
Augusto de Franco (2008)
Em 2001 publiquei um livro chamado "Capital social: leituras de
Tocqueville, Jacobs, Putnam, Fukuyama, Maturana, Castells e Levy"
(Brasília: Instituto de Política / Millennium, 2001). No capítulo 8
desse livro - intitulado "Sociedades de parceria e sociedades de
dominação" - investigo as origens do chamado poder vertical (ou da
hierarquia; ou, o que é a mesma coisa, as origens espirituais da
dominação social). Na verdade, grande parte desse capítulo foi
escrita nos anos de 1997 e 1998, para um livro (que chegou a ser
impresso, mas recolhi antes que fosse distribuído), chamado "O
Complexo Darth Vader".
Agora, dez anos depois, sou obrigado a reconhecer que ali está
esboçado o meu caminho para as redes sociais. Teria hoje muitos
reparos a fazer. Mas reproduzi o referido capítulo - tal como foi
escrito - em um blog da minha contextopédia de textos de
referência, como um registro do caminho investigativo que me levou
a fazer explorações no multiverso das conexões ocultas que
configuram o que chamamos de social.
Quem estiver interessado em dar um olhada basta clicar:
Sociedades de parceria e
sociedades de dominação.
Depois, é claro, andei fazendo alguma coisa com redes, tanto do
ponto de vista teórico, quanto do ponto de vista prático. Um dia eu
conto. Mas talvez não seja tão necessário. Muita coisa já está aqui
neste site.
De qualquer modo, vou dividir esse caminho para as redes sociais,
em duas seções: meu caminho teórico e meu caminho prático. E dentro
de cada uma dessas seções, vou relatar várias visões do mesmo
caminho. Começo pela parte teórica, com o ponto de vista da
democracia.
DO PONTO DE VISTA DA DEMOCRACIA
Minha conversão à democracia foi um processo longo. Há pouco mais
de vinte anos, publiquei um livro intitulado “Autonomia e partido
revolucionário” (1985) (1), em que questionava a teoria leninista
da organização revolucionária. Era um começo, tímido ainda, mas que
funcionou como uma primeira fissura no dique. Na segunda metade dos
anos 80 constatei que a idéia de classe social e de luta de classes
continha, em si, o gérmen da negação da legitimidade do outro; ou
seja, negava o pressuposto fundamental da democracia ao definir
“campos” de legitimidade com base em critérios extrapolíticos (como
a posição em relação ao processo de produção). No final daquela
década todos sabemos o que aconteceu: a queda do Muro de Berlim
precipitou na minha cabeça e na de vários outros militantes e
dirigentes de esquerda, a derrubada de certos “muros” conceituais
que nos faziam ver o mundo da política como uma realidade
inexoravelmente vincada, de cima a baixo, por “campos” em eterno
confronto. Aquela imagem dos jovens alemães demolindo o muro e ao
mesmo tempo dançando sobre ele teve um efeito simbólico mais
profundo do que geralmente se imagina. Foi a senha, ou melhor, a
pedra de toque para a desconstituição de vários mitos que se
alojavam, vamos dizer assim, “no andar de baixo” da nossa
consciência. Com a derruição desse subsolo no qual estavam
fundeados nossos preconceitos veio tudo a baixo. Para muitos,
entretanto, talvez para a maioria dos meus companheiros de viagem,
é forçoso reconhecer que o muro parece não ter ainda caído
completamente.
Daí para frente meu processo de conversão foi acelerado. E não
parou mais. Nos anos 90 comecei a me dedicar ao desenvolvimento
humano e social sustentável e ao papel estratégico da sociedade
civil na promoção desse desenvolvimento. Minha participação na Ação
da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, nos anos de 1993
a 1995, foi decisiva, tanto para me fazer ver a falta de horizontes
(e de idéias) da vida partidária, quanto para perceber a força de
uma nova sociedade civil vibrante que àquela época emergia no
Brasil.
Dedicado prioritariamente ao desenvolvimento local, encontrei o
conceito e as teorias nascentes do capital social. A partir do
final da década de 1990 obriguei-me a realizar uma investigação
sistemática buscando refazer uma teoria do capital social que não
omitisse a análise de seus pressupostos cooperativos. O trabalho
com o capital social me levou a ler Tocqueville, Jane Jacobs,
Putnam, Fukuyama, Maturana, Castells e Levy. Escrevi um volume
sistematizando essas leituras, em que já ficavam claras as relações
entre capital social, redes sociais e democracia (2).
Já no início de 2000, descobri as redes e iniciei minhas
explorações imaginativas no assunto, que continuam até hoje. Foi
quando descobri também as relações intrínsecas entre democracia e
sustentabilidade, que têm constituído – juntamente com a pesquisa
sobre as redes sociais – meu objeto principal de trabalho teórico e
prático nesta primeira década do presente século.
Embora o conceito de capital social tenha sido sugerido há muito
tempo, em meados do século 19 a meu ver (pois que em geral gosto de
acentuar o seu caráter tocquevilliano) e embora a expressão – com o
sentido que hoje atribuímos ao conceito – seja do final da década
de 1950 (e o crédito aqui vai inegavelmente para Jane Jacobs),
todas as teorias do capital social são teorias elaboradas a partir
dos anos 90 do século passado (3).
Não é por acaso que o florescimento de idéias e práticas
inovadoras, baseadas na noção de capital social, tenham florescido
justamente no feliz intervalo vivido pelo mundo entre aquele
promissor 9/11 e o fatídico 11/9, quer dizer, entre a queda do Muro
de Berlim, em 1989 e o atentado às torres gêmeas do WTC, em 2001.
Se o tempo na história do mundo é contado em décadas, aquela foi a
década virtuosa do ponto de vista das mudanças sociais que
possibilitaram a experimentação e a difusão de concepções e
práticas compatíveis com a noção de capital social.
As idéias de rede (social) e democracia (na base da sociedade e no
cotidiano dos cidadãos) tiveram, nos anos 90, condições
particularmente favoráveis para prosperar. Depois, como todo mundo
sabe, sobreveio um revés, uma onda negativa, um recrudescimento do
estatismo nas políticas nacionais e do unilateralismo na política
internacional. Pressionado por baixo e por cima pela onda
glocalizante, o velho Estado-nação reagiu, quis retomar as rédeas
e, para tanto, no plano interno, recentralizou sua atuação,
reeditou programas assistencialistas e ações clientelistas,
enfraqueceu a sociedade civil e, no plano externo, reforçou
belicosas variantes de realpolitik; enfim, desinvestiu no capital
social.
É curioso notar que, para produzir tal regressão, não importaram
muito as ideologias tradicionais: direita e esquerda agiram – como
aliadas tácitas – de modo a tentar refrear o sopro de liberdade que
varreu o mundo sob o impulso das grandes correntes históricas da
globalização (econômica), da democratização (política) e da
pós-modernização (cultural) (4).
No entanto, a despeito desse movimento regressivo, alguma coisa
parece estar avançando subterraneamente nos últimos anos. Trata-se
de algo que não é ainda muito visível no momento, mas que prepara,
talvez, uma transformação mais profunda.
Queria chamar a atenção para esse ponto, pois foi a partir dos anos
2000 que começamos a compreender mais profundamente a estrutura e a
dinâmica da rede social. Já dispúnhamos de muitos insights nesse
sentido, mas não tínhamos ainda um pensamento organizado a respeito
e não podíamos justificar tais antevisões com alguma base
científica. Por exemplo, foi somente a partir de 2002 que
conseguimos ter uma visão mais clara dos efeitos da rede P2P
(
peer-to-peer, ponto-a-ponto, pessoa-a-pessoa) sobre o
“tamanho do mundo” em termos sociais e não geográfico-populacionais
(“
Small World Networks”). E foi somente a partir dessa
compreensão que conseguimos justificar as estratégias de
investimento em capital social como estímulos ao aumento da
conectividade, estabelecendo afinal um nexo conotativo entre
democracia (como espécie de “metabolismo” próprio das redes
sociais) e desenvolvimento (como sinergia entre diversos tipos de
recursos – para além da renda e da riqueza –, com destaque para um
tipo de “capital”, extra-econômico, que foi chamado de capital
social mas que, no fundo, é, simplesmente, a rede social).
Ora, isso também não é pouca coisa. Significa que as teorias do
capital social são teorias-ponte entre a velha sociologia e as
novas teorias das redes sociais. Quando anunciei isso pela primeira
vez, em um seminário científico para uma pequena turma de doutorado
da Universidade de Brasília, não tinha ainda as idéias muito claras
a respeito e fiquei com medo de ter desestimulado alunos que
pretendiam dedicar seus melhores esforços às teorias do capital
social. Agora, porém, vejo com mais nitidez um cenário futuro para
o desenvolvimento das teorias das redes sociais no qual não fará
mais sentido ter que apelar para o recurso de batizar a cooperação
ampliada socialmente (que se viabiliza através dos ‘múltiplos
caminhos’, quer dizer, das redes) com o nome de “capital social”
apenas para reforçar seu caráter de recurso ou fator do
desenvolvimento.
O próprio conceito de desenvolvimento está passando por
transformações importantes nesta década. Uma nova visão do
desenvolvimento está emergindo, que não toma mais essa noção como
um produto (e suas condições de produção) e sim como um processo
permanente de mudança, de uma classe de mudança congruente com o
meio (ou seja, àquela classe que poderia ser chamada de
sustentabilidade). Um processo que, no fundo, nada mais é que o do
aprendizado coletivo de comunidades de projeto e o da afirmação de
novas identidades no mundo.
Durante a noite escura em que estamos vivendo nos anos iniciais
deste século tenho tentado trabalhar um pouco com essas idéias,
fazendo explorações imaginativas no universo de conexões ocultas
que produzem o que chamamos de ‘social’. E tenho trabalhado com as
idéias de democracia e de radicalização – no sentido de
democratização – da democracia.
Nesse caminho fui muito ajudado pela mente admirável de Humberto
Maturana e por dois importantes pensadores da democracia: Hannah
Arendt e John Dewey, que descobri tardiamente.
Notas | (1) Franco, Augusto (1985). Autonomia e partido
revolucionário. Goiânia: Ferramenta, 1985. (2) Franco, Augusto
(2001). Capital Social: leituras de Tocqueville, Jacobs, Putnam,
Fukuyama, Maturana, Castells e Levy. Brasília: Instituto de
Política, 2001. (3) Jacobs, Jane (1961). Morte e vida das grandes
cidades. São Paulo: Martins Fontes, 2000. (4) Utilizo aqui o
interessante esquema de Claus Offe; cf. Offe, Claus (1999). “A
atual transição da história e algumas opções básicas para as
instituições da sociedade”, in Bresser Pereira, L. C., Wilheim, J.
e Sola, L. Sociedade e Estado em transformação. Brasília: ENAP,
1999.