
Augusto de Franco (2007)
No
velho site inicial da
escola - hoje aposentado, por vários motivos, sendo que o principal
foi a falta de interatividade - demos o pontapé inicial, postando
dois itinetários: o que havia preparado David de Ugarte (em meados
de 2008) e aquele que eu já havia feito (de abril de 2006 a março
de 2007).
Meu itinerário intitulava-se
INDICAÇÕES DE LEITURAS SOBRE DESENVOLVIMENTO. Agora, em janeiro
de 2009, estou tentando refazê-lo, para explicitar melhor a relação
com as redes sociais.
Vou recomendar as leituras que, a meu ver – ou seja, do ponto de
vista que esposei no meu livro “Capital Social” (2001) –, são úteis
para uma compreensão básica da nova concepção de desenvolvimento,
compreendendo
backgrounds (no sentido em que a moderna
análise de fundamentos de teorias físicas emprega o termo),
pressupostos e teorias, destacando sempre dois níveis: leituras
fundamentais e leituras de aprofundamento.
INTRODUÇÃO
Durante muito tempo adiei a tarefa de escrever um texto com
indicações de leituras sobre a nova concepção sistêmica de
desenvolvimento e seus conceitos correlatos, como capital social ou
rede social. Em primeiro lugar porque dá muito trabalho fazer isso
se se trata não apenas de listar formalmente uma bibliografia e sim
de orientar a leitura dos interessados no tema a partir de uma
classificação que tenha sentido pedagógico ou científico, no quadro
da literatura de divulgação e da bibliografia teórica fundamental.
Indicações de leitura envolvem juízos sobre o que é mais
importante. E o que é importante segundo uma visão pode não ser tão
importante assim segundo outra.

Alexis de Tocqueville

Jane Jacobs
Por exemplo, para mim o livro mais importante sobre capital social
– do ponto de vista, vamos dizer, da pré-história do conceito e dos
seus elementos fundantes – é o clássico “A Democracia na América”
(1835-1840) de Alexis de Tocqueville. Seguido por outro clássico,
“Morte e Vida das Grandes Cidades Americanas” (1961) de Jane
Jacobs. Avalio que estudar esses dois textos é muito mais relevante
do que ir “procurar pêlo em ovo” em Lyda Hanifan (1916; tida e
havida, não sei bem por que, como importante pelo fato de ter sido,
segundo dizem, a primeira pessoa a usar o termo ‘capital social’),
em Ivan Light (1972) ou em Glenn Loury (1977; 1987). Mas é claro
que há uma visão por trás dessa escolha. Penso que, dessas todas, a
única pessoa – antes do final da década de 1980 – que empregou a
expressão ‘capital social’, com o sentido que hoje atribuímos ao
conceito, foi Jane Jacobs. Também não dou muito destaque a Pierre
Bordieu (1980; 1985), considerado, com alguma razão, um dos
pioneiros da idéia ou a James Coleman (1988; 1990), conquanto
reconheça neste último o mérito de ter introduzido o debate nos
círculo dos teóricos (em geral dos sociólogos que queriam ser
levados a sério pelos economistas) do desenvolvimento.

O segundo motivo pelo qual vinha adiando a tarefa é a falta de
tempo para ler tudo o que é produzido, aliada à falta de coragem
para recomendar muita coisa que não tenha sequer folheado. Assim, é
difícil fazer indicações atualizadas em assunto tão novo sem manter
uma defasagem de, pelo menos, quatro ou cinco anos. Aqui é bom
lembrar que não se trata de recomendar a leitura de trabalhos que
abordam diretamente a questão da nova concepção de desenvolvimento
(o que, mesmo assim, seria difícil), mas de apontar leituras
básicas que também tenham a ver com os pressupostos e com as
conseqüências dessa concepção, o que envolve necessariamente temas
correlatos, que vão desde as teorias sobre a cooperação (envolvendo
considerações sobre a ‘natureza humana’, seja lá o que isso for),
passando pela teoria dos jogos, pela teoria dos sistemas dinâmicos
complexos e muitos outros temas, até chegar às teorias mais
recentes sobre redes sociais e sobre a democratização da
democracia. Ou seja, o mundo todo e mais alguma coisa.
Resolvi, entretanto, enfrentar essas duas dificuldades por meio da
seguinte simplificação. Vou recomendar as leituras que, a meu ver –
ou seja, do ponto de vista que esposei no meu livro “Capital
Social” (2001; aliás o primeiro livro sobre o assunto publicado no
Brasil; hoje, quase cinco anos depois, temos apenas mais um, que
mencionarei adiante) –, são úteis para uma compreensão básica da
nova concepção de desenvolvimento, compreendendo backgrounds (no
sentido em que a moderna análise de fundamentos de teorias físicas
emprega o termo), pressupostos e teorias, destacando sempre dois
níveis: leituras fundamentais e leituras de aprofundamento. Em
alguns temas, como capital social, vou fazer indicações de leituras
recentes (com uma defasagem de alguns anos, pelo motivo que já
expus acima).
Nas leituras fundamentais – para cada uma das categorias
consideradas (ou seja, A -Backgrounds, B – Pressupostos, C –
Teorias) – vou restringir arbitrariamente o elenco a algo que seja
factível e, portanto, útil ao leitor não-especialista e que não
pode dedicar todo o seu tempo de vida ao assunto, como se estivesse
respondendo a pergunta: se o leitor vivesse em um reino (um reino
mesmo, para ficar mais prosaico e porque, obviamente, deveria ser
uma autocracia) onde houvesse uma regra segundo a qual uma pessoa
só pudesse ler dez textos sobre um mesmo assunto, quais os textos
que você recomendaria?
PARA QUEM NÃO TEM MUITO TEMPO
Antes de começar propriamente as indicações de leituras segundo o
esquema apresentado acima, aduzo, nesta segunda edição do presente
artigo, uma listinha para quem não tem muito tempo. É uma lista
selecionadíssima (e básica) para quem só tem tempo de ler uma dúzia
de obras (não muito complexas), já colocada em ordem, vamos dizer,
pedagógica:
1 | Offe, Claus (1999). “A atual transição da história e algumas
opções básicas para as instituições da sociedade”, in Bresser
Pereira, L. C., Wilheim, J. e Sola, L. “Sociedade e Estado em
transformação”. Brasília: ENAP, 1999.
2 | Castells, Manuel (1996). “A Era da Informação: economia,
sociedade e cultura”, em três volumes: “A sociedade em rede”, “O
poder da identidade” e “Fim de milênio”. São Paulo: Paz e Terra,
1999.
3 | Fukuyama, Francis (1999). “A grande ruptura: a natureza humana
e a reconstituição da ordem social”. Rio de Janeiro: Rocco,
2000.
4 | Franco, Augusto (2001). “Uma teoria da cooperação baseada em
Maturana” in “Aminoácidos 4”. Brasília: AED, 2002.
5 | Tocqueville, Alexis (1835-1840). “A democracia na América”. São
Paulo: Martins Fontes, 1998.
6 | Jacobs, Jane (1961). “Morte e vida das grandes cidades”. São
Paulo: Martins Fontes, 2000.
7 | Putnam, Robert (1993). “Comunidade e democracia: a experiência
da Itália moderna”. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas,
1996.
8 | Ormerod, Paul (1994). “A morte da economia”. São Paulo:
Companhia das Letras, 1996.
9 | Capra, Fritjof (1996). “A teia da vida: uma nova compreensão
científica dos sistemas vivos”. São Paulo: Cultrix, 1997.
10 | Margulis, Lynn (1998). “O Planeta Simbiótico: uma nova
perspectiva da evolução”. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.
11 | Johnson, Steven (2001). “Emergência: a vida integrada de
formigas, cérebros, cidades e softwares”. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar, 2003.
12 | Ugarte, David (2007). "O Poder das Redes". Porto Alegre:
CMDC/EdiPUCRS, 2008.
13 | Franco, Augusto (2007). "Alfabetização Democrática". Curitiba:
FIEP/Rede de Participação Política do Empresariado, 2007.
Em um ano de leituras não seria difícil cumprir tal programa
introdutório. Recomendaria como guia o meu artigo “Capital social e
desenvolvimento local” (in Vergara, Patrício (org.).
“Desenvolvimento endógeno: um novo paradigma para a gestão local e
regional”. Fortaleza: IADH, 2004).
ABRINDO A CABEÇA
O que é necessário para compreender a nova concepção de
desenvolvimento? Em primeiro lugar, abrir a cabeça. Uma nova
concepção sistêmica tem a ver com a compreensão dos sistemas, das
redes, da simbiose, da emergência e da inteligência coletiva. Como
leituras fundamentais, recomendaria inicialmente as seguintes obras
de divulgação (mantendo o limite de dez indicações, classificadas
abaixo em ordem temporal):
A1) Backgrounds (leituras fundamentais)

Humberto Maturana
1 | Maturana, Humberto e Varella, Francisco (1973). De máquinas e
seres vivos – autopoiesis: a organização do vivo. Porto Alegre:
Artes Médicas, 1997.

William Irwin Thompson
2 | Thompson, William Irwin (org.) (1987). “Gaia: uma teoria do
conhecimento”. São Paulo: Gaia-Global, 1990.
3 | Gleick, James (1987). “Caos: a criação de uma nova ciência”.
Rio de Janeiro: Campus, 1989.
4 | Maturana, Humberto & Verden-Zöller, Gerda (1993). “Amor y
Juego: fundamentos olvidados de lo humano – desde el Patriarcado a
la Democracia”. Santiago de Chile: Instituto de Terapia Cognitiva,
1997.

5 | Capra, Fritjof (1996). “A teia da vida: uma nova compreensão
científica dos sistemas vivos”. São Paulo: Cultrix, 1997.

6 | Levy, Pierre (1994). “A inteligência coletiva. Por uma
antropologia do ciberespaço”. São Paulo: Loyola, 1998.

Lynn Margulis
7 | Margulis, Lynn (1998). “O Planeta Simbiótico: uma nova
perspectiva da evolução”. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.
8 | Lewontin, Richard (1998). A tripla hélice. São Paulo: Companhia
das Letras, 2002.
9 | Gladwell, Malcolm (2000). “O ponto de desequilíbrio: como
pequenas coisas podem fazer uma grande diferença”. Rio de Janeiro:
Rocco, 2002.
10 | Johnson, Steven (2001). “Emergência: a vida integrada de
formigas, cérebros, cidades e softwares”. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar, 2003.
Como se pode ver, não há seqüência compreensível na lista acima. Os
assuntos estão misturados. São textos de divulgação (talvez com
exceção do primeiro e do sexto), para fazer pensar. Uma indicação
de ordem de leitura inicial poderia ser: 1º) Gleick (3) –> 2º)
Capra (5) –> 3º) Gladwell (9) –> 4º) Johnson (10). Depois o
leitor estabeleceria, para os seis restantes, a ordem que lhe
parecesse mais instigante. O único livro difícil é o de Maturana
(1).
Para quem está muito fixado nos temas econômicos recomendaria
trocar Levy (6) ou Maturana (4) por Ormerod, Paul (1994). “A morte
da economia”. São Paulo: Companhia das Letras, 1996 (um livro que,
de qualquer modo, não deveria ser ignorado). Não tem nada a ver uma
coisa com a outra, eu sei. O objetivo desta primeira investida de
leituras e desarrumar a cabeça que foi mal-arrumada pela escola e
pela universidade.
CAPTANDO O “DNA” DO TEMA
Pedro Doria, no caderno Link do jornal O Estado de São Paulo
(22/05/06), transcreve “o tamanho do conhecimento humano, segundo
os cálculos de engenheiros entrevistados pelo repórter Kevin Keller
para a revista dominical do New York Times”.
É claro que esse tipo de conta só poderia mesmo ser coisa de
engenheiro. Mas segundo a matéria, “os números são os seguintes: 32
milhões de livros, 750 milhões de artigos, 25 milhões de músicas,
500 milhões de imagens, 500 mil filmes, 3 milhões de vídeos e 100
bilhões de paginas da web”. O texto de Pedro Doria é sobre “A
digitalização dos livros”, título do artigo. Ele argumenta que “a
biblioteca com todo o conhecimento não é mais tão impossível,
evidentemente”. Poderíamos acrescentar: todo o conhecimento
armazenado em mídias não-vivas, pois, como diz um provérbio
africano, ”quando um homem morre é como se uma biblioteca inteira
se incendiasse”. Ou poderíamos discutir que o conhecimento não é
exatamente o que foi armazenado, mas alguma coisa – necessariamente
uma mensagem, considerando que, como nos ensinou Norbert Wienner,
um padrão é uma mensagem e pode ser transmitido como tal – que, uma
vez acessada, é recriada pelo sujeito que interage com o registro,
de modo adaptativo.
Doria escreve que “todo o conhecimento humano cabe em 50 petabytes.
Um prédio de dois andares armazena esses discos todos”, atualizando
o sonho de uma nova biblioteca de Alexandria. Por outro lado,
“quando tudo estiver digitalizado e pessoas começarem a fazer
buscas cruzadas e a enlaçar links, o conhecimento fatalmente se
expandirá”. É possível. Contudo, às vezes penso que alguns textos
podem resumir milhões de outros; ou melhor, que um determinado
padrão de conhecimento (ou ‘modo-de-conhecer’) está presente em
toda a literatura de um determinado tipo de civilização. Os livros
e artigos de que fala Doria são os que foram escritos a partir do
início da escrita na Suméria. Talvez contenham o mesmo “DNA”. Coisa
diferente seria ter acesso, por exemplo, à cultura Vinca, que
floresceu nos Balcãs, há 7 mil anos e que possuía uma forma de
“escrita” simbólica, não alfabética, que não se registrava segundo
os padrões originários da escrita pictográfica. Ou, para citar
outro exemplo, a cultura das aldeias agrícolas neolíticas,
desenvolvida durante os 4 milênios imediatamente anteriores do
surgimento das cidades (na verdade, do Estado) e do que é
considerado como “civilização”, na antiga Mesopotâmia, da qual
desconhecemos as formas de registro ou, pelo menos, não sabemos
“lê-las” adequadamente nos achados arqueológicos (utensílios e
ferramentas, pinturas e esculturas, monumentos e outras
construções).
Esse mesmo fenômeno deve se reproduzir no tocante a um determinado
assunto. Uma vez apreendido o modo de abordagem e os modelos
mentais subjacentes aplicados a um tema, o estudioso se apropria do
tema (ou do “DNA” do estudo do tema), sem necessidade de ler tudo o
que se escreveu sobre o assunto. Do contrário não seria possível
construir conhecimento novo sobre um tema, pois que é praticamente
impossível – em boa parte dos casos, na contemporaneidade – ler
tudo o que já se escreveu sobre um assunto quando, a rigor, seria
necessário, paradoxalmente, conhecer tudo, ou quase.
Mas, a rigor, também não é possível saber o quanto uma pessoa deve
ler e o quê ela deve ler para se qualificar como contribuinte de
conhecimento novo sobre um assunto, a não ser seguindo o julgamento
de outras pessoas que já dominam o tema. E essas pessoas, em geral,
têm recomendações distintas, porquanto baseadas nas suas próprias
experiências, quer dizer, no caminho particular de leituras que
fizeram.
Num universo de 32 milhões de livros e 750 milhões de artigos, fico
refletindo sobre a minha dificuldade de selecionar não mais do que
80 textos sobre um assunto específico: a nova concepção sistêmica
de desenvolvimento. Toda dificuldade se resume em saber o que será
necessário ler para captar o “DNA” do tema (ou, melhor, do estudo
do tema).
A2) Backgrounds (leituras de aprofundamento)
1 | Axelrod, Robert. “The evolution of cooperation”. New York:
Basic Books, 1984.
2 | Thompson, William Irwin (ed.). “Gaia 2 – Emergence: the new
science of becoming”. New York: Lindisfarne Press, 1991.
3 | Gell-Mann, Murray (1994). “O quark e o jaguar: aventuras no
simples e no complexo”. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.
4 | Cowan, George, Pines, David & Meltzer, David (eds.).
“Complexity: metaphors, models and reality”. Cambridge, MA: Perseus
Books, 1994.

Stuart Kauffman
5 | Kauffman, Stuart. “At home in the universe: the search for laws
of self-organization and complexity”. New York: Oxford University
Press, 1995.
6 | Holland, John. “Hidden order: how adaptation builds
complexity”. Cambridge, MA: Helix Books, 1995.
7 | Axelrod, Robert. “The complexity of cooperation: agent-based
models of competition and collaboration”. New Jersey: Princeton
University Press, 1997.
8 | Holland, John. “Emergence: from chaos to order”. Reading, MA:
Perseus Books, 1998.
9 | Axelrod, Robert & Cohen, Michael. “Harnessing complexity:
organizational implications of a scientific frontier”. New York:
Basic Books, 2000.
10 | Thompson, William Irwin. “Self and society: studies in the
evolution of consciousness”. Charlottesville, VA: Imprint Academic,
2004.
11 [Opcional] | Kauffman, Stuart. “The origins of order:
self-organization and selection in evolution”. New York: Oxford
University Press, 1993.
A indicação de número 11 (que transborda da lista dos dez
prometidos), assim como a indicação 4, se referem a textos bem mais
difíceis, que foram recomendados aqui por se tratarem já de
clássicos do assunto, se é que se pode falar assim de estudos ainda
tão na fronteira do conhecimento sobre complexidade e
auto-organização.
Estou assumindo, como parece óbvio, que o
background
científico
stricto sensu de uma nova concepção sistêmica de
desenvolvimento é constituído, basicamente, pelos conhecimentos
sobre complexidade e auto-organização ou emergência. Com isso estou
deixando fora dessa categoria os conhecimentos sobre sistemas
anteriores à descoberta da complexidade – tal como passou a ser
tratada pelo
Santa Fe Institute –, não porque esteja
partindo da hipótese de que tais conhecimentos não são mais
relevantes e sim porque penso que o núcleo fundamental da nova
maneira de olhar os sistemas dinâmicos pode ser deduzido, latu
sensu, das teorias mais recentes (sobretudo dos anos 90 para cá). É
evidente que algumas obras sobre teoria dos sistemas e dinâmicas
complexas mereceriam menção, quando menos pelo seu papel pioneiro.
Vêm-me à cabeça agora três clássicos importantes, que cumpriram
importante papel na minha própria formação:

Norbert Wiener
Wienner, Norbert. “Cybernetics”. New York: Wiley, 1948.

Ludwig von Bertalanffy
Bertalanffy, Ludwig Von (1968). “Teoria geral dos sistemas”.
Petrópolis: Vozes, 1975.

Ross Ashby
Ashby, Ross. “Uma introdução à cibernética”. São Paulo:
Perspectiva, 1970.
Deixei de fora, ademais, uma extensa literatura que surgiu no
século 20, que faz parte da ascensão do pensamento sistêmico e que
o leitor pode recuperar, sem dificuldade, nos capítulos 2, 3 e 4 do
livro de Fritjof Capra indicado na primeira lista (A1: 5): a
“Tectologia” de Alexander Bogdanov (1912-1917); a “Teoria Geral dos
Sistemas” de Bertalanfyy (já lembrada acima), a “Cibernética”
(Wienner, também já lembrado, além de Von Neummann, Shannon e
McCulloch) e, depois, os trabalhos correlatos (ou correlacionáveis)
de von Foerster, Prigogine, Haken, Eigen, Lovelock, Margulis,
Maturana e Varela – alguns dos quais (os mais óbvios) já indicados
por mim. Para quem nutre algum interesse histórico pela matéria ou
avalia que revisitar os clássicos pode despertar um inusitado
potencial heurístico (eu, por exemplo, acredito firmemente nisso),
o melhor é pegar o excelente “The web of life” de Capra (1996) e
repetir, passo-a-passo, o seu caminho de leituras. Talvez Capra
devesse refazer agora – dez anos depois – o mesmo trabalho. Talvez,
se fizesse isso, incluiria boa parte da segunda lista (A2).
A maioria dos livros acima não está traduzida para o português.
Talvez haja alguma coisa em espanhol (mas não tive tempo de
verificar). Infelizmente não é possível ter uma boa idéia do
assunto lendo apenas as duas traduções indicadas acima.
Volto a afirmar que as leituras indicadas na primeira lista (A1) se
referem, em sua maioria, a obras de divulgação. Seu papel, como
disse acima, é o de desarrumar a cabeça que foi mal-arrumada pela
escola e pela universidade. (Aliás, nessa categoria de “desarrumar
a cabeça” teria ainda outras indicações importantes: leia tudo o
que puder de William Irwin Thompson: “At the edge of history”
(1971), “Passages about Earth” (1973) e sobretudo “Transforming
history” (2001); pelo menos dois livros de Howard Bloom: “The
Lucifer Principle” (1995) e “Global Brain” (2000); a formidável
obra de Kevin Keller: “Out of control” (1994); e até o já velho
livro de Starhawk: “Dreaming the dark” (1982) – depois disso,
garanto, você não terá mais tanta certeza sobre a utilidade do que
lhe ensinaram nas escolas, em especial se conseguir ler o último
livro de Thompson indicado acima, do qual traduzi e publiquei o
segundo capítulo, “Cultural history and complex dynamical systems”,
na ‘
Carta Capital
Social 97’).
Para começar a entrar no nosso assunto para valer, entretanto, é
necessário – por mais árduo que seja – ler as obras indicadas na
segunda lista (A2), pelo menos as de número: (5), (6), (8) e (9).
Avalio quem levar a sério o estudo dessas obras terá boas chances
de captar o que chamei de “DNA” do estudo do tema.
Nesta segunda lista (A2), os livros aparecem em ordem cronológica e
não em ordem de complexidade crescente, como deveria constar numa
recomendação com pretensões pedagógicas. Uma ordem possível, nesse
sentido, seria: (10) => (3) => (2) => (5) => (6) =>
(8) => (1) => (7) => (9) => (4) [=> (11)].
Para finalizar, relembro que adotei uma classificação simplificada,
que inclui apenas três categorias: A) backgrounds (no sentido em
que a moderna análise de fundamentos de teorias físicas emprega o
termo), B) pressupostos e C) teorias (destacando sempre dois
níveis: leituras fundamentais e leituras de aprofundamento). Sobre
cada um dos temas acima, estou fazendo apenas 10 indicações [e mais
uma ou duas opcionais, fora da conta], o que resultará numa lista
bibliográfica básica de 80 textos.
VENDO O QUE ESTÁ POR BAIXO
Antes de qualquer coisa quero dizer que tomo como pressupostos de
uma concepção sistêmica de desenvolvimento, as diferentes hipóteses
sobre alguma coisa que se possa chamar de “natureza humana” (e não
resisto à tentação de acrescentar o batido chiste: seja lá o que
isso for). Sobre a natureza da ‘natureza humana’ – uma discussão
infindável, na qual não vou entrar – retenho apenas o que as
teorias da cooperação (e, por reflexo, as da competição)
diretamente relacionadas com as teorias da evolução, em termos
biológicos mesmo, têm a dizer sobre o assunto. Temos visões
biológicas competitivas e visões biológicas cooperativas (e temos
também as visões supostamente equilibradas, que na verdade não
resolvem o problema – porque não entram no problema – segundo as
quais o ser humano não seria nem inerentemente competitivo, nem
cooperativo). Uma boa leitura para colocar o problema é a que faz o
zoólogo Matt Ridley (um dos indicados por mim na lista abaixo) em
“As origens da virtude: um estudo biológico da solidariedade”
(1996).
Ridley mostra, em uma passagem que já citei uma dezena de vezes,
que “Thomas Hobbes foi o antepassado intelectual de Charles Darwin
em linha direta”. Essa observação tem grande importância para o
nosso propósito. Continua Ridley: “Hobbes (1651) gerou David Hume
(1739), que gerou Adam Smith (1776), que gerou Thomas Robert
Malthus (1798), que gerou Charles Darwin (1859). Foi depois de ler
Malthus que Darwin deixou de pensar sobre competição entre grupos e
passou a pensar sobre competição entre indivíduos, mudança que
Smith fizera um século antes. O diagnóstico hobbesiano – embora não
a receita – ainda está no centro tanto da economia quando da
biologia evolutiva moderna (Smith gerou Friedman; Darwin gerou
Dawkins). Na raiz das duas disciplinas está a noção de que, se o
equilíbrio da natureza não foi projetado de cima mas surgiu de
baixo, não há motivo para pensar que se trata de um todo
harmonioso. Mais tarde, John Maynard Keynes diria que “A origem das
espécies” é “simples economia ricardiana expressa em linguagem
científica”. E Stephen Jay Gould disse que a seleção natural “era
essencialmente a economia de Adam Smith vista na natureza”. Karl
Marx fez mais ou menos a mesma observação: “É notável”, escreveu
ele a Friedrich Engels, em junho de 1862, “como Darwin reconhece,
entre os animais e as plantas, a própria sociedade inglesa à qual
pertence, com sua divisão de trabalho, competição, abertura de
novos mercados, ‘invenções’ e a luta malthusiana pela existência. É
a bellum omnium contra omnes de Hobbes”.”
Como, em geral, o tema do desenvolvimento é tratado pela economia,
precisamos revolver o que está por baixo – ou seja, exatamente os
pressupostos e os fundamentos – do pensamento econômico, se
quisermos construir uma nova concepção de desenvolvimento. A
ideologia econômica (a rigor o que em língua inglesa se chama
economics é uma ideologia, pelo menos no que tange às suas
presunções sobre a natureza competitiva do ser humano) está
assentada numa visão biológica. Ou será, mais provavelmente, o
inverso, como sugere Matt Ridley. Mas dá no mesmo. Se eu imagino
que posso explicar o comportamento das coletividades a partir do
comportamento dos indivíduos e se eu tomo como premissa que os
indivíduos se movem a partir de escolhas racionais para maximizar a
obtenção dos seus interesses e, ainda, que, ao fim e ao cabo, tais
interesses são materiais e fundamentalmente egotistas, então estou
no campo do discurso que projeta um padrão de ordem social sobre a
natureza para naturalizar as relações sociais com o objetivo de
pegar o rebote (ou seja, para legitimar padrões de ordem social a
partir de um suposto comportamento natural). E isso, está claro,
não pode ser nada além de pura ideologia.
Como os neodarwinistas desceram até ao nível do gene, numa
construção – como faz Dawkins – para mostrar que os próprios genes
seriam egoístas, então, para entrar no assunto, será necessário ler
também alguma coisa sobre isso. Mas não apenas as escrituras
neodarwinistas que se tornaram sagradas nas academias que
demonizaram as velhas escrituras antidarwinistas (como as
criacionistas, por exemplo) e sim também o seu contraponto moderno,
poder-se-ia dizer, pós-darwinista.
O velho debate sobre a evolução darwinista
versus as visões
lamarkianas ou àquelas que sacavam alegações religiosas (de certo
modo, todas essas também, de algum modo, criacionistas) para
contradizer as descobertas de Darwin ou a sua interpretação, não
está mais na pauta, porquanto não leva em conta que o modelo
variacional de desenvolvimento não pode ser superado por qualquer
modelo transformacional (nem pelo criacional) e sim por um modelo
regulacional – o único compatível, a meu ver, com uma concepção
sistêmica de desenvolvimento e, a rigor, o único compatível com a
vida como teia de relações, como rede capaz de conservar a
adaptação, mudando de acordo com a mudança das circunstâncias (o
que vale tanto para organismos e partes de organismos, quanto para
ecossistemas).
Tudo isso é para dizer que os fundamentos foram buscados tão fundo
pelos ideólogos da economia (e, por conseqüência, do
desenvolvimento), que não nos resta alternativa senão mergulhar,
para começar, na velha pergunta do físico Erwin Schrödinger – ‘o
que é a vida?’ – feita ainda em 1943 e que abriu o futuro da
biologia. Foi o que fez Humberto Maturana, que ensaiou, a partir
daí, uma teoria da cooperação compatível com a noção de capital
social. Foi o que fez, também, Lynn Margulis (que, aliás, publicou,
com Dorian Sagan, um livro com o mesmo nome daquele do célebre
trabalho do famoso Prêmio Nobel de Física, quarenta e três anos
depois). A autopoiese de Maturana e a simbiogênese (e a simbiose)
de Margulis constituem, de fato, construções alternativas
(regulacionais) à seleção (variacional) de Darwin, sem se renderem
ao transformacionismo. Maturana, Margulis (e talvez se possa
incluir aqui Lovelock), devem constituir “o nosso novo Darwin” – o
repositório de idéias biológicas ancoradoras, vamos dizer assim –
dos que querem trabalhar com uma concepção sistêmica de
desenvolvimento, ou seja, dos que querem avançar de uma economia do
desenvolvimento para uma ecologia do desenvolvimento (pois uma
concepção sistêmica de desenvolvimento é, necessariamente, uma
ecologia do desenvolvimento).
Além disso, quer dizer, além das teorias da cooperação lastreadas
em visões da evolução biológica, os pressupostos de uma concepção
sistêmica de desenvolvimento devem consultar também o estudo das
redes. Como disse Margulis em 1998 (em “Microcosmos”), “a vida não
se apossa do globo pelo combate e sim pela formação de redes”. Só
redes podem conservar a adaptação como função de integração: em
outras palavras, só redes podem ser sustentáveis. Sistemas
complexos dinâmicos capazes de sustentabilidade têm a morfologia e
a dinâmica de rede. Dessarte, dentre os pressupostos de uma nova
concepção sistêmica de desenvolvimento deveria constar o que já se
conhece sobre o assunto.
No entanto, infelizmente, não cabe, nas vinte indicações de
pressupostos, a bibliografia básica sobre redes. Ou abrimos uma
nova categoria (como, por exemplo, a de fundamentos) ou
incorporamos o estudo das redes na categoria de teorias do
desenvolvimento. Vou optar pela segunda alternativa.
Então vamos às nossas listinhas de pressupostos:
B1) Pressupostos (leituras fundamentais)

Erwin Schrödinger
1 | Schrödinger, Erwin. “What is life?”. Cambridge: Cambridge
University Press, 1944.

2 | Lovelock, James. “Gaia: a new look at life on Earth”. Oxford:
Oxford University Press, 1979.

James Lovelock
3 | Lovelock, James (1988). “As eras de Gaia”. Rio de Janeiro:
Campus, 1991.
4 | Murphy, Michael & O’Neill, Luke (orgs.) (1995). “’O que é a
vida?’ 50 anos depois: especulações sobre o futuro da biologia”.
São Paulo: Unesp/Cambridge, 1997.
5 | Margulis, Lynn & Sagan, Dorion (1998). “O que é a vida?”.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.
6 | Keller, Evelyn Fox (2000). “O século do gene”. Belo Horizonte:
Crisálida, 2002.
7 | Ridley, Matt (1996). “As origens da virtude: um estudo
biológico da solidariedade”. Rio de Janeiro: Record, 2000.
8 | Wright, Robert (1994). “O animal moral. Por que somos como
somos: a nova ciência da psicologia evolucionista”. Rio de Janeiro:
Campus, 1996.
9 | Wright, Robert (2000). “Não-Zero: a lógica do destino humano”.
Rio de Janeiro: Campus, 2000.
10 | Franco, Augusto (2001). “Uma teoria da cooperação baseada em
Maturana” in “Aminoácidos 4”. Brasília: AED, 2002.
A ordem da lista acima é meramente cronológica e não deve ser
seguida. O ideal seria ler os livros indicados na seguinte
seqüência: (1) => (4) => (5) => (2) => (3) => (6)
=> (7) => (8) => (9) => (10).
B2) Pressupostos (leituras de aprofundamento)
Para aprofundar, um bom exercício seria ler o fundamental de
Richard Dawkins e, depois, logo em seguida, ler os questionamentos
de Mae-Wan Ho e Richard Strohman, para então voltar à Humberto
Maturana (com duas obras já indicadas na lista A1), Lynn Margulis
(com uma obra indicada na lista A1) e James Lovelock (as duas obras
indicadas na lista B1). Assim nasceu a seguinte lista B2:

Richard Dawkins
1 | Dawkins, Richard (1976). “O gene egoísta”. Belo Horizonte:
Itatiaia, 2001.
2 | Ho, Mae-Wan & Saunders, P. T. (orgs.). “Beyond Darwinism:
introduction to the new evolutionary paradigm”. London: Academic
Press, 1984.
3 | Dawkins, Richard (1986). “O relojoeiro cego”. Lisboa: Edições
70, 1988.
4 | Ho, Mae-Wan & Fox, S. W. (orgs.). “Evolutionary processes
and metaphors”. London: Wiley, 1988.
5 | Dawkins, Richard (1995). “O rio que saia do Éden: uma visão
darwiniana da vida”. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.
6 | Dawkins, Richard (1996). “A escalada do monte improvável”. São
Paulo, Companhia das Letras, 1998.
7 | Strohman, Richard. “The coming kuhnian revolution in biology”.
Nature Biotechnology, vol. 15, mar., 1997.
8 | Ho, Mae-Wan. “Genetic engineering: dream or nightmare?”. Bath:
Gateway Books, 1998.
9 | Dawkins, Richard (1998). “Desvendando o Arco-Íris”. São Paulo:
Companhia das Letras, 2000.
10 | Dawkins, Richard (1999) “The extended phenotype”. New York:
Oxford University Press, 1999.
11 e 12 [Opcionais] | Maturana e Margulis (
Opera omnia).
A ordem de leitura, obviamente, deveria ser aquela já indicada: (1)
=> (3) => (5) => (6) => (9) => (10) => (2) =>
(4) => (7) => (8) => [(11) => (12)].
Maturana é um capítulo à parte. Indiquei na lista B1 o meu resumo
republicado em 2002 (pois na verdade ele apareceu inicialmente em
um capítulo do livro “Capital Social”, que saiu em 2001), apenas
porque não conheço outro tão abrangente e tão focado no assunto.
Mas, na verdade, seria bom ler tudo de Maturana (cerca de 14
textos) que ali se indica. O mesmo vale para Lynn Margulis (com 8
textos). Toda essa bibliografia está no final do citado artigo (10º
da lista B1) e não vou reproduzi-la aqui, como dizia Isaac Newton,
por amor a brevidade.
Os que querem investigar o assunto, trabalhando na fronteira para
produzir conhecimento novo com o fito de construir pressupostos
alternativos de uma concepção sistêmica de desenvolvimento,
deveriam, a meu ver, estudar também a chamada memética. Sou dos que
acreditam que se deve levar muito a sério a “nova ciência dos
memes”. Os memes seriam unidades auto-replicadoras, análogas aos
genes, que poderiam ser encaradas como idéias complexas, como
escreveu Daniel Dennett (1998, ver abaixo): “unidades memoráveis
distintas… unidades culturais mais ou menos identificáveis… [e
essas unidades de transmissão cultural ou unidades de imitação] são
os menores elementos que se replicam com confiabilidade e
fecundidade”.
Cabe ressaltar que a memética é uma teoria neodarwinista porque
apareceu assim, em virtude de um
insight genial de Dawkins
em 1976. Mas isso não significa que deva permanecer assim. Talvez
seja possível reconstruir uma teoria dos memes a partir da visão
regulacional – conforme a perspectiva sistêmica – se colocarmos o
papel da rede social na gestação de padrões (mensagens) que se
replicam. Ando trabalhando nisso (na verdade, mais pensando sobre –
ou sob – o assunto) há uns quatro anos, embora não tenha feito
ainda qualquer progresso significativo.
Fora da lista principal, segue aqui – para quem está realmente
interessado no assunto – mais uma listinha, a minha listinha
memética como uma variante da lista B2, que vou chamar de
Lista
B2’:
1’ | O livro de Dawkins (1976), já mencionado acima.
2’ | Lynch, Aaron. “Thought contagion: how belief spreads through
society”. New York: Basic Books, 1996.
3’ | Brodie, Richard. “Vírus of the mind: the new science of the
meme”. Seattle: Integral Press, 1996.
4’ | Balkin, J. M. “Cultural software: a theory of ideology”. New
Haven: Yale University Press, 1998.
5’ | Dennett, Daniel (1995). “A perigosa idéia de Darwin: a
evolução e os significados da vida”. Rio de Janeiro: Rocco,
1998.
6’ | Blackmore, Susan. “The meme machine”. New York: Oxford
University Press, 1999.
7’ | Aunger, Robert (ed.). “Darwinizing culture: the status of
memetics as a science”. New York: Oxford University Press,
2000.
8’ | Godin, Seth. “Unleashing the ideavirus”. New York: Hyperion,
2001.
9’ | Aunger, Robert. “The eletric meme: a new theory of how we
think”. New York: The Free Press, 2002.
10’ | Dennett, Daniel. “Freedom evolves”. New York: Viking,
2003.
SOBRE REDES
Vimos acima que além das teorias da cooperação lastreadas em visões
da evolução biológica, os pressupostos de uma concepção sistêmica
de desenvolvimento devem consultar também o estudo das redes. Como
disse Margulis em 1998 (em “Microcosmos”), “a vida não se apossa do
globo pelo combate e sim pela formação de redes”. Só redes podem
conservar a adaptação como função de integração: em outras
palavras, só redes podem ser sustentáveis. Sistemas complexos
dinâmicos capazes de sustentabilidade têm a morfologia e a dinâmica
de rede. Dessarte, dentre os pressupostos de uma nova concepção
sistêmica de desenvolvimento deveria constar o que já se conhece
sobre o assunto.
Duas confusões são muito comuns na literatura sobre redes. As
pessoas chamam de rede tanto a uma forma ou um tipo de organização
voluntariamente construída para cumprir uma finalidade, em geral de
natureza social e, ao mesmo tempo, a rede social que existe como
fenômeno objetivo, independentemente dos esforços feitos por algum
sujeito para tecê-la ou articulá-la.
Por variadas e complexas razões de ordem social e tecnológica, a
sociedade humana está se conformando, cada vez mais, como uma rede
(o que Castells chamou de sociedade-rede). Entretanto, a rigor, a
rede social existe desde sempre, ou seja, desde que existem seres
humanos se constituindo como tais na relação com outros seres
humanos.
Ou seja, a rede social é o que propriamente chamamos de ‘social’.
Não é agora que a sociedade está se constituindo como uma
sociedade-rede. Toda vez que sociedades humanas não são invadidas
por padrões de organização hierárquicos ou piramidais e por modos
de regulação autocráticos, elas se estruturam como redes. O que
ocorre na época atual é que a convergência de fatores tecnológicos
(como a fibra ótica, o laser, a telefonia digital, a
microeletrônica e os satélites de órbita estacionária), políticos,
econômicos e sociais, está possibilitando a conexão em tempo real
(quer dizer, sem distância) entre o local e o global e, assim, está
tornando mais visível a rede social e os fenômenos a ela
associados, ao mesmo tempo em que está acelerando e potencializando
os seus efeitos, o que não é pouca coisa.
Isso não significa que as formas organizativas que queremos ensaiar
em uma sociedade não possam também adotar voluntariamente o padrão
de rede. Mas são duas coisas diferentes. Uma organização
territorial, setorial ou temática voluntariamente construída recebe
o nome de rede quando seus integrantes (pessoas, grupos e outras
organizações) estão conectados entre si horizontalmente (ao
contrário de como se organizam nas organizações hierárquicas ou em
uma holding, por exemplo). Mas a denominação de rede não se aplica
adequadamente a muitos esforços voluntários de construir redes, que
em geral apenas disfarçam uma organização centralizada ou com um
número insuficiente de caminhos, onde não podem se manifestar
plenamente os fenômenos próprios da conexão em rede.
A rigor estamos caracterizando aqui como rede apenas as chamadas
redes distribuídas (ao contrário das redes centralizadas e das
redes descentralizadas) cuja topologia é P2P, ou seja, na qual os
nodos estão ligados ponto a ponto e não a partir de um único centro
(rede centralizada) ou de vários pólos (rede descentralizada). A
novidade das redes se refere às redes distribuídas.
A outra confusão muito comum se refere à rede social. Nem toda rede
é uma rede social. Existem muitos tipos de redes, dentre os quais
os mais conhecidos e citados são as redes biológicas (a rede neural
por exemplo, que conecta os neurônios no cérebro dos animais, ou a
teia da vida que assegura a sustentabilidade dos ecossistemas,
conectando micro-organismos, plantas e animais e outros elementos
naturais) e a rede social (embora existem também redes de máquinas
- como a rede mundial de computadores que chamamos de Internet -
que são redes sociais na medida em que conectam pessoas). Há uma
homologia entre esses diversos padrões organizativos, de sorte que,
estudando-os, pode-se iluminar a compreensão do universo das
conexões ocultas que produzem o que chamamos de social. Mas isso
não significa que sejam a mesma coisa.
Estou incorporando esse campo dos pressupostos (sobre o estudo das
redes sociais) na categoria de teorias.
C1) Teorias (Lista Geral)
1 | MATURANA, Humberto (1985). Desde la Biología a la
Psicología. 3. ed. Santiago de Chile: Editorial Universitária,
1996.
2 | LIPNACK, Jessica & STAMPS, Jeffrey (1982/1986). Networks:
redes de conexões. Aquariana: São Paulo, 1992.
3 | GUÉHENNO, Jean-Marie (1993). O fim da democracia. 2ª. ed. Rio
de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.

Pierre Levy
4 | LEVY, Pierre (1994). A inteligência coletiva. Por uma
antropologia do ciberespaço. São Paulo: Loyola, 1998.
5 | CAPRA, Fritjof (1996). “A teia da vida: uma nova compreensão
científica dos sistemas vivos”. São Paulo: Cultrix, 1997.
6 | TAPSCOTT, Don (1996) The Digital Economy: Promise and Peril in
the Age of Networked Intelligence. New York: McGraw-Hill, 1996.

7 | CASTELLS, Manuel (1996). A sociedade em rede. São Paulo: Paz
e Terra, 1999.
8 | STANDAGE, Tom (1998). The Victorian Internet. New York:
Berkeley Books, 1998.

Manuel Castells
9 | CASTELLS, Manuel (1999). “Para o Estado-rede: globalização
econômica e instituições políticas na era da informação” in Bresser
Pereira, L. C., Wilheim, J. e Sola, L. Sociedade e Estado em
transformação. Brasília: ENAP, 1999.

Duncan Watts
10 | WATTS, Duncan (1999). Small worlds: the dynamics of
networks between order and randomness. New Jersey: Princeton
University Press, 1999.
11 | JACOBS, Jane (2000). A natureza das economias. São Paulo:
Beca, 2001.
12 | ARQUILLA, John e RONSFELD, David (2000). Swarming and the
Future of Conflict. USA: Rand Corporation, Office of the Secretary
of Defense, 2000.
13 | ORAM, Andy (org.) (2001). Peer-to-peer: o poder transformador
das redes ponto a ponto. São Paulo: Berkeley, 2001 (em especial o
artigo de HONG, Theodore (2001). “Desempenho”).
14 | CASTELLS, Manuel (2001). A galáxia da Internet: reflexões
sobre a Internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar, 2003.
15 | HIMANEN, Pekka (2001). The hacker ethic and the spirit of the
information age. New York: Random House, 2001.
16 | LEVY, Steven (2001). Crypto: how the code rebels beat the
government, saving privacy in the digital age. New York: Penguin
Books, 2001.
17 | RAYMOND, Eric S. (2001). The Cathedral & the Bazaar:
Musings on Linux and Open Source by an Accidental Revolutionary.
New York: O’Reilly, 2001.
18 | CAPRA, Fritjof (2002). As conexões ocultas. São Paulo:
Cultrix/Amana-Key, 2002.
19 | BARABÁSI, Albert-László (2002). Linked: how everything is
connected to everything else and what it means. New York: Basic
Books, 2002.
20 | WATTS, Duncan, DODDS, Peter & MUHAMAD, Roby (2002). “Um
Estudo Experimental de Busca em Redes Sociais Globais”. Science (2
December 2002; accepted 23 May 2003 |10.1126/science.1081058): ver
a edição de Franco, Augusto (2003), disponível – excertos – in
‘Carta Capital Social
107’.
21 | RHEINGOLD, Howard (2002). Smart mobs: the next social
revolution. New York: Basic Books, 2002. (Existe edição em
espanhol: Multitudes inteligentes. Madrid: Gedisa, 2004).
22 | BUCHANAN, Mark (2002). Nexus: Small Worlds and groundbreaking
science of networks. New York: WWNorton, 2002.
23 | BARD, Alexander e SÖDERQVIST, Jan (2002). La netocracia: el
Nuevo poder en la Red y la vida después del capitalismo. Espanha:
Pearson Educación, 2005.
24 | WATTS, Duncan (2003). Six degrees: the science of a connected
age. New York: W. W. Norton & Company, 2003.
25 | STROGATZ, Steven (2003). Sync: the emerging science of
spontaneous order. New York: Hyperion, 2003.
26 | MARTINHO, Cássio (2003). Redes: uma introdução às dinâmicas da
conectividade e da auto-organização. Brasília: WWF-Brasil,
2003.
27 | CROSS, Rob & PARKER, Andrew (2004). The hidden power of
social networks: understanding how work really gets done in
organizations. Boston: Harvard Business School Press, 2004.
28 | GARDNER, Susannah (2005). Buzz Marketting with blogs for
dummies. New York: John Wiley, 2005.
29 | TAPSCOTT, Don e WILLIAMS, Anthony (2006). Wikinomics: como a
colaboração em massa pode mudar o seu negócio. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 2007.
30 | NEWMAN, Mark, BARABÁSI, Albert-László & WATTS, Duncan
(eds.) (2006). The structure and dynamics of networks. New Jersey:
Princeton University Press, 2006.
31 | UGARTE, David (2007). El poder de las redes: manual ilustrado
para personas, colectivos y empresas abocados al ciberactivismo. Já
existe tradução brasileira (editada como livro, em papel, com
apresentação de Augusto de Franco): O poder das redes. Porto
Alegre: CMDC/ediPUCRS, 2008.
32 | UGARTE, David, QUINTANA, Pere, GÓMEZ, Enrique y FUENTES, Arnau
(2008). De las naciones a las redes, disponível (copión de trabajo)
em: http://www.deugarte.com
33 | DUARTE, Fábio, QUANDT, Carlos e SOUZA, Queila (orgs.) (2008).
O tempo das redes. São Paulo: Perspectiva, 2008.
34 | FRANCO, Augusto (2008). Escola de Redes: Novas visões sobre a
sociedade, o desenvolvimento, a internet, a política e o mundo
glocalizado. Curitiba: Escola-de-Redes, 2008.
35 | FRANCO, Augusto (2008). Escola de Redes: Tudo que é
sustentável tem o padrão de rede - Sustentabilidade empresarial e
responsabilidade corporativa no século 21. Curitiba:
Escola-de-Redes, 2008.
C2) Teorias (leituras de aprofundamento sobre redes)
As leituras de aprofundamento Já estão na lista acima: Watts,
Duncan (1999), Barabási, Albert-László (2002), Watts, Duncan,
Dodds, Peter & Muhamad, Roby (2002), Rheingold, Howard (2002),
Buchanan, Mark (2002), Watts, Duncan (2003), Strogatz, Steven
(2003), Cross, Rob & Parker, Andrew (2004) e Newman, Mark,
Barabási, Albert-László & Watts, Duncan (eds.) (2006).
Quem quiser ficar a par da discussão contemporânea sobre o assunto
simplesmente não pode deixar de ler os textos indicados de Duncan
Watts, Barabási, Mark Buchanan e Steven Strogatz. Quem quiser
ajudar a difusão desses conhecimentos no Brasil poderia ajudar
promovendo a tradução e a edição dos sete primeiros textos da lista
C2 (acima).
Devo dizer que faltou aqui o extenso campo do conhecimento chamado
Social Network Analysis, que já conta com algumas centenas
de publicações importantes (quem quiser mais informações sobre o
assunto deve consultar o site da INSNA – International Network for
Social Network Analysis:
www.insna.org – ou ler os livros de
Stanley Wasserman, da Universidade de Illinois. Tenho dois muito
bons: Wasserman, Stanley & Faust, Katherine (1994). “Social
Network Analysis: methods and applications”. Cambridge: Cambridge
University Press, 1999 e Wasserman, Stanley & Galaskiewicz
(orgs.) (1994). “Advances in Social Network Analysis: research in
the social and behavioral sciences”. Thousand Oaks: Sage
Publications, 1994.
REDES E MODELOS DE DESENVOLVIMENTO
Parti do princípio de que uma nova concepção sistêmica de
desenvolvimento é aquela que se baseia no investimento em um
recurso sistêmico: a variável chamada ‘capital social’. Ora,
capital social é rede social. Por isso se faz necessário, para
começar a tratar do assunto no nível teórico, estudar as redes
sociais.
O grande estadista grego Péricles (495-429 a. C.) – considerado um
dos pais da democracia – usava a palavra “idiotes” para designar os
atenienses que, alegando ter de cuidar de seus próprios assuntos,
não participavam das reuniões para tratar de questões de interesse
coletivo.
É incrível como, dois mil e quinhentos anos depois, continuamos
cultuando uma cultura econômica que produz idiotas (no sentido
grego – e original – do termo).
Tal é a cultura, ainda predominante, do desenvolvimento. Imaginamos
que desenvolvimento é o resultado de crescimento econômico que se
atinge em virtude de um dinamismo que se instala na sociedade
quando cada indivíduo se lança na busca desenfreada pela satisfação
de seus interesses materiais egoístas.
Modernamente justificamos essa crença lançando mão de uma teoria
(darwiniana) da evolução, baseada em um modelo variacional da
mudança. Na minha opinião, trata-se de uma perspectiva
mercadocêntrica, quer dizer, centrada no mercado e que imagina que
a “lógica” e a racionalidade do mercado dão conta de explicar o
funcionamento das outras esferas da realidade social (ou dos outros
tipos de agenciamento), como o Estado e a sociedade civil. Vamos
ver melhor o que é isso.
O modelo variacional, segundo Lewontin (1998) – na obra que consta
da nossa lista A1, com o número 8 –, se opõe ao modelo
transformacional da mudança. Richard Lewontin, aborda tal diferença
da seguinte maneira: “O termo desenvolvimento é uma metáfora que
traz consigo um compromisso anterior quanto à natureza do processo.
Desenvolvimento (development em inglês; Entwicklung em alemão;
desarrollo em espanhol e sviluppo em italiano) é, literalmente, o
desdobrar ou o desenrolar de algo que já está presente e em certo
sentido pré-formado. Essa mesma palavra é utilizada em inglês para
nomear o processo de revelar uma imagem fotográfica. A imagem já
está imanente no filme, no interior da câmera, e o processo de
revelação – development, em inglês – simplesmente torna visível a
imagem latente. É exatamente essa a visão da biologia do
desenvolvimento a respeito do desenvolvimento de um organismo. A
moderna biologia do desenvolvimento é totalmente concebida em
termos de genes e organelas celulares, cabendo ao ambiente apenas
fazer as vezes de cenário. Considera-se que os genes no ovo
fertilizado determinam o estado final do organismo, enquanto o
ambiente em que o desenvolvimento ocorre é tão-somente um conjunto
de condições propícias a que os genes se expressem, assim como o
filme fotográfico, ao ser exposto, produzirá a imagem que nele já
está imanente, quando colocado nos líquidos apropriados e na
temperatura adequada”.
Lewontin prossegue afirmando que “o emprego do conceito de
desenvolvimento para designar as mudanças pelas quais um organismo
passa durante a sua vida não é simplesmente um caso em que a
linguagem disponível influencia o conteúdo das idéias. Quando se
decidiu transformar uma língua antiga, o hebreu, em língua moderna,
dotada de vocabulário técnico, a palavra escolhida para designar o
desenvolvimento de um organismo – Lehitpateach – foi a mesma que se
escolheu para nomear o processo de revelação de um filme, mas na
forma reflexiva, de modo que um organismo literalmente “desenvolve
a si próprio”. Além disso, a palavra evolução tem o mesmo
significado original de desdobramento, e por essa razão Darwin não
a empregou na primeira edição da “Origem das Espécies”. Antes de
Darwin, toda a história da vida na Terra era vista como uma
progressão ordenada de estágios imanentes. Ainda que Darwin tenha
libertado a teoria desse elemento de predeterminação, sua história
intelectual deixou a sua marca na palavra.
O uso desses termos reflete um comprometimento profundo com a idéia
de que os organismos, tanto em suas histórias individuais de vida
como em sua história evolutiva coletiva, são determinados por
forças internas, por um programa interno, do qual os seres vivos
reais são apenas manifestações exteriores. Esse comprometimento é
uma herança da visão tipológica da natureza, de origem platônica,
segundo a qual eventos materiais reais, que podem diferir uns dos
outros em graus variados, são realizações imperfeitas e acidentais
de tipos idealizados. O real é o ideal visto “através de um
espelho, indistintamente”. Essa foi a visão das espécies que
predominou até o século XX. Cada espécie era representada por uma
descrição de “tipo” e um espécime real era depositado em alguma
coleção como representativo desse tipo, enquanto todos os outros
indivíduos da espécie, variando com relação ao “tipo”, eram vistos
como realizações imperfeitas do ideal subjacente. O problema da
biologia consistia, então, em dar uma descrição anatômica e
funcionalmente correta dos “tipos” e explicar as suas origens. A
biologia evolutiva moderna rejeita esses ideais platônicos e
sustenta que a variação efetiva entre os organismos é a realidade
que precisa ser explicada. Essa mudança de orientação é
conseqüência da ascensão da visão darwiniana de que a variação
efetiva entre os organismos é a base material de que depende a
mudança evolutiva.
O contraste entre a teoria platônica moderna do desenvolvimento e a
teoria evolutiva darwiniana reflete o contraste entre duas maneiras
de explicar as modificações dos sistemas através do tempo. O
desenvolvimento é uma teoria transformacional da mudança. Nas
teorias transformacionais todo o conjunto dos objetos modifica-se
porque cada objeto individual sofre durante o seu tempo de vida os
efeitos de uma mesma história geral. O cosmos evolui porque todas
as estrelas que têm a mesma massa inicial passam pela mesma série
de modificações termonucleares e gravitacionais em um caminho que
as leva a uma posição previsível na seqüência principal. Como
grupo, as pessoas de setenta anos são mais grisalhas e mais
esquecidas do que o conjunto das que têm 37 anos, porque a mente e
o corpo de todos os indivíduos envelheceram. Por outro lado, a
teoria darwiniana da evolução orgânica baseia-se em um modelo
variacional da mudança. O conjunto dos indivíduos modifica-se não
porque cada indivíduo passe por desenvolvimentos paralelos durante
a vida, e sim porque existe variação entre os indivíduos e algumas
variantes produzem mais descendentes do que outras. Assim, o
conjunto como um todo se modifica por causa de uma alteração na
representação proporcional das diferentes variantes, cujas
propriedades específicas permanecem inalteradas. Se os insetos
estão se tornando mais resistentes aos inseticidas não é porque
cada indivíduo adquire níveis cada vez mais altos de resistência
durante a sua vida, mas sim porque as variantes resistentes
sobrevivem e se reproduzem, enquanto os organismos suscetíveis
morrem”.
Lewontin, portanto, defende a idéia de que “o organismo não é
determinado nem pelos seus genes, nem pelo seu ambiente, nem mesmo
pela interação entre eles, mas carrega uma marca significativa de
processos aleatórios”.
Mas o fato de que ele possa ter razão no que tange a evolução de
organismos, não significa que teorias transformacionais da mudança
não se apliquem às sociedades humanas. Pode significar,
simplesmente, que sociedades humanas não são como organismos que
evoluem segundo um modelo variacional. E que sociedades humanas
passam por processos transformacionais de mudança. Ora, como ele
mesmo ressalta, “o desenvolvimento é uma teoria transformacional da
mudança”. E, ou admitimos que o desenvolvimento se aplica a
sociedades humanas ou, então, é melhor abandonar o conceito de
desenvolvimento.
Afirmei que o modelo variacional, quando aplicado a sociedades
humanas, corresponde a uma perspectiva mercadocêntrica, porque é
possível que modelos variacionais se apliquem, dentro de certos
limites, a algumas realidades sociais, como mercados. É mesmo
possível, ademais, que Darwin tenha se aproximado de uma hipótese
variacional a partir da observação do que ocorria em sociedades
humanas sob forte influxo da dinâmica mercantil, como a sociedade
inglesa da sua época. E que, então, sua compreensão da evolução
biológica tenha sido, em alguma medida, decalcada dessa observação,
como sugere a idéia de luta pela vida com toda aquela visão
competitiva embutida.
Por outro lado, outras visões biológicas (como, por exemplo, as de
Humberto Maturana, Lynn Margulis, Richard Strohman e Mae-Wan Ho –
todas indicadas na lista B2 e nas anteriores) indicam que para
explicar a mudança evolutiva não se pode olhar somente para o
organismo ou para o gene e sim para as redes que regulam tal
mudança. Tais redes celulares são sistemas complexos, com múltiplos
laços de realimentação que fazem com que os padrões de atividade
genética mudem continuamente com a mudança das circunstâncias, para
manter o tempo todo uma congruência dinâmica com o meio, sem o que
não poderia haver o que chamamos de vida.
Assim, é possível que mesmo a teoria variacional não explique
totalmente o que acontece na evolução biológica e tenhamos que
lançar mão do modelo das redes reguladoras. E que tal modelo possa
também se aplicar a redes sociais para explicar o fenômeno chamado
de desenvolvimento. Neste caso, o desenvolvimento social seria um
fenômeno próprio das redes sociais: sistemas complexos que
apresentam características formalmente semelhantes às redes
celulares. Segundo essa perspectiva, os padrões de comportamento
surgiriam e se modificariam na interação com o meio, sem o que não
poderia haver isso que chamamos de cultura. Ou seja, a forma e o
comportamento culturais manifestar-se-iam como propriedades que
emergem da dinâmica complexa das redes sociais.
Portanto, pode existir um outro modelo para a mudança, além do
modelo variacional e do modelo transformacional: o modelo sistêmico
regulacional, que não exclui, no caso dos organismos biológicos,
nem os genes, nem o ambiente, nem a interação entre eles, nem os
processos aleatórios. Mas que acrescenta um outro elemento: as
redes compostas por genes, proteínas, hormônios, enzimas e
complexos moleculares. A diferença é que o “programa” não estaria
arquivado no genoma e sim nessa rede. No caso das sociedades
humanas, haveria também essa rede, composta, é claro, por outros
nodos; e. g., pessoas e organizações.
A rede não predetermina o que vai acontecer mas combina e
recombina, continuamente, eventos e relações já existentes com
novos eventos e novas relações introduzidas pelas mudanças
endógenas e exógenas. E não importa se tais alterações são ou não
casuais. O programa regulador – que “roda” na rede e não nos
organismos, nas partes de organismos ou em outros nodos que a
compõem – tende a assimilar as alterações casuais de tal sorte a
torná-las adequadas à conservação da adaptação do organismo ao
meio. Esse programa é autopoiético e também vai se modificando para
dar conta de exercer o seu papel regulador em circunstâncias que
vão se modificando. Ou seja, a rede aprende.
A rede aprendendo é o sujeito e não o organismo evoluindo. Se
adotarmos esse ponto de vista, deixamos para trás a questão de se
deve ou não deve haver um paralelo entre o desenvolvimento (social)
e a evolução (biológica) e se tal paralelo seria ou não seria
legítimo. Sociedades humanas nada têm a ver com organismos, partes
de organismos ou ecossistemas a não ser enquanto são, igualmente,
reguladas por redes – sistemas complexos que apresentam, como tais,
características e propriedades análogas.
Desenvolvimento – um conceito aplicado a sociedades humanas –
seria, então, um processo de mudança, regulado pelas redes sociais,
que depende de estímulos internos e externos, múltiplas interações
entre alterações internas e externas, aleatórias ou não, cujo
“propósito” é assegurar a conservação dinâmica dessas próprias
redes e, nessa medida, dos elementos que a compõem.
CAPITAL SOCIAL: UM RECURSO SISTÊMICO
Seguem agora algumas indicações de leituras fundamentais e de
aprofundamento sobre o conceito de capital social propriamente
dito:
C3) Teorias (leituras fundamentais sobre capital social)
1 | Tocqueville, Alexis (1835-1840). “A democracia na América”. São
Paulo: Martins Fontes, 1998.
2 | Jacobs, Jane (1961). “Morte e vida das grandes cidades”. São
Paulo: Martins Fontes, 2000.
3 | Coleman, James (1988). “Social Capital in the creation of Human
Capital”, American Journal of Sociology, Supplement 94 (s95-s120),
1998.

Robert Putnam
4 | Putnam, Robert (1993). “Comunidade e democracia: a experiência
da Itália moderna”. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas,
1996.
5 | Fukuyama, Francis (1999). “A grande ruptura: a natureza humana
e a reconstituição da ordem social”. Rio de Janeiro: Rocco,
2000.
6 | Offe, Claus (1999). “A atual transição da história e algumas
opções básicas para as instituições da sociedade”, in Bresser
Pereira, L. C., Wilheim, J. e Sola, L. “Sociedade e Estado em
transformação”. Brasília: ENAP, 1999.
7 | Franco, Augusto (2001). “Capital Social: leituras de
Tocqueville, Jacobs, Putnam, Fukuyama, Maturana, Castells e Levy”.
Brasília: Instituto de Política, 2001.
8 | Franco, Augusto (2003). “A revolução do local: globalização,
glocalização, localização”. São Paulo: Cultura, 2003.
9 | Franco, Augusto (2004). “Capital social e desenvolvimento
local” in Vergara, Patrício (org.). “Desenvolvimento endógeno: um
novo paradigma para a gestão local e regional”. Fortaleza: IADH,
2004).
10 | Higgins, Silvio Salej (2005). “Fundamentos teóricos do capital
social”. Chapecó: Argos Editora Universitária, 2005.
Os livros 7 e 10 constam da lista C3 (acima) sobretudo porquanto,
até o momento, são os únicos dois livros teóricos publicados no
Brasil sobre o tema. Como é sempre um pouco constrangedor ficar
indicando os próprios livros, explico que incluí o livro de número
8 e o artigo de número 9 como uma espécie de índice do presente
trabalho (ou seja, em conjunto eles explicitam a linha de
encadeamentos teóricos que me levaram a fazer estas – e não outras
– indicações de leitura sobre uma concepção sistêmica de
desenvolvimento).
C4) Teorias (leituras de aprofundamento sobre capital
social)
1 | Coleman, James (1990). “Foundations of Social Theory”.
Cambridge, MA: Harvard University Press, 1990.
2 | van Deth, Jan W. et al. (eds.) (1999). “Social Capital and
European democracy”. London/NY: Routledge/ECPR Studies in European
Political Science, 1999 (em especial dois textos: o de Newton,
Kenneth. “Social Capital and democracy in modern Europe” e o de
Whiteley, Paul F. “The origins of social capital”).
3 | Leenders, Roger and Gabbay, Shaul (1999). “Corporate social
capital and liability”. Boston: Kluwer Academic Publishers, 1999
(em especial o texto de Knoke, David. “Organizational networks and
corporate social capital”).
4 | Baron, Stephen et al. (eds.) (2000). “Social Capital: critical
perspectives”, New York: Oxford University Press, 2000 (em especial
os textos de Schuller, Tom; Baron, Stephen & Field, John.
“Social Capital: a Review and Critique” e de Maskell, Peter.
“Social Capital, Innovation and competitiveness”).
5 | Lesser, Eric (ed.) (2000). “Knowledge and Social Capital:
foundations and applications”. Boston: Butterworth-Heinemann, 2000
(sobretudo os quatro textos seguintes: Nahapiet, Janine &
Ghoshal, Sumantra. “Social Capital, Intellectual Capital and the
organizational advantage”; Portes, Alejandro. “Social Capital: Its
Origins and Applications in Modern Sociology; Snadefur, Rebecca
& Laumann, Edward. “A Paradigm for Social Capital”; e Adler,
Paul & Kwon, Seok-Woo. “Social Capital: The Good, the Bad and
the Ugly”).
6 | Dasgupta, Partha & Serageldin, Ismail (eds.) (2000).
“Social Capital. A Multifaceted Perspective”. Washington: The World
Bank, 2000 (sobretudo os três textos seguintes: Grootaert,
Christiaan & Serageldin, Ismail. “Defining social capital: an
integrating view”; Ostrom, Elinor. “Social capital: a fad or a
fundamental concept”; Dasgupta, Partha. “Economic Progress and the
idea of social capital”).
7 | Edwards, Bob et al. (eds.) (2001). “Beyond Tocqueville: civil
society and the social capital debate in comparative perspective”.
Hanover: Tufts University, 2001 (em especial os textos de Newton,
Keneth. “Social Capital and Democracy” e de Foley, Michael,
Edwards, Bob & Diani, Mario. “Social Capital
Reconsidered”).
8 | Dekker, Paul & Uslaner, Eric (eds.) (2001). “Social Capital
and participation in everyday life”. London/NY: Routledge/ECPR
Studies in European Political Science, 2001 (em especial o texto de
Grootaert, Christiaan. “Social Capital: the missing link?”).
9 | Lin, Nan et al. (eds.) (2001). “Social Capital: theory and
research”. New York: Aldine de Gruyter, 2001 (em especial o texto
de Lin, Nan. “Building a network theory of social capital”).
10 | Stolle, Dietlind & Hooghe, Marc (2003). “Generating social
capital: civil society and institutions in comparative
perspective”. New York: Palgrave MacMillan, 2003.
Na primeira edição deste artigo (2006) havia uma grande falha
nessas listas. Faltavam aqui as indicações de leitura sobre as
relações entre rede, desenvolvimento e democracia. Indiquei na
primeira edição, por fora da lista, para começar, o capítulo 5 do
livro de Rosnay, Joël (1995). O homem simbiótico. Petrópolis:
Vozes, 1997 – sobretudo a seção “Democracia participativa e
retroação societal” –; os livros de Pierre Levy (em particular “A
inteligência coletiva” de 1994, já indicado na lista A1) e a
literatura mais recente sobre ciberpolítica e democracia digital.
Por exemplo, “Cyberdemocracy: technology, cities and civic
networks” editado por Rosa Tsagarousianou et al. (London:
Routledge, 1998); “Cyberpolitics: citizen activism in the age of
the Internet” de Kevin Hill & John Hughes (Maryland: Rowman
& Littlefield, 1998); “Digital democracy: discourse and
decision making in the information age” editado por Barry Hague
& Brian Loader (London: Routledge, 1999); e “Democracy in the
digital age: chalenges to political life in cyberespace” de Anthony
Wilhelm (New York: Routledge, 2000), entre outros. Um excelente
exercício seria “reescrever” o ensaio póstumo de Hannah Arendt
sobre o que é a política (Arendt, Hannah (c. 1950). “O que é
política?”, frags. das “Obras Póstumas” (1992), compilados por
Ursula Ludz). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998)
reinterpretando o que ela corretamente chama de polis (não a
cidade, mas a koinomia – i. e., a comunidade – política) como uma
rede de conversações capaz de gerar um pacto de convivência que
inaugura o espaço público, como propõe Humberto Maturana no
discurso “A democracia é uma obra de arte”.
Mais adiante vou indicar algumas dessas obras e outros textos
políticos (inclusive sobre os pressupostos geralmente ocultos da
política) que julgo importantes para construir uma nova compreensão
das relações entre desenvolvimento, redes sociais e democracia.
POR QUE INDICAÇÕES DE TEXTOS POLÍTICOS NUMA LISTA BIBLIOGRÁFICA
SOBRE DESENVOLVIMENTO?
É simples. Porque em comunidades de projeto – articuladas em rede,
sobretudo em redes comunitárias de desenvolvimento – estão
ocorrendo as mais notáveis inovações políticas democratizantes da
atualidade.
Michael H. Shuman, ex-diretor do Institute for Policy Studies e
atual diretor da Village Foundation’s Institute for Economics and
Entrepreneurship, lembra que “o falecido Tip O’Neill costumava
dizer que toda política é local. Talvez seja mais apropriado dizer
que toda política significativa é local. A comunidade é o
instrumento mais acessível para a expressão política coletiva, uma
vez que é onde o cidadão tem maiores possibilidades de derrotar as
forças da corrupção, do dinheiro e da apatia, e engajar-se em um
processo democrático. É também onde os indivíduos exercem maior
influência sobre suas relações econômicas e políticas – onde mesmo
pequenos gestos podem melhorar a qualidade da vida cotidiana. E, o
mais importante, é onde a formulação de políticas adquire uma face
humana”.
Estamos voltando agora àquela concepção radical de democracia
cooperativa que pode ser derivada dos escritos de John Dewey
(1859-1952), o chamado “filósofo da América”: para Dewey (1927), “a
[idéia de] democracia… é a própria idéia de vida comunitária”.
A formação democrática da vontade política não pode se dar apenas
por meio da afirmação da liberdade do indivíduo perante o Estado,
mas envolve um processo social. A atividade política dos cidadãos
não pode se restringir ao controle regular sobre o aparato estatal
(com o fito de assegurar que o Estado garanta as liberdades
individuais).
A liberdade do indivíduo depende de relações comunicativas (cada
cidadão só pode atingir autonomia pessoal em associação com
outros), mas o indivíduo só atinge liberdade quando atua
comunitariamente para resolver um problema coletivo, o que exige –
necessariamente – cooperação voluntária. Há, portanto, uma conexão
interna entre liberdade, democracia e cooperação. Isso evoca um
outro conceito de esfera pública, como instância onde a sociedade
tenta, experimentalmente, explorar, processar e resolver seus
problemas de coordenação de ação social. Assim, é somente a
experiência de participar voluntária e cooperativamente em grupos
para resolver problemas e aproveitar oportunidades que pode colocar
para o indivíduo a necessidade de um espaço público democrático. O
indivíduo como participante ativo de empreendimentos comunitários –
tendo consciência da responsabilidade compartilhada e da cooperação
– é o agente político democrático.
A idéia deweyana de que a esfera pública democrática constitui o
meio pelo qual a sociedade tenta processar e resolver seus
problemas permite a descoberta de uma nova conexão intrínseca entre
democracia e desenvolvimento, apenas sugerida implicitamente por
Dewey e seus comentadores quando perceberam a existência de um nexo
conotativo entre democracia e cooperação.
Dewey elabora uma idéia normativa de democracia como um ideal
social. Se quisermos tirar conseqüências dessa concepção, devemos
explorar a conexão entre esse seu conceito de democrático-social e
o papel regulador da rede social no estabelecimento do que hoje se
chama, segundo uma visão sistêmica, de sustentabilidade (ou
desenvolvimento).
Esse trabalho de articulação entre democracia e sustentabilidade
(ou desenvolvimento) vem sendo feito por alguns teóricos do capital
social (ou das redes sociais). Capital social, como vimos, é um
recurso para o desenvolvimento aventado recentemente para explicar
por que certos conjuntos humanos conseguem criar ambientes
favoráveis à boa governança, à prosperidade econômica e à expansão
de uma cultura cívica capaz de melhorar as suas condições de
convivência social. Como tais ambientes são ambientes sociais
cooperativos, capital social é, fundamentalmente, cooperação
ampliada socialmente. Rede social (distribuída) é um meio pelo qual
(ou no qual) a cooperação pode se ampliar socialmente (inclusive,
em certas circunstâncias especiais, convertendo “automaticamente”
competição em cooperação). A democracia que casa com a idéia de
capital social é a democracia cooperativa ou comunitária. Logo, a
democracia pode então ser vista como um “metabolismo” próprio de
redes sociais (e será uma democracia democratizada na razão direta
do grau de distribuição dessas redes).
AS RELAÇÕES ENTRE DEMOCRACIA, REDES SOCIAIS E DESENVOLVIMENTO
LOCAL
Do ponto de vista do que poderíamos chamar de desenvolvimento
humano e social sustentável, as evidências disponíveis apontam para
a existência de uma equivalência prática entre três tipos de
iniciativas ou tarefas: induzir o desenvolvimento local <=>
animar redes sociais distribuídas (P2P) <=> democratizar a
política (na base da sociedade e no cotidiano do cidadão).
Em outras palavras, estamos induzindo o desenvolvimento local ‘a
não ser enquanto’, estamos animando redes sociais P2P e estamos
democratizando a política.
Em outras palavras, ainda: se estamos tratando do desenvolvimento
humano e social sustentável – ou sustentabilidade – (mudança
qualitativa) e não apenas do crescimento econômico (ou expansão,
mudança quantitativa), então a indução do desenvolvimento implica
netweaving (quando esse termo se refere à construção e animação de
redes sociais cada vez mais distribuídas) e articulação política
(se for uma política democrática) e vice-versa.
O agente de desenvolvimento é, assim, necessariamente, um
articulador político e um animador de redes.
Bom, caberia agora investigar: a) por que a indução do
desenvolvimento (humano e social sustentável), a animação de redes
sociais (P2P, distribuídas) e a articulação política (democrática)
figuram na mesma “fórmula”; e, b) o que é induzir o desenvolvimento
local, democratizar a política (no local) e tecer e animar redes
sociais (P2P, distribuídas) e como fazer isso.
O agente de uma nova política é também um agente de desenvolvimento
(ou de sustentabilidade como talvez devêssemos chamá-los, a esses
atores – empreendedores – que se dedicam a desamarrar as forças
criativas que estão aprisionadas, em geral pelo velho sistema
político e por padrões de organização piramidais, ensejando a
formação de comunidades de projeto que passam a ter condições de
exercer o seu protagonismo, o que equivale a formar
democraticamente a sua vontade política).
Quando o tema é sustentabilidade (e esse é, precisamente, o tema
aqui), o assunto é um pouco mais complexo do que “pegar as pessoas
pelo bolso”, reformar o marco legal e desburocratizar
procedimentos, ofertar linhas de crédito adequadas, prover
infra-estrutura pública, facilitar mecanismos de comercialização e
disponibilizar assistência técnica (como imaginam os que não se
libertaram do ‘mito da determinação econômica’). Não haverá
desenvolvimento (sustentável) diante de graus insuficientes de
distribuição das redes sociais e de democratização da sociedade.
Entender as razões dessa afirmação, saber justificá-la do ponto de
vista teórico e saber tirar as conseqüências práticas de tal
constatação constitui, hoje, o core dos processos de formação de
novos atores políticos que estejam dispostos a ensaiar inovações
democráticas no seu âmbito de atuação.
A grande pergunta é o que você pode fazer, a partir de agora, para
reinventar a política a partir da emergência das novas formas de
participação dos cidadãos? Temos uma resposta: além de defender a
democracia que temos, democratizar a política e experimentar e
disseminar inovações políticas democratizantes para atingir a
democracia que queremos. No que tange a essa experimentação
inovadora, o terreno propício – garantido minimamente o ambiente
democrático mais geral do país – é o local. Pactos pela democracia
local (não importa o nome que tenham), capazes de viger em redes
comunitárias e setoriais de desenvolvimento, constituem hoje a
principal esperança de mudança do velho sistema político.
Leituras fundamentais sobre política

John Dewey
1 | Dewey, John (1927). “The Public and its Problems”. Chicago:
Gataway Books, 1946 (existe edição em espanhol: “La opinión pública
y sus problemas”. Madrid: Morata, 2004).
2 | Dewey, John (1937). “Democracy is Radical” in . “The Essential
Dewey: Vol. 1 – Pragmatism, Education, Democracy”. Indianapolis:
Indiana University Press, 1998. (Existe edição em espanhol: in
“Liberalismo y Acción Social y otros ensayos”. Valência: Alfons El
Magnànim, 1996).
3 | Dewey, John (1939). “Creative Democracy: the task before us”.
Idem (Confira a edição em espanhol citada acima).
4 | Arendt, Hannah (c. 1950). “O que é política?”, frags. das
“Obras Póstumas” (1992), compilados por Ursula Ludz). Rio de
Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.

Hannah Arendt
5 | Arendt, Hannah (1954). “Que é Liberdade” in Entre o Passado e o
Futuro. São Paulo: Perspectiva, 2001.
6 | Heller, Agnes & Fehér, Ferenc (1987). A condição política
pós-moderna. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998.
7 | Maturana, Humberto & Verden-Zöller, Gerda (1993). Amor y
Juego: fundamentos olvidados de lo humano – desde el Patriarcado a
la Democracia. Santiago: Editorial Instituto de Terapia Cognitiva,
1997.
8 | Maturana, Humberto (s./d.). A democracia é uma obra de arte
(alocução em uma mesa redonda organizada pelo Instituto para o
Desenvolvimento da Democracia Luis Carlos Galan, Colômbia). Bogotá:
sem data.
9 | Ugarte, David (2006). 11M. Redes para ganar una guerra.
Barcelona: Icaria, 2006.
10 | Franco, Augusto (2007). Política, Redes Sociais e Democracia:
um manual teórico e prático para empreendedores políticos (Versão
experimental em reprografia). Curitiba: FIEP, 2007.
Leituras de aprofundamento sobre política
1 | Althusius, Johannes (1603). Política. Liberty Fund (2003). Rio
de Janeiro: Topbooks, s./d.
2 | Dewey, John (1929). “Individualism, Old and New” in Hickman,
Larry e Alexander, Thomas (eds.) (1998). “The Essential Dewey: Vol.
1 – Pragmatism, Education, Democracy”. Indianapolis: Indiana
University Press, 1998.
3 | Dewey, John (1935). “Liberalism and Social Action”. Idem.
4 | Burnheim, John (1985). Is Democracy Possible? The alternative
to electoral politics. Berkeley: University of California Press,
1989.
5 | Maturana, Humberto (1988c). “Una mirada a la educacion actual
desde la perspectiva de la biologia del conocimiento” in Maturana,
Humberto. Emociones y Lenguaje en Educacion y Politica. Santiago:
Dolmen Ediciones, 1997.
6 | Maturana, Humberto (1988d). “Lenguaje, emociones y etica en el
quehacer politico” in Maturana, Humberto. Emociones y Lenguaje en
Educacion y Politica. Santiago: Dolmen Ediciones, 1997.
7 | Keane, John (1988). Democracia y sociedad civil. Madrid:
Alianza, 1992.
8 | Rockefeller, Steven (1991). John Dewey, Religious, Faith and
Democratic Humanism. New York: Columbia University Press, 1991.
9 | Westbrook, Robert (1991). John Dewey and American Democracy.
Ithaca: Cornell University Press, 1991.
10 | Habermas, Jürgen (1992). Facticidad y validez: sobre el
derecho y el Estado democrático de derecho en términos de teoria
del discurso. Madrid: Trotta, 1998.
11 | Mouffe, Chantal. The return of the Political. London: Verso,
1993.
12 | Ralwls, John (1993). “O Liberalismo Político”. Columbia:
Columbia University Press, 1993.
13 | Arato, Andrew & Cohen, Jean (1994). Civil Society and
Political Theory. Cambridge: The MIT Press, 1994.
14 | Habermas, Jürgen (1996). Between Facts and Norms:
Contributions to a Discourse Theory of Law and Democracy.
Cambridge: The MIT Press, 1996.
15 | Held, David. (1996). Models of Democracy. 2nd. edn. Cambridge:
Polity, 1996.
16 | Cohen, Joshua (1997). “Procedure and Substance in Deliberative
Democracy” in Christiano, Thomas (ed.) (2003). Philosophy and
Democracy: an anthology. Oxford University. Press, 2003.
17 | Honneth, Axel (1998).“Democracia como cooperação reflexiva.
John Dewey e a teoria democrática hoje”, (publicado originalmente
em “Political Theory”, v. 26, dezembro 1998) traduzido na
coletânea: Souza, Jessé (org.) (2001). Democracia hoje: novos
desafios para a teoria democrática contemporânea. Brasília: Editora
Universidade de Brasília, 2001.
18 | Elster, Jon (1998). “Deliberative democracy”. Cambridge:
Cambridge University Press, 1998.
19 | Mouffe Chantal. The Democratic Paradox. London: Verso,
2000.
20 | Dryzek, Johns (2000). “Deliberative democracy and beyond:
liberal critics, contestations”. Oxford: Oxford University Press,
2000.
Continua no texto
EDUCAÇÃO PARA A DEMOCRACIA.