os seres humanos tiveram por centenas de milhares de anos, e continuam tendo, nos locais onde o modo de vida dos Largadores sobreviveu. Elas querem apoio do modo tribal, Julie. Estão dispostas a dar total apoio à seita em troca de apoio total. Isso significa casa, comida, roupa, transporte, assistência médica e assim por diante — tudo aquilo de que um ser humano necessita para viver. Elas não procuravam as seitas porque achavam que eram tribais. Elas as procuravam porque elas ofereciam algo de que precisavam desesperadamente — e continuam precisando, eu garanto. Nos próximos anos, você verá cada vez mais pessoas comuns, normais e inteligentes serem atraídas pelas seitas. Não vão porque são loucos, mas sim porque as seitas oferecem algo de que precisam desesperadamente e não conseguem obter no mundo dos Pegadores. Esse paradigma de apoio por apoio é mais do que um modo de sobreviver, é um estilo de vida profundamente reconfortante. As pessoas gostam de viver desse jeito.
— Tudo bem, isso eu entendi. Agora me diga: o que eu devo fazer a esse respeito?
— No momento,Julie, quem tem autorização para fundar seitas do tipo aqui discutido?
— Acho que ninguém.
— E, como não é permitido fundar seitas, quem as inicia?
— Pirados — disse eu. — Gente com mania de grandeza. Vigaristas também.
— Julie, é isso que estou tentando mostrar a você. Como ninguém, fora lunáticos e vigaristas, tem permissão para fundar seitas, por que você se surpreende com o fato de que as seitas são fundadas por lunáticos e vigaristas?
— Eis aí uma questão danada de boa.
— Tenho outra: que você faria em relação a uma seita que não foi fundada por um lunático ou vigarista?
— Que quer dizer com isso?
— Bem, você a reprimiria?
— Não sei.
— Sabe quem são os Amish?
— Sei. Faz uns dois anos Harrison Ford se escondeu lá, num filme.
— Acha que os Amish devem ser reprimidos?
— Não. Por que deveria achar?
— Porque eles formaram uma seita, que não está centrado num lunático ou vigarista.
Fechei os olhos e balancei a cabeça.
— Ismael — disse eu—, você está me confundindo.
— Ótimo, isso já é um progresso. Preciso fazer com que você encare seus tabus culturais. Não conheço outro caminho para romper seu condicionamento em relação às palavras. Quando ouve a palavra “gangue”, você está condicionada a pensar: “Ruim — não devo pensar nela”. Quando ouve a palavra “seita”, você está condicionada a pensar: “Ruim — não devo pensar nela”. Quando ouve a palavra tribo, você está condicionada a pensar: “Bom — tudo bem pensar nela”.
— E que devo fazer quando ouvir as palavras “seita” e “gangue”?
— Você pode começar a pensar: “A palavra não é a coisa”. Ou: “Uma coisa não se torna ruim só por ter um nome ruim”. Ou ainda: “O fato de essa coisa ter um nome ruim não significa que eu não possa pensar a respeito dela”.
— Tudo bem. Mas sobre o que eu devo pensar?
— Você deve pensar sobre o fato de não haver uma diferença operacional entre uma tribo e uma seita, Julie. Não há diferença operacional entre um carburador feito por um devoto republicano e outro feito por um anarquista ateu. Os dois funcionam do mesmo jeito. É a isso que eu me referia quando disse que não há diferença operacional entre eles.
— Entendo.
— A mesma coisa é válida aqui. Tanto a tribo quanto a seita operam segundo o seguinte princípio: vocês nos dão seu apoio total e recebem nosso apoio total. Total — dos dois lados. Sem reservas — dos dois lados. As pessoas morrem por isso, Julie. As pessoas morrerão por isso. Não porque sejam preguiçosas, mas porque isso realmente significa algo para elas. Elas não trocarão esse apoio total por empregos das nove as seis e aposentadoria quando ficarem velhas.
(Naturalmente, eu me lembrei dessa conversa quando, três anos e meio depois, o poderoso governo dos Estados Unidos considerou necessário esmagar uma minúscula seita, em Waco, no Texas. Não importava que o ramo davidiano não tivesse sido condenado por nenhum crime — nem sido acusado de qualquer crime. Eram uns iludidos, e isso significava que podiam ser eliminados sem julgamento — evidentemente, com base no princípio de que nossas ilusões não representam ameaça, mas as ilusões deles, sim, sendo inerentemente más. Precisavam ser varridas da face da Terra, fossem o que fossem).
Eu disse:
— Até parece que você está me dizendo para fundar uma seita. Ele suspirou e balançou a cabeça.
— Você é a portadora da minha mensagem, Julie. E a mensagem é a seguinte: abram as portas da prisão e as pessoas sairão. Construam coisas que as pessoas querem e elas correrão para lá. E não desviem o rosto, nem deixem de olhar de frente para as coisas que as pessoas estão dizendo que desejam. Não desviem os olhos só porque a Mãe Cultura deu a elas nomes feios. Em vez disso, compreendam por que ganharam esses nomes.
— Estou entendendo direitinho. Elas ganharam nomes feios porque querem que fujamos delas, aterrorizados.
— Isso mesmo.
Como se tivesse recebido uma deixa, um homem atarracado, de boa aparência, sentou-se na poltrona, ao meu lado. E eu percebi na hora que o meu curso com o macaco havia chegado ao fim.
* Reincorporação dos Estados confederados à União após a Guerra de Secessão (1861-
1865). (N. Do E.)
[holos-isor] Do Matriarcado ao Patriarcado e à invenção do Diabo !
Re: [holos-isor] Cosmovisão [E=R] Sociedades de dominação e sociedades de parceria
Interessante. Vale a pena comparar com Sociedades de dominação e sociedades de parceria , diapnível na Biblioteca da Escola de Redes: http://escoladeredes.ning.com/
colo abaixo um trecho do livro Conversando com Deus - volume III, que talvez possa servir de base para algumas reflexões.
Att,
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Tatjana Hein
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Antes de imprimir, veja se realmente é necessário. Ative sua consciência ecológica.
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Quando conhece o passado, pode saber mais a respeito de todos seus possíveis futuros. Aproximou-te de Mim para me pedir que fizesse que sua vida funcionasse melhor. Será útil para ti saber como chegou aonde te encontra hoje.
Falarei-te de força e de fortaleza e da diferença entre ambas. Conversarei contigo a respeito dessa figura de Satanás que inventaram, como e por que o inventaram e como decidiram que seu Deus era um “Ele” e não uma “Ela”.
Falarei-te de Quem Sou Realmente e não de quem hão dito que sou em suas mitologias. Descreverei-te Minha Existência de tal maneira que gostosamente substituirá a mitologia com a cosmologia, a verdadeira cosmologia do universo e sua relação Comigo. Farei que saiba sobre a vida, como funciona e por que funciona dessa maneira. Este capítulo tratará todas essas coisas.
Quando conhecer essas coisas, poderá decidir o que desejas desprezar entre o que sua raça criou. Esta terceira parte de nossa conversação, este terceiro livro, trata de construir um mundo mais novo, de criar uma nova realidade.
Vocês, Meus filhos, viveram em uma prisão ideada por vocês. Já é hora de que se liberem.
Aprisionaram suas cinco emoções naturais, as reprimindo e as convertendo em emoções não naturais, o que causou infelicidade, morte e destruição para seu mundo.
Neste planeta durante séculos, o modelo de comportamento foi não ser “indulgentes” com suas emoções. Se sentem aflição, superam-na; se sentem aborrecimento, o tragam; se sentem inveja, isto os envergonha; se sentem temor, superam-no; se sentem amor, controlam-no, limitam-no, esperam, fogem dele, fazem algo para evitar expressá-lo plenamente, aqui, neste momento.
Já é tempo de que se liberem.
Na verdade, aprisionaram a seu Eu Sagrado e já é hora de que liberem a seu Eu.
Isto começa a me entusiasmar. Como começamos? Como começamos?
Em nosso breve estudo para compreender como tudo teve que ser desta maneira, retornamos à época quando sua sociedade se reorganizou. Isto é, quando os homens se converteram na espécie dominante e decidiram que não era adequado expressar as emoções ou, em alguns casos, inclusive as sentir.
A que te refere ao dizer “quando a sociedade se reorganizou”? Sobre que falamos?
Ao princípio de sua história, viveram neste planeta em uma sociedade de matriarcado. Logo houve uma mudança e surgiu o patriarcado. Quando levaram a cabo essa mudança, deixaram de expressar suas emoções. Etiquetaram como “debilidade” fazer isto. Foi durante este período que os homens inventaram também ao demônio e ao Deus masculino.
Os homens inventaram ao diabo?
Sim, Satanás foi essencialmente uma invenção masculina. Finalmente, toda a sociedade o aceitou; entretanto, o afastar-se das emoções e a invenção de um “Ser Malvado” foi parte de uma rebelião masculina contra o matriarcado, um período durante o qual as mulheres governaram tudo com suas emoções. Ocupavam todos os postos do governo, todos os postos religiosos de poder, todos os lugares de influência no comércio, a ciência, o ensino e a cura.
O que poder tinham os homens?
Nenhum. Os homens tinham que justificar sua existência, posto que tinham muito pouca importância, além de sua habilidade para fertilizar os óvulos femininos e mover os objetos pesados. assemelhavam-se muito às formigas e abelhas trabalhadoras. encarregavam-se do trabalho físico pesado e se asseguravam de que nascessem meninos e estivessem protegidos.
Os homens necessitaram centenas de anos para encontrar e criar um sítio mais importante para eles em sua sociedade. Transcorreram séculos antes de que aos homens lhes permitisse participar dos assuntos de seu clã; de ter voz ou voto nas decisões da comunidade. As mulheres não os consideravam o suficientemente inteligentes para compreender ditos assuntos.
Resulta difícil imaginar que alguma sociedade prohíba realmente a toda uma classe de pessoas incluso votar, com base só no gênero.
Agrada-me seu senso de humor respeito a isto. Na verdade me agrada. Continuamos?
Por favor.
Transcorreram séculos antes de que lhes ocorresse pensar que em realidade poderiam ocupar postos de liderança, nos quais finalmente tiveram a oportunidade de votar. Outros postos de influência e de poder dentro de sua cultura lhes foram negados de uma forma similar.
Quando os homens ao fim ocuparam postos de autoridade dentro da sociedade, quando ao fim deixaram de ser criadores de bebês e escravos físicos virtuais, deve dar-se os o crédito de que não tenham atuado da mesma maneira com as mulheres, mas sim sempre tenham acordado respeitar às mulheres e lhes dar o poder e a influência que merecem todos os seres humanos, sem importar seu gênero.
Não obstante, antes de que continuemos com o tema da invenção do “diabo”, falemos um pouco sobre o poder. É obvio, devido a este surgiu a invenção de Satanás.
Agora dirá que os homens têm todo o poder na sociedade atual, não é assim? me permita falar antes que você e te dizer por que considero que aconteceu isto.
Disse que durante o período do matriarcado, os homens se assemelhavam bastante às abelhas trabalhadoras e que serviam à abelha reina. Disse que se encarregavam de desempenhar o trabalho físico difícil e de assegurar-se de que nascessem meninos e estivessem protegidos. Desejaria perguntar “o que trocou? Isso é o que fazem agora!” Posso apostar que muitos homens possivelmente diriam que não trocou muito a situação, com exceção de que os homens obtiveram um preço por manter seu “papel ingrato”. Têm mais poder.
Em realidade, quase todo o poder.
De acordo, grande parte do poder. Não obstante, a ironia que vejo aqui é que ambos os gêneros pensam que se encarregam das tarefas não gratas, enquanto que o outro gênero tem toda a diversão. Os homens mostram ressentimento para as mulheres que estão tentando recuperar parte de seu poder, porque dizem que não fariam tudo o que fazem pela cultura, se ao menos não tivessem o poder necessário para fazê-lo.
As mulheres mostram ressentimento para os homens que têm todo o poder e dizem que não continuarão fazendo pela cultura, o que fazem, se forem permanecer sem poder.
Analisou-o corretamente. Os homens e as mulheres estão condenados a repetir seus próprios enganos em um ciclo contínuo de miséria autoinfligida, até que uma parte ou a outra compreenda que a vida não é poder, a não ser fortaleza. Até que ambos compreendam que não se trata de separação, mas sim de unidade. É na unidade onde existe a fortaleza interior e é na separação aonde se dissipa, deixando uma sensação de debilidade e de impotência e, portanto, de luta pelo poder.
Digo-lhes isto: terminem com esse distanciamento entre vocês e com a ilusão de separação e assim voltarão para a fonte de sua fortaleza anterior. Aí é onde encontrarão o verdadeiro poder. O poder para fazer algo. O poder de ser algo. O poder de ter algo, posto que o poder para criar se deriva da fortaleza interior que se produz através da unidade.
Isto é certo na relação entre vocês e seu Deus, assim como é notavelmente certo da relação entre você e seus congêneres.
Deixem de pensar que estão separados e todo o poder verdadeiro que se obtém da fortaleza interior da unidade será dele, como uma sociedade mundial e como uma parte individual desse tudo para exercer seus desejos.
Entretanto, recordem isto:
O poder surge da fortaleza interior. A fortaleza interior não se obtém do poder bruto. referente a isto, quase todo mundo compreende o contrário.
O poder sem a fortaleza interior é uma ilusão. A fortaleza interior sem unidade é uma mentira. Uma mentira que não serviu à raça, mas sim se arraigou firmemente na consciencia de sua raça. Vocês pensam que a fortaleza interior surge da individualidade e da separação e, simplesmente, isto não é assim. A separação de Deus e entre vocês é a causa de todo seu mau funcionamento e sofrimento. Não obstante, a separação contínua disfarçada como fortaleza e sua política, sua economia e inclusive suas religiões, perpetuaram a mentira.
Esta mentira é a gênese de todas as guerras e de todas as lutas de classe que conduzem à guerra; de toda a animosidade entre as raças e os gêneros e de todas as lutas de poder que conduzem à animosidade; de todos os julgamentos e as tribulações e de todas as lutas internas que levam às tribulações.
Apesar disto, aferram-se com tenacidade à mentira, sem importar que já viram para onde os conduz, inclusive se os conduziu até sua própria destruição.
Agora lhes direi isto: conheçam a verdade, pois a verdade os liberará.
Não há separação. Não entre si, não de Deus e não de nada que existe.
Repetirei esta verdade uma e outra vez nestas páginas. Esta observação a farei uma e outra vez.
Atuem como se não estivessem separados de nada e de ninguém e amanhã sanarão seu mundo.
Este é o maior secreto de todos os tempos. É a resposta que o homem procurou durante milênios. É a solução pela qual trabalhou, a revelação pela que orou.
Atuem como se não estivessem separados de nada e sanarão o mundo.
Compreendam que se trata de atuar com o poder, não sobre este.
Obrigado, já o compreendi. Então, retrocedendo, foram as mulheres quem primeiro tiveram o poder sobre os homens e agora é o contrário. Os homens inventaram ao demônio para tirar esse poder às mulheres das tribos ou aos líderes do clã?
Sim. Utilizavam o temor, porque era a única arma que tinham.
Repito-o, a situação não trocou muito. Os homens fazem isso na atualidade. Em ocasiões, inclusive antes de ter apelado à razão, os homens empregam o temor, em particular, se forem os homens mais poderosos e fortes. (Ou o país maior e forte.) Às vezes parece estar enraizado nos homens. Parece celular. O poder é direito. A fortaleza é poder.
Sim. Assim foram as coisas da derrocada do matriarcado.
por que é assim?
Disso trata esta curta história.
Então, contínua, por favor.
O que tinham que fazer os homens para obter o controle durante o período do matriarcado era não convencer às mulheres de que aos homens lhes deveria dar mais poder sobre suas vidas, a não ser convencer a outros homens.
depois de tudo, a vida transcorria tranqüilamente e havia formas piores em que os homens podiam acontecer o dia, que simplesmente desempenhando algum trabalho físico para fazer-se valiosos e depois ter sexo. portanto, não era fácil para os homens, quem não tinha poder, convencer a outros homens sem poder, que procurassem dito poder. Isto foi assim até que descobriram o temor.
O temor era algo com o que as mulheres não tinham contado.
Este temor se iniciou com as sementes da dúvida, semeadas pelos homens mais descontentes. Em geral, estes homens eram os menos “desejáveis”; os homens sem músculos, singelos e, portanto, aqueles aos que as mulheres emprestavam menos atenção.
Suponho que devido a que isto era assim, seus queixa foram consideradas como ira surta da frustração sexual.
Isso é correto. Esses homens insatisfeitos tinham que empregar a única arma que tinham. portanto, tentaram que surgisse o temor das sementes da dúvida. E se as mulheres estavam equivocadas?, perguntaram. E se sua forma de dirigir o mundo não era a melhor? E se estavam conduzindo a toda a sociedade, a toda a raça, para a aniquilação segura?
Isto é algo que muitos homens não podiam imaginar. depois de tudo, acaso as mulheres não tinham uma linha direta com a Deusa? Acaso não eram réplicas exatas da Deusa? Acaso a Deusa não era boa?
O ensino era tão poderoso, tão arraigada, que os homens não tiveram outra alternativa que inventar ao diabo, a Satanás, para rebater a bondade ilimitada da Grande Mãe imaginada e adorada pela gente do matriarcado.
Como conseguiram convencer a alguém de que existia algo assim como o “diabo”?
Algo que toda sua sociedade entendia era a teoria da “maçã podre”. Inclusive as mulheres viam e sabiam, de acordo com sua experiência, que alguns meninos simplesmente se voltavam “maus”, sem importar o que fizessem. Especialmente, como todos sabiam, o menino do sexo masculino, que não podia ser controlado.
Assim se criou o mito.
Um dia, o mito desapareceu e a Grande Mãe, a Deusa de Deusas, deu a luz um menino que resultou não ser bom. Sem importar tudo o que a Mãe tentou, o menino não era bom. Finalmente, ele luto contra sua mãe para lhe tirar o trono.
Isto era muito, inclusive para uma mãe amorosa e que perdoa. O menino foi banido para sempre; entretanto, continuou apresentando-se com disfarces inteligentes, em ocasiões incluso como a mesma Grande Mãe.
Este mito sentou a base para que os homens perguntassem: “Como sabemos que a Deusa a quem adoramos é uma Deusa? Poderia ser o menino mau, agora crescido e que deseja nos enganar”.
Com isto, os homens obtiveram que outros homens se preocupassem e que depois se zangassem porque as mulheres não tomavam a sério suas preocupações, por isso logo se rebelaram.
Assim se acredito o ser que vocês chamam Satanás. Não resulto difícil criar um mito a respeito de um “menino mau”, tampouco foi difícil convencer inclusive às mulheres do clã a respeito da possibilidade da existência de tal criatura. Tampouco foi difícil que todos aceitassem que o menino mau era do sexo masculino. Acaso os homens não pertenciam ao gênero inferior?
Este recurso se utilizou para estabelecer um problema mitológico. Se o “menino mau” era do gênero masculino, se o “ser mau” era masculino, quem poderia dominá-lo? Com segurança, não uma Deusa feminina. Os homens disseram inteligentemente que quando se tratava de assuntos de sabedoria e perspectiva, de claridade e de compaixão, de planeación e de pensamento, ninguém duvidava da superioridade feminina. Entretanto, em assuntos de força bruta, acaso não necessitavam aos homens?
Anteriormente, na mitologia da Deusa, os homens eram simplesmente consortes, companheiros das mulheres, que atuavam como serventes e satisfaziam seu desejo de celebração luxuriosa da magnificência de sua Deusa.
Não obstante, agora se necessitava um homem que pudesse fazer mais; um homem que pudesse proteger também à Deusa e derrotar ao inimigo. Esta transformação não ocorreu de um dia para outro, a não ser através de muitos anos. Em forma gradual, muito gradual, as sociedades começaram a considerar o consorte masculino também como ao protetor masculino em suas mitologias espirituais, pois agora que havia alguém para proteger à Deusa, dito protetor era necessário, obviamente.
Não foi uma mudança total do homem como protetor, ao homem como casal igual, agora junto à Deusa. O Deus masculino se criou e, em um tempo, os Deuses e as Deusas governaram juntos na mitologia.
Logo, em forma gradual, aos Deuses lhes deram papéis mais importantes. A necessidade de amparo, de fortaleza, começou a suprir as necessidades de sabedoria e amor. Nasceu uma nova classe de amor nestas mitologias. Um amor que protegia com força bruta. Era também um amor que cobiçava o que protegia; isto é, sentia ciúmes de sua Deusa; que agora não satisfazia simplesmente seus desejos femininos, mas sim lutava e morria por eles.
Começaram a surgir mitos a respeito de Deuses podendo enorme, que brigavam, que lutavam, de Deusas de uma beleza indescritível. Assim nasceu o Deus ciumento.
Isto é fascinante.
Espera, estamos chegando ao final, mas ainda há algo mais.
Não transcorreu muito tempo antes de que o ciúmes dos Deuses se enfocassem não só nas Deusas, mas também também em todas as criações em todos os reino. Será melhor que o amemos, disseram estes Deuses ciumentos, que não amemos a nenhum outro Deus nem a ninguém mais!
Após, os homens foram a espécie mais poderosa e os Deuses foram os homens mais poderosos, ficava pouco espaço para a discussão, com esta nova mitologia.
Começaram a surgir histórias a respeito daqueles que discutiam e perdiam. Nasceu o Deus da ira.
Logo, mudança toda a idéia a respeito da Deidade. Em lugar de ser a fonte de todo o amor; converteu-se na fonte de todo o temor.
Um modelo de amor que era principalmente feminino (o amor tolerante e constante de uma mãe por seu filho e, sim, inclusive de uma mulher por seu homem não muito brilhante, mas depois de todo útil) foi substituído pelo amor ciumento e iracundo de um Deus exigente e não tolerante, que não permitia interferência nem indiferença e que não ignorava nenhuma ofensa.
O sorriso da Deusa divertida, que experimentava um amor ilimitado e que se submetia com gentileza às leis da natureza, foi substituída pelo semblante sério de um Deus não muito divertido, que proclamava poder sobre as leis da natureza e que limitava o amor.
Este é o Deus que adoram na atualidade e assim é como chegaram aonde se encontram hoje em dia.
Surpreendente. Interessante e surpreendente. Com que objeto me diz tudo isto?
É importante que saiba que vocês maquinaram tudo. A idéia de que o “poder é direito” ou de que o “poder é força” nasceu de seus mitos teológicos criados pelos homens.
O Deus de ira, ciúmes e coragem foi imaginário. Não obstante, algo que se imagina durante muito tempo se volta real. Alguns de vocês ainda o consideram real atualmente. Entretanto, não tem nada que ver com a realidade final ou com o que em realidade está acontecendo aqui.
2009/8/1 prosperoclaudio
Indice:
1 – Predador ou simbionte?
2 – A hipótese do precedente sumeriano
3 – O protótipo civilizatório
4 – A mitologia como genética civilizacional
5 – Origens espirituais da dominação social
6 – Um novo modo-de-ver as origens da cultura civilizada
7 – Sociedades de parceria e capital social
Trechos:
A investigação dos pressupostos do capital social, sobretudo a partir das considerações de Humberto Maturana – segundo as quais o ser humano-social é constitutivamente colaborativo – coloca uma questão inelutável. Se o ser humano tem uma tendência básica para cooperar, por que surgiram, no seio das coletividades humanas, formas hierárquico-verticais de relacionamento e modos violentos e coercitivos de regulação dos conflitos inerentes à institucionalização dessas formas, que coíbem a cooperação e induzem à competição? E coloca, também, uma outra questão conexa: por que isso tem ocorrido, sistematicamente, pelo menos nos últimos seis mil anos?
Os trabalhos de Maturana reforçam a hipótese de que não somos necessariamente predadores eco-sociais. Segundo Maturana, como vimos, foi a cultura patriarcal que, destruindo as bases colaborativas da cultura matrística, introduziu um modo de coexistência que valorizou a competição, tendo resultado daí um universo social dominado pela guerra, pelas hierarquias e pelo poder. Todavia, Maturana não esclarece bem a partir de que momento da história ou da proto-história da nossa civilização ocorreu esta mudança cultural.
Levantou-se nos últimos anos a hipótese de que em algum momento do final do quinto milênio (ou no início do quarto) entramos num dos ramos de uma bifurcação que nos conduziu a esse tipo de civilização em que vivemos. Se tivéssemos tomado o outro caminho, tudo teria sido diferente (Abraham et al., 1989). [Abraham, Ralph; McKenna, Terence e Sheldrake, Rupert (1989). Caos, criatividade e retorno do sagrado: triálogos nas fronteiras do Ocidente. São Paulo: Cultrix-Pensamento, 1994.]
Ora, se conseguirmos descobrir alguma coisa das origens da visão de mundo que acompanhou e possibilitou a criação desse tipo de civilização em que vivemos – patriarcal, guerreira e dominadora: a civilização dos predadores eco-sociais – quem sabe poderemos imaginar como tudo poderia ter sido diferente. Se tivéssemos tomado o outro ramo da bifurcação, quem sabe fossemos hoje algo assim como simbiontes ao invés de predadores.
Talvez não seja possível detectar os rastros de um simbionte primitivo, se é que ele existiu; ou seja, apresentar evidências da presença pré-histórica de seres humanos que viviam em regime de parceria, entre si e com a natureza. Todavia, parece não ser impossível imaginar como seria uma civilização de simbiontes desenvolvidos, ao invés da atual civilização de predadores desenvolvidos. Este é o motivo pelo qual vale a pena o esforço de investigar as características originais do padrão do predador, ou seja, o seu fenótipo, para tentar, depois, imaginar como seria uma sociedade de simbiontes desenvolvidos, ou seja, para cotejar a estrutura e a dinâmica de uma sociedade de dominação, por um lado e de uma sociedade de parceria, por outro. Porque sociedade de parceria seria aquela na qual prevalecem relações de parceria que são, por definição, relações produtoras de capital social.