
Cynthia Fior
“...Mandei plantar folhas de sonhos no jardim do solar... As folhas
sabem procurar pelo sol e as raízes procurar, procurar... Mas as
pessoas da sala de jantar... Essas pessoas da sala de jantar... São
ocupadas em nascer e morrer...” (Panis Et Circenses - Gil e
Caetano)
Minha história na formação e participação em Redes foi acontecendo
numa seqüência encadeada de encontros de pessoas que estavam em uma
mesma sintonia.
Ao nos encontrarmos, em 1996, Eu (consultora) e Ester e a Ivete
(Fiscais de Tributos, minhas clientes em um projeto), identificamos
que tínhamos em comum uma questão primordial: entender porque o
Estado não conseguia cumprir com seu papel e suprir às demandas
sociais, apesar de toda a sua estrutura e arrecadação. Todas nós
buscávamos oportunidades para adquirir informações que nos levassem
a essa compreensão, e a colocar em discussão as idéias que já
faziam parte da trajetória de cada uma.
Identificamos uma grande oportunidade de aprendizado e de colocação
das idéias em prática e testar o seu funcionamento, no projeto de
modernização da administração fiscal do Estado de Mato Grosso, em
1996. E a partir disso, passamos a atuar de forma conjunta. A
elaboração do projeto permitiu a inclusão de várias propostas de
mudança, com quebras de paradigmas, tanto na área
técnico-tributária como na organizacional. Mencionar a necessidade
de se colocar o foco no cliente-cidadão, ou no
cliente-contribuinte, naquela época, causava reações das mais
diversas. A aprovação do projeto pelo Banco Interamericano de
Desenvolvimento – BID, financiador do mesmo, deu respaldo para a
continuidade dos trabalhos e facilitou para uma abertura na
discussão de novas idéias. O desenvolvimento do projeto, no
entanto, não foi de todo exitosa. Se, por um lado, possibilitou a
aquisição de mais informações e estudos de casos, dentro de um
amplo programa de capacitação e cooperação técnica, o que
confirmava e ampliava os conhecimentos originais, por outro lado, a
sua execução, paradoxalmente, se afastou da proposta original, que
propunha a mudança dos modelos, principalmente, dos modelos
mentais, e investiu cada vez mais na consolidação dos modelos
antigos.
Dessa forma, além de todo conhecimento técnico adquirido, nosso
“insight” foi o de que a mudança só seria possível se partisse de
fora para dentro do Estado, pois a correlação de forças na
manutenção do
status quo era forte o suficiente para o
desvio de qualquer projeto com finalidade contrária aos interesses
corporativos. Ficaram do projeto também, inúmeras pessoas com
potencial para mudanças em nossas redes de contato.
Nessa fase, o Múcio (outro fiscal de tributos) se incorporou ao
grupo e, a partir daí, passamos a buscar oportunidades de trabalho
com a sociedade. E isso nos deu outro aprendizado: constatamos que
a sociedade, de forma geral, não tem conhecimento sobre o papel e o
funcionamento do Estado, e por isso, não sabe que tem, ou o que
fazer com as oportunidades de atuar na busca dos seus direitos
legítimos, limitando-se a pagar seus impostos, sonegar o que for
possível, reclamar o tempo todo, e na hora de agir, colocando
ingenuamente suas esperanças em salvadores da pátria, num ciclo de
esperança-frustração-apatia, que não tem permitido o
exercício e o amadurecimento da nossa cidadania.
Por outro lado, o terceiro setor, ao buscar contribuir para as
melhorias sociais, o tem feito de forma desarticulada, sem a visão
de um projeto de Estado, atuando mais de forma a compensar as
deficiências do Estado do que de forma subsidiária a este. Como
tínhamos certeza que neste jogo cruel, todos éramos perdedores e o
resultado era sempre mais pessoas excluídas, decidimos agir com o
que dispúnhamos, o conhecimento adquirido até então.
A primeira coisa que fizemos foi reunir mais forças e criar um
espaço de discussão sobre os temas que afligiam a sociedade e que
não eram vistos com prioridade pelo Estado. Formamos, então, junto
com alguns empresários e profissionais liberais, o INBRACO
(Instituto Brasileiro de Pesquisa, Participação Social e
Acompanhamento do Orçamento Público). O objetivo principal da
instituição era levar o conhecimento sobre o orçamento público -
principal instrumento de gestão governamental - para a
sociedade.
As coisas estavam se encaminhando, mas ainda nos faltava um espaço
mais abrangente e uma sistematização das nossas idéias. Foi então
que surgiu um concurso da Empresa de Consultoria Amana-key,
dirigida por Oscar de Motomura, denominado Projeto Sete Sigma,
publicado em um anúncio na revista Veja.
Foi o Altevir Magalhães, um empresário de destaque em Mato Grosso,
que acenando com essa página da revista Veja na mão, nos fez a
pergunta: “
Porque vocês não participam deste concurso?” Era
janeiro de 2002 e estávamos fazendo uma apresentação das nossas
idéias sobre reinvenção do Estado a um fórum de empresários de
Cuiabá, e de início, custamos a entender o que ele queria dizer com
aquele gesto.
Quando verificamos as três perguntas, em destaque naquele
anúncio...
“
Como a Sociedade realmente funciona? Como ela deveria
funcionar? Como fazer acontecer esse funcionamento ideal?”
...não entendemos de cara qual a relação que aquelas perguntas
teriam com a proposta do grupo sobre reinvenção do Estado. Mas
depois de refletirmos um pouco, conseguimos perceber uma conexão
muito forte entre os trabalhos que já estávamos envolvidos com
aquele desafio lançado para todo o país: “
aquelas eram as
perguntas que faltavam para as nossas respostas!”. Afinal, os
acontecimentos para o nosso grupo sempre foram assim, quase por
acaso, mas permeados de questionamentos que nunca nos furtamos em
tentar responder.
Podemos dizer que a partir daí passamos a nos constituir, e sermos
reconhecidos, como um grupo - com denominação (Raízes e Asas) e um
trabalho concreto. A experiência foi impressionante em termos de
aprendizado e confirmações. Foram apresentados muitos trabalhos do
Brasil todo e dentre eles, apenas 13 foram escolhidos pela
Amaná-Key, incluindo o nosso (o único grupo de um Estado
periférico, grande parte pertencia ao eixo Rio-São Paulo). Durante
o desenvolvimento do projeto, que se propunha “reinventar a
sociedade”, conhecemos muitas pessoas, formamos uma rede de
aprendizado, que ainda hoje se conecta e geramos um livro, com os
13 trabalhos, que foi publicado pela Cultrix com o título “COMO
NOSSA SOCIEDADE REALMENTE FUNCIONA?. Foi nesse período que também
conhecemos o João de Paula Monteiro (nosso colega de
Escola-de-Rede) e seu livro: CINCO ELEMENTOS, que relata a história
do Pacto do Ceará.
O projeto acabou, mas nós continuamos nosso caminho. Mas, a
segurança que a participação do projeto Sete Sigma nos deu,
permitiu que déssemos um salto à frente do que vínhamos fazendo. O
nosso grupo não deixou, em nenhum momento, de continuar suas ações,
independente do andamento do projeto Sete Sigma, entendendo que ele
se tratava de mais uma oportunidade que podíamos aproveitar para
desenvolver e levar nossas idéias e formar novas redes de troca de
informações. Entendendo que o objetivo das nossas idéias era sempre
de “
devolver o poder às pessoas”, com base no nosso próprio
aprendizado de que toda mudança é uma mudança pessoal.
Essa oportunidade nos abriu espaços fora do Estado para a nossa
atuação, mas o respaldo da sociedade para essas idéias foi criando
cada vez mais eco junto às autoridades e gestores públicos do nosso
Estado, e trouxe novas oportunidades de trabalho para o grupo
dentro daquelas instituições públicas que buscam avançar no seu
entendimento da necessidade da mudança, no resgate dos papéis de
cada setor social na facilitação mútua da sobrevivência da
sociedade, única saída para todos.
A partir do momento que grupo “Raízes e Asas” tomou consciência do
poder de ser um participante ativo da sociedade, aconteceram tantas
ações resultantes do nosso trabalho que já não conseguimos mais
controlar o seu fluxo, estamos seguindo o que está sendo possível,
conscientes de que criamos um trabalho para a sociedade e não para
nós mesmos. Essa atuação
caórdica – caos x ordem – passou a
funcionar e mesmo sem querer já tínhamos uma rede formada ao redor
das nossas idéias.
Contando com as experiências individuais, com o aprendizado
adquirido em conjunto e com uma percepção aguçada para perceber as
oportunidades, passamos a atuar em diversas frentes de movimentos
sociais, elegendo como ponto central, o “Pacto de Cooperação por
Mato Grosso”, que é uma Rede formada por um grupo de pessoas (e não
uma entidade), que foi criado e articulado pelo nosso grupo
inicialmente, inspirado na experiência do Pacto do Ceará. Esse
movimento foi sendo incorporado pela sociedade aos poucos, com
atuações e debates voltados para a melhoria das relações
Estado-sociedade.
É importante frisar que a atuação do Pacto por MT tem foco na busca
de propostas de solução aos problemas e na articulação dos setores
ou autoridades que sejam responsáveis pela operacionalização dessas
soluções. Descobrimos então, que a sociedade tem uma grande
capacidade de ajudar nas soluções, seja na formulação de propostas,
seja por se dispor a agir e fazer a parte que lhe cabe. O que não
há, geralmente, é abertura para essa atuação, pois o Estado detém
uma espécie de monopólio do “não-fazer” - não faz e não dá abertura
para ninguém mais fazer – mas, quando criamos essas oportunidades
de abertura, independente delas nos serem oferecidas pelo Estado,
começamos a exercer verdadeiramente a nossa cidadania.
Percebemos, também, que o caminho que foi seguido pelo grupo, e que
nos trouxe até o momento presente, dentro de uma determinada
circunstância favorável para os trabalhos de mudança, representa um
“caminho das pedras” para as pessoas que se interessem em colocar
propostas voltadas para a sociedade, em prática, e que são: um
esforço individual pela mudança; melhorar a
percepção da
realidade; buscar respostas sobre
o que fazer; se
capacitar para saber
como fazer a sua parte; se articular e
organizar no
poder para fazer; identificar e criar
oportunidades de mudança; não desperdiçar energia com
“
falsas oportunidades”. Por fim, buscar o alinhamento do
papel da mídia e dos sistemas de recompensas, ao objetivo de
transformação dos atuais valores e cultura social, para aqueles
coerentes com o nosso discurso de comportamento ideal.
A partir da Rede formada pelo Pacto de Cooperação por Mato Grosso,
pela INBRACO e pelo FOREMAT (Fórum de Empresários de Mato Grosso),
muitas ações foram efetivadas:
1. O INBRACO está hoje coordenando a implantação de um modelo
inovador de Orçamento Participativo, já em uso inicial nas
Prefeituras de Cuiabá e Várzea Grande (MT) e em alguns outros
municípios de outros estados. Em Cuiabá, inclusive foi feito um
movimento da sociedade para a aprovação da Lei do Orçamento
Participativo no final de 2007, obtendo sucesso;
2. O Pacto de Cooperação por Mato Grosso é hoje é referência em
Mato Grosso quando se trata de mobilizar a sociedade para
participar de ações conjuntas com o Estado. O Pacto já está com 6
anos de existência e possui cerca de 300 pessoas conectadas e
trocando idéias e informações sobre a sociedade. Seus assuntos
referem-se a questões que envolvam a melhoria da sociedade e
possuem membros de todo o país e do exterior. Seu formato é
tradicional, com um moderador que atua na organização da
comunicação da Rede via internet. Sua Rede se multiplica em muitas
outras e tem hoje como participantes pessoas dos três setores da
sociedade (Estado, Mercado e Sociedade civil);
3. FOREMAT – Fórum de Empresários de Mato Grosso – que abriga os
maiores empresários do Estado. Participa e contribui com o Inbraco
e Pacto e atua na articulação das empresas com o governo;
4. Lançamento do nosso livro (Ester, Cynthia, Ivete e Múcio):
“
Como Sair Dessa? - É possível conciliar o nosso viver bem
pessoal com um sistema social justo e equilibrado”, que foi
patrocinado pela Avina e pelo FOREMAT. Esse livro consolida as
nossas idéias de como a sociedade se organizou para atender as suas
necessidades e de como as disfunções de cada setor da sociedade foi
tornando a sua atuação totalmente ilógica.
Hoje cada um de nós tomou um rumo diferenciado, mas continuamos
conectados pelas nossas idéias e pela nossa Rede. Nosso livro foi
vendido, doado e distribuído por diversas entidades. Estamos
pensando em escrever outro...
Eu continuo consultora e atuo tanto com empresas privadas na área
de Responsabilidade Social como nas organizações públicas, na área
de Qualidade e também no terceiro setor, na organização das ações e
elaboração de projetos articulados com os demais setores. Nesses
últimos anos estive envolvida pessoalmente ou profissionalmente com
diversas outras redes. Uma delas faço questão de ressaltar, que é o
Programa Ciranda Capixaba, que ajudei a construir no estado do
Espírito Santo. Trata-se de um projeto da Unidade da Petrobrás
local e que reúne projetos sociais em Rede, de tal forma que possam
aprender a se auto-gerenciarem, adquirirem sustentabilidade e dar
continuidade em seus objetivos. Esses projetos, mesmo depois de
deixarem de ser financiados pela Petrobrás continuam se conectando
na Rede do Ciranda.
Também continuo fazendo a moderação da Rede do Pacto. Nessa
moderação é interessante destacar que a Rede do Pacto, como
qualquer outra rede, tem períodos de grande animação e outros nem
tanto. Nos período mais agitados, sempre surgem as oportunidades
para nos reunimos pessoalmente para troca de idéias. Em outros
momentos as pessoas parece que ficam um pouco descrente do que
ocorre ao redor e têm dificuldade de se manifestarem até pela
internet. É então que se percebe o quanto existe de comodismo na
nossa sociedade e muita lamentação sem ação. Às vezes a Rede exige
um esforço pessoal meu e de algumas outras pessoas mais
comprometida para trazer assunto e foco para o debate.
Sempre temos pessoas novas entrando e algumas saindo. As vezes,
pessoas que quase nunca se manifestam, nos surpreende com
participações pontuais importantes, demonstrando que estão
acompanhando os debates a distância. Percebe-se também que existe
um respeito pelos assuntos a serem debatidos na Rede, como por
exemplo, os políticos não a utilizam como meio de propagando
própria, assim como os empresários não a utilizam para fazer
publicidade de suas empresas. As manifestações de pedidos de ajuda
pelas Organizações Sociais, também são sempre atendidas e já
tivemos ótimos resultados nesse sentido, apenas colocando as
pessoas em contato e deixando que elas mesmas se entendam.
Sei que não tenho a dimensão de nossa abrangência, só tenho alguma
notícia quando encontro pessoas que me revelam que já me conheciam
por mensagens do Pacto que recebeu de outros participantes.
Para os que se interessarem pela Rede do Pacto, Incluo algumas
informações a seguir:
O objetivo do Pacto é:
Gerar uma sociedade melhor para
todos.
As estratégias de atuação do Pacto é:
O encontro das idéias com
as oportunidades e a articulação entre os setores da
sociedade.
Os princípios do Pacto são:
1 - Não temos hierarquia: porque as hierarquias impedem o fluxo das
idéias.
2 - Somos adversários: das más idéias, e não das pessoas.
3 - Somos aliados: das boas idéias, estejam com quem estiverem.
4 - Nos reportamos ao passado para aprender com ele. E não para
lamentar ou procurar culpados.
5 - Não temos crachá. Representamos a nós mesmos dentro do
Pacto.
Como o Pacto atua:
Debate idéias...
Articulação de entidades e lideranças...
Parcerias e alianças...
Promoção, mobilização e participação em eventos...
Alguns momentos de atuação do Pacto:
• Princípios para Reforma Tributária; • Movimento “ACorda Brasil”;
• Abaixo assinado para Limite Tributário; • Feirão dos Impostos; •
Lançamento dos livros: “Pensando o Futuro de MT”; “Que Reforma é
essa?”; “Como Sair Dessa?”; • Mobilização para inúmeros eventos que
envolveram a sociedade; • Manchetes do Pacto. O Brasil em 2022 •
Debate com os candidatos a Prefeitura de Cuiabá
O que o Pacto espera de resultado de sua atuação:
CAPITAL
SOCIAL (conforme aprendemos com Augusto de Franco).
Se alguém quiser participar é só enviar um e-mail para
pacto.brasil@terra.com.br