Escola de Redes

A escola é a rede

Este é um espaço para compartilharmos textos e provocações a respeito da idéia de "Democracia 2.0".

Talvez mais ameaçadora, a abertura da internet permite a grupos bem organizados simularem o apoio, "capturar e se fazer passar pela voz do povo", como disse Fishkin numa mensagem de e-mail.

Não há como voltar no tempo. Agora temos mais opinião pública exercendo pressão sobre os políticos do que nunca. A questão é como isso pode ser canalizado e filtrado para criar sociedades mais livres e bem sucedidas, porque simplesmente colocar as coisas online não é nenhum emplastro universal.

"Nesse momento, a questão não é se a internet é importante e se será utilizada por todos", disse Clay Shirky, um teórico da internet e autor de "Aí Vem Todo Mundo: O Poder de Organizar sem Organizações". Ele acrescentou, numa entrevista por telefone: "agora que ela é tão importante, é na verdade importante demais para não se pensar sobre os problemas constitucionais e de governança envolvidos".

Existe uma busca pela metáfora apropriada. Qual é o novo papel do governo: uma plataforma? Uma máquina como as de refrigerantes, na qual colocamos dinheiro para extrair serviços? Um facilitador? E qual é, de fato, o nosso novo papel - aquele pelo qual tanto esperamos?

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Democracia 2.0 espera por uma atualização
International Herald Tribune
Anand Giridharadas
Em Cambridge (EUA)
Talvez a maior das grandes ideias a ganhar velocidade no último milênio foi a de que os seres humanos podem governar a si mesmos. Mas ninguém quis dizer isso ao pé da letra.

O significado real na maioria das vezes era que nós poderíamos eleger pessoas para nos governar e esporadicamente renovar ou revogar seus contratos. Era suficiente. Não havia uma forma prática de envolver a todos nós, o tempo todo.

* Reprodução

As agências federais foram instruídas a divulgar online informações que antes eram fechadas. E
até mesmo a Casa Branca aderiu à onda do Twitter



As manchetes de Washington hoje falam de ajuda a bancos, estímulos, carros usados, Afeganistão e Paquistão, saúde pública. Mas é possível que os historiadores do futuro, ao olhar para o passado, fixem sua atenção num projeto bem mais discreto da Casa Branca de Barack Obama: a tentativa de descobrir como o governo pode se abrir à uma maior participação do público na era digital, de como tornar o autogoverno mais do que uma metáfora.

O presidente Obama declarou durante a campanha: "somos aqueles pelos quais estávamos esperando". A frase messiânica guardava a promessa de um novo estilo de política nessa era de tweets e buddy-pokes. Mas era algo vago, um paradigma jogado casualmente em nossas bebidas. Até agora, o gosto tem sido agridoce.

As agências federais foram instruídas a divulgar online informações que antes eram fechadas; os repórteres das publicações que existem somente na internet foram chamados para coletivas de imprensa; o novo portal Data.gov está pedindo aos cidadãos para criarem seus próprios programas usando conjuntos de dados do governo. Mas os esforços mais reveladores foram em "crowdsourcing" - pedindo aos cidadãos ideias para projetos políticos e permitindo que eles votem nas propostas uns dos outros pela internet.

Durante a transição, o governo criou um "Livro de Informações dos Cidadãos" online para as pessoas enviarem ideias ao presidente. "As ideias mais votadas irão para o topo da lista, e depois da posse, nós as imprimiremos e reuniremos numa pasta como as que o presidente recebe todo dia de especialistas e conselheiros", escreveu Valerie Jarrett, amiga e conselheira de Obama, aos eleitores.

Eles receberam 44 mil propostas e 1,4 milhões de votos dos internautas. Os resultados foram publicados sem muito alarde, mas foram embaraçosos - não tanto para o governo, mas para os cidadãos.

No meio de duas guerras e uma crise econômica, a ideia mais votada foi para legalizar a maconha, uma ideia quase duas vezes mais popular do que revogar os cortes de impostos de Bush sobre os ricos. Legalizar o pôquer online ficou no topo das ideias tecnológicas, duas vezes mais popular do que a criação de uma rede de wi-fi nacional. Revogar aisenção de impostos da Igreja da Cientologia reuniu três vezes mais votos do que levantar fundos para crianças com câncer.

Uma vez no poder, a Casa Branca usou novamente o crowdsourcing. Em março, o Escritório de Política em Ciência e Tecnologia realizou um debate online para tornar o governo mais transparente. Boas ideias surgiram, mas um número impressionante não tinha nenhuma relação com a transparência, com muitos pedidos para a legalização da maconha e um debate irritado (e sem fundamento) sobre a autenticidade da certidão de nascimento de Obama.

Se a internet precisava de um cutucão maior para cair de seu pedestal, o debate sobre a saúde o forneceu. Do ponto de vista do governo, a internet se mostrou muito mais útil para espalhar rumores sobre os "painéis de morte" (supostas listas que permitiriam à burocracia governamental decidir que pacientes mereceriam receber ajuda médica) do que para divulgar a verdade, e para fabricar polêmicas em vez de nutrir o pensamento livre que alguns imaginavam que seria o marco da internet.

Existe um vívido debate atualmente sobre o que alguns chamam de Gov 2.0. Um dos campos vê na internet uma oportunidade sem precedentes para trazer de volta o estilo direto de democracia ateniense. A visão foi retratada num recente documentário britânico, "Us Now", que pinta um futuro no qual cada cidadão está conectado ao Estado tão facilmente quanto ao Facebook, escolhendo projetos, questionando os políticos, colaborando com vizinhos.

"Podemos todos governar?", pergunta o filme no começo. (Ele pode, é claro, ser assistido pela internet).

As pessoas nesse campo apontam para o auxílio da tecnologia da informação para movimentos de base de Moldova ao Irã. Elas olham para a Índia, onde os eleitores podem acessar agora, via mensagem de texto, informações sobre as fichas criminais de candidatos parlamentares, e para a África, onde os telefones celulares estão ajudando a melhorar o monitoramento das eleições. Elas observam que a nova ferramenta pode estender o conhecimento científico e acadêmico confiável para um grande público. Elas observam como a internet, ao democratizar o acesso a fatos e números, encoraja tanto os políticos quanto os cidadãos a basearem suas decisões em algo mais do que palpites.

Mas essa visão de democracia da internet faz parte de uma evolução cultural mais ampla, que parte da expectativa de que seremos consultados sobre tudo, o tempo todo. Cada vez mais, os melhores artigos para ler são os mais divulgados por e-mail, a música que vale a pena ser comprada é de músicos que nós mandamos para o estrelato por mensagem de texto, o próximo livro a ser lido é o mesmo que foi comprado por outras pessoas que compraram o último livro que você comprou, e a mídia que antes nos fornecia informações agora publica aquilo que nós divulgamos no Twitter.

Nessa nova era, nosso consentimento é reunido a cada poucos minutos, e não a cada poucos anos.

Outros especialistas veem a internet de maneira menos romântica. Alguns tendem a se entusiasmar com a participação cívica online, mas são céticos em relação à internet como cura para todos os males da política. Eles acreditam que a rede cria uma ilusão falsa de igualdade, abertura e universalidade.

"Vivemos em uma era de experimentação democrática - tanto em nossas instituições oficiais quanto nos muitos jeitos informais pelos quais o público é consultado", escreve James Fishkin, cientista político de Stanford, em seu novo livro "Quando o Povo Fala". "Muitos métodos e tecnologias podem ser usados para dar voz à vontade do povo. Mas alguns pintam uma imagem da opinião pública vista através de um espelho de casa maluca."

Uma vez que é tão fácil filtrar o que alguém está lendo online, visões extremas dominam a discussão. Os moderados são menos representados, então os cidadãos que buscam um melhor sistema de saúde podem parecer menos numerosos do que os fãs de pôquer. A imagem de abertura e igualdade da internet representa falsamente suas desigualdades de raça, geografia e idade.

As mentiras se espalham como fogo no mato pela internet; Eric Schmidt, diretor-executivo do Google, que obviamente não se opõe ao progresso, alertou em outubro passado que se as grandes marcas do jornalismo confiável morressem, a internet se tornaria uma "latrina" de má informação. A Wikipédia tem acrescentado uma camada de edição - lembra-se da edição? - nos artigos sobre pessoas vivas.

Talvez mais ameaçadora, a abertura da internet permite a grupos bem organizados simularem o apoio, "capturar e se fazer passar pela voz do povo", como disse Fishkin numa mensagem de e-mail.

Não há como voltar no tempo. Agora temos mais opinião pública exercendo pressão sobre os políticos do que nunca. A questão é como isso pode ser canalizado e filtrado para criar sociedades mais livres e bem sucedidas, porque simplesmente colocar as coisas online não é nenhum emplastro universal.

"Nesse momento, a questão não é se a internet é importante e se será utilizada por todos", disse Clay Shirky, um teórico da internet e autor de "Aí Vem Todo Mundo: O Poder de Organizar sem Organizações". Ele acrescentou, numa entrevista por telefone: "agora que ela é tão importante, é na verdade importante demais para não se pensar sobre os problemas constitucionais e de governança envolvidos".

Existe uma busca pela metáfora apropriada. Qual é o novo papel do governo: uma plataforma? Uma máquina como as de refrigerantes, na qual colocamos dinheiro para extrair serviços? Um facilitador? E qual é, de fato, o nosso novo papel - aquele pelo qual tanto esperamos?

Tradução: Eloise De Vylder

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