
Elisabete Ferrarezi (2009)
Comecei minha atuação política ainda adolescente, na associação
amigos do bairro de Vila dos Remédios (Osasco/SP), que meu pai
ajudou a fundar. Sempre me interessei sobre as formas de
organização social e política e por isso me tornei socióloga. Em
meus primeiros trabalhos dialoguei com movimentos sociais de
habitação e posteriormente movimentos de educação de adultos.
Depois de exercer a função de educadora para crianças e jovens em
situação de rua, elaborei uma tese de mestrado sobre a política da
Secretaria do Menor (SP), que apontava a ausência de diálogo e
integração entre as instituições e agentes públicos e privados como
um dos principais entraves para a sustentabilidade de uma política
inovadora no atendimento aos jovens. O conflito entre instituições
levou a uma das mais graves crises na Febem/SP.
Em 1994, quando participava de um comitê da Campanha contra a Fome
e a Miséria, pela Vida na FGV, esse mesmo grupo constituiu o
primeiro centro de estudos do terceiro setor no Brasil. O tema era
pouco conhecido, pois não constituía ainda uma categoria de
pesquisa na academia.
Foi quando tive contato com Jane Jacobs e com o livro de Robert
Putnam sobre capital social. Comecei a estudar e escrever sobre as
novas formas de organização da sociedade civil. Percebi que a
ciência social tinha se distanciado um pouco dessa questão. Putnam
conseguiu colocar novamente o tema na agenda, salientando o papel
das relações sociais em sociedades modernas, como um dos fatores do
desenvolvimento.
Entrei no governo federal, em 1996, em uma carreira de
especialistas em políticas públicas e gestão governamental, e tive
a oportunidade de apresentar um ensaio de minha autoria sobre
terceiro setor ao Augusto de Franco, quando ele realizava uma
palestra na Escola Nacional de Administração Pública – ENAP, onde
eu trabalhava. Recebi o convite para trabalhar no Conselho da
Comunidade Solidária, onde pude desenvolver estudos sobre a reforma
do marco legal do terceiro setor que estava sendo coordenada pelo
Conselho. Esse, sem dúvida, foi o mais rico aprendizado
profissional que tive, estudando, desenvolvendo e trabalhando com
temas como desenvolvimento local, geração de renda, microcrédito,
todos envolvendo novas relações entre os atores sociais e
políticos.
Ao coordenar a formação de carreiras na ENAP levei temas como o das
relações e parcerias entre estado e sociedade, capital social e
redes para os programas dos cursos.
Fiz uma tese de doutorado sobre a Lei das OSCIP para registrar o
aprendizado em políticas públicas que aconteceu à época, pois a
elaboração da Lei 9.790/99 foi feita de modo democrático, num
exercício participativo, pouco comum à época no governo.
Assim, o tema das redes me interessa, à medida que dá continuidade
às minhas investigações pessoais e trajetória profissional.
Mas o foco de meus estudos são as relações do Estado com a
sociedade, principalmente nas políticas públicas, pois há ainda
muito que aprender nesse âmbito, considerando-se que essas
políticas podem destruir ou gerar capital social. Como a
administração pública se relacionará com as redes sociais? Terá
trajetória semelhante às relações com o terceiro setor? Como as
redes de trabalho no setor público podem ser enriquecidas (maior
produtividade e efetividade) à luz dessa experiência de rede
social? Estou aqui para iniciar um novo aprendizado, continuar
estudando e instigando os meus pares.