Tinha esses livros no meio do caminho. No meio do caminho tinha
esses livros.
Pra falar sobre textos e livros que me “afetaram” quanto ao tema
redes eu farei 4 grandes cortes em minha vida, pra facilitar a
leitura e o entendimento.
... de vovô viu a uva direto pra futuros assustadores...
O primeiro corte se dá quando eu tinha 15 ou 16 anos. Calhou de eu
ler, em menos de 1 mês, e por interesse meu (não da escola), 3
livros que mudaram minha concepção da idéia de futuro:
Admirável
Mundo Novo, o
Farenheit 451 (não
confundir com o documentário do Moore) e
1984. Não lembro a ordem que os li, mas pouco importa. Cada
distopia me assustou e fascinou ao mesmo tempo. Eu acho que foi
isso, ou o que me levou a isso, que me fez estar sempre envolvido
com coisas que fossem relacionadas ao futuro ou no limite mais
posterior ao nosso presente. Eu quis e quero sempre estar um ou
mais passos a frente, não pra levar vantagem, como o Gerson, mas
porque na realidade o presente, depois de consolidado, me entedia.
Até hoje ainda vejo algo novo e o encaixo em um dos 3 futuros
previstos nos 3 livros. Big Brother? Farenheit. Drogas sintéticas?
Admirável Mundo Novo. Guantánamo? 1984. E por aí vai. Fico aqui
pensando que eu gostava de entender o futuro porque achava que no
passado tinha havido algum erro de percurso... Eu gostava dos
índios, mas sabia que eu não queria viver como eles.Tinha algo de
moderno, urbano, futurista, que me fascinava mais como distração do
que como solução. O passado me parecia mais assustador. O futuro,
apesar de sombrio, poderia ter a chave para uma solução. E eu,
pretencioso que só, achava que a encontraria... Nem tinha lido
“
o
poder do mito” ainda, e nem tinha começado a fazer terapia...
risos...
... das distopias para os nirvanas...
Corte abrupto, máquina do tempo, viagem curta, vamos pros meus 18
anos, quando fui morar em Barcelona. Ainda me envergonho um pouco
em dizer, mas um livro que mexeu muito comigo foi o Alquimista do
Paulo Coelho... ganhei-o na festa de despedida que fizeram pra mim,
li-o no avião, cheguei em Madrid exercendo plenamente minha lenda
pessoal! Essa época em Barcelona é cheia de leituras mezzo
esotéricas mezzo mitológicas... Li muito Herman Hesse. Li muito
Richard Bach. Passeava por Rubem Fonseca, Fernando Pessoa e muitas
biografias. Por ter sido
squatt, comecei a ler os
anarquistas
e as primeiras cartas do
subcomandante Marcos. Mas os livros que mexeram comigo foram
definitivamente
O Alquimista e o
Sidarta. Sim,
é cafona, mas fazer o que? É a realidade...:) Associo esse período
a uma busca por integração, plenitude, simplicidade... Os livros
geraram o fortalecimento da minha crença de que "estamos todos
conectados".
... do cybermonge para a linkania...
Novo corte, viagem longa, desta vez damos um enorme pulo até os
meus 30 anos. Recém separado, com tempo de sobra pra leituras e
cheio de energia por novidades. Foi um período de muita produção de
textos. Meu artigo
Linkania só saiu
porque eu estava rodeado de gente que discutia junto comigo temas
como software livre, anarquia, ativismo, hackerismo, TAZ (
zonas
autônomas temporárias). O
Manifesto
Cluetrain foi o primeiro divisor de águas pra mim. O que li
depois, em geral, era recomendado por alguém, que já digeria algo
antes. Tinha toda a
coleção
Baderna da editora Conrad (onde
provos
foi o que mais gostei). Outro livro fantástico, da mesma Conrad
chama-se
FIM,
outra distopia que me fez lembrar daqueles 3 livros da minha
adolescência, com a diferença do que era um futuro próximo,
contendo muitos dos momentos desta pósmodernidade. Tinha também o
Castells
e sua trilogia onde li só o terceiro (talvez a primeira vez que de
fato vi o termo rede sendo estudado), Mafesoli e o conceito do
nomadismo... Enfim, foi um período de muita leitura, ou sinopses (e
sinapses) e debates. O registro que ficou foi mais a de uma grande
chocadeira
colaborativa de muito intercâmbio de informações.
... da metáfora para o gorila...
Mais um corte, viagem curta, para os meus 36 anos:
Ismael. Esse livro é
para mim a mudança de paradigma. Foi o que fez “tóin”. Ele me
explicou definitivamente o passado e gerou luzes para o que me faz
sentido fazer para um futuro interessante. Completou o ciclo que
começou com aqueles primeiros livros da minha adolescência.
Facilitou minha vida, pois posso viver conforme umas crenças que
sempre tive, e agora com convicção. A natureza explica tudo. E o
homem, com o advento da civilização, fez várias (desculpe o termo)
cagadas. Mas não se trata de voltar a ser índios. Trata-se apenas
de desistir daquilo que não faz sentido porque não é natural:
Hierarquia? Desisto dela. Rigidez? Prefiro flexibilidade. Guerra?
Propriedade? Desisto e não sou cúmplice.
... dos largadores para a escola de redes...
Último corte. Última parada. Apesar de leituras em períodos
diferentes, posso considerar Augusto e David como dentro do mesmo
corte. Um me fazendo ler o outro. Experiência riquíssima. Do
Augusto eu selecionaria o
livrinho (que eu chamo de seisho-no-iê, porque minha mãe tinha
uma bíblia pequena e plastificada assim). E do David eu seleciono o
Poder das Redes, mas principalmente o capítulo
da
épica e da lírica. Algo genial sacarmos que devemos desistir
também dos heróis que nos ensinaram a gostar. O grupo Los Hermanos
tem uma
música
que também
fala disso.
(Aliás, bem que podíamos fazer uma trajetória musical também aqui
na escola hein?). Deste último corte posso garantir que mais do que
os textos e livros que li do Augusto e do David, o que valeu mesmo
foi o convívio em diversas oportunidades. Esse privilégio foi a
verdadeira riqueza.
No orkut perguntam quais seus livros preferidos. Eu respondo:
Os que ainda não li. Por isso meu atual livro preferido é o do
Tocqueville,
que não li e está agora na estante me esperando.