
Marcelo Estraviz (2009)
Eu não lembro quando o assunto “redes” apareceu pra mim pela
primeira vez. Lembro sim que de cara fui contra (
risos),
pois parecia mais uma daquelas modas como tantas outras que vi
surgir e sumir. A primeira das modas que vivi como profissional foi
a da reengenharia (eu ainda era consultor de empresas e a
multinacional ganhava muito dinheiro vendendo isso). Depois veio a
qualidade total, o
just in time... até hoje sou precavido
com novos conceitos que surgem. Não foi diferente com redes (aliás
ainda não é). Depois de um período na iniciativa privada comecei a
atuar como consultor para a área cultural e a area social. Olhando
em retrospecto vejo que eu já me interessava por redes, só que na
época não tinha esse nome. Chamemos de “coletivos”. Nessa época eu
criei a associação de ex-alunos do
colégio que estudei, montamos também
um
encontro
mensal com jovens que atuavam no terceiro setor; participei de
um grupo de ex-alunos de
administração
pública... Hoje vejo que eram redes. Belas redes. Não
hierárquicas, informais, úteis e prazerosas para os
integrantes.
Em 1999, lendo livros sobre captação para melhorar o conteúdo do
meu próprio sobre o tema, encontrei dois temas que me chamaram
a atenção. Um deles eu adicionei ao meu livro: “
cidadania
ativa”. O outro não adicionei, mas ficou na minha cabeça por
muito tempo: “entidades relacionais”. Um de meus projetos na época
era criar Centros de Informação para a Juventude. Eles eram
inspirados nos que conheci e usei quando fiz minha faculdade em
Barcelona, no começo dos 90. A idéia das entidades relacionais
somada à incipiente idéia da internet que ia além de webpages e
emails me fez pensar que se deveria criar não um mas muitos centros
de juventude conectados entre si. Estes, juntos, somariam
informação local a ser disponibilizada para a rede que por sua vez
seria disponibilizada para os jovens freqüentadores de qualquer
centro. Com isso o show no barzinho na Vila Ré seria informado para
qualquer jovem, inclusive para o que estivesse na outra ponta da
cidade ou do estado. Levei essa idéia para o governo do estado de
São Paulo (gestão Mario Covas) mas a área de tecnologia vivia outro
problema: o bug do milênio. Fui então buscar trabalho e caí na web
e a febre ponto.com.
Depois do bug que não aconteceu , em 2000 a rede era a web. Entrei
a fundo nisso montando uma
empresa ponto-com. Como 99,9% das
empresas de Internet, abrimos escritórios em 5 ou 6 países e os
fechamos em menos de 1 ano, junto com a empresa. Dessa época ficou
o prazer de ter visitado Buenos Aires 6 vezes em 10 meses (era a
sede da ponto.com) e a sensação de que a experiência com a web era
uma mudança definitiva na minha vida e carreira.
E foi. Voltei ao governo do estado decidido a implantar cybercafés
gratuitos para todos. Essa idéia era um aprimoramento dos tais
centrosde informação de juventude, agora totalmente web, totalmente
espaço de acesso. Criamos então o
Acessa São
Paulo.
O Acessa me permitiu pesquisar um universo inexplorado e novo. Eu
me dedicava diariamente a entender o usuário de cybercafé. Acessei
a web de todo e qualquer lugar com acesso. Desde os infocentros até
os computadores do Mcdonalds, passando pelas lan houses e
cybercafés da periferia. Foi nessa época também que virei
blogueiro e nessa época produzi
os artigos que mais gosto. Entre eles um que teve grande
repercussão na blogosfera da época:
A Linkania e o
Religare.
Nessa época me envolvi com um outro coletivo, que “se reunia”
através de uma lista de discussão chamada
Metáfora.
Eram ativistas, hackers e curiosos que bolavam formas de envolver
tecnologia com um mundo melhor do jeito mais anárquico e divertido
que vivenciei até agora. Desse grupo saíram muitas iniciativas,
entre elas a
Metareciclagem, bastante
difundida hoje em dia em muitos lugares e que, com a entrada no
nosso
ministro hacker Gilberto Gil criou, através dos Pontos de
Cultura, um “esparrame” da vivência não hierárquica, da
ética
hacker e do software (e vida!) livre.
Pra finalizar, tenho que completar essa chegada ao tema através de
mais duas pessoas: Augusto e Ugarte. O primeiro me apresentou o
segundo. Ambos viraram meus amigos. Augusto eu conhecia da época da
dona Ruth e do Comunidade Solidária. Mas me aproximei mesmo quando,
coordenando um projeto para a prefeitura e união européia chamado
Nós do Centro,
convidei o Augusto para nos apoiar nas ações de Desenvolvimento
Local que queríamos implantar lá e para nos apropriarmos dessas
metodologias através dele. Ele me falou do David de
Ugarte,coincidentemente no nosso primeiro café da manhã, pois
acabava de receber um livro dele chamado "
11-M,
Redes para ganar uma guerra". Mas fui conhecer o David mais de
um ano depois, em Porto Alegre, na Conferencia de Cidades. Do
encontro com David e após ele ter se transformado em meu mais novo
amigo de infância, passei 10 dias com ele em Madrid julho passado e
... aqui estou. Cheguei, chegamos! Oi!