
Cintia Alves (2009)
Quem sou eu
Minha formação acadêmica é artística, sou bacharel em direção
teatral (acreditem, existe a graduação), no entanto, fui conduzida
para o caminho do marketing e trabalhei com criação e planejamento
de ações promocionais nos últimos 8 anos. Vou tentar contar minha
trajetória de forma a tornar-se uma exposição produtiva a esse
sítio que se destina a interrogar a organização em rede.
O meu interesse intelectual pelo teatro começou no dia em que li
“200 exercícios e jogos para o ator e não-ator com vontade de dizer
algo através do teatro”, de Augusto Boal. Eu era muito pequena,
tinha uns 11 anos, e encontrei o livro na estante da minha irmã
mais velha. A primeira vista, aquele pareceu um livro de exercícios
para o trabalho de ator, não tinha como ter consciência que estava
diante de uma importante metodologia de animação de coletivos: o
Teatro do Oprimido. Bem mais tarde, já na faculdade, participei de
um grupo de estudo sobre Bertolt Brecht, quando passei a me
aprofundar na técnica de jogos teatrais e retornei ao Boal e suas
propostas de criação coletiva. Apesar de termos formado um núcleo
dentro da universidade, não se tratava de uma proposta curricular,
portanto éramos livres para qualquer tipo de ação que partisse das
nossas pesquisas. Posso dizer que essa foi minha primeira
experiência de organização não-hierárquica, no entanto, durou
apenas o tempo necessário para se perceber que havia uma cadeira de
líder que ninguém tinha ocupado.
Quando o grupo acabou, decidi-me por multiplicar o
conhecimento.
Como voluntária, dirigi vários grupos amadores em comunidades que
tinham um espaço físico em que o trabalho pudesse ser realizado.
Não tinha o objetivo de realizar uma montagem, mas me preocupava em
conduzir um treinamento de criação coletiva: o importante era fazer
com que as pessoas conseguissem se observar e se respeitar o
suficiente para criar coletivamente e de improviso.
Esse processo durou de 91 a 95 quando percebi que essa podia ser
uma ferramenta poderosa no treinamento de executivos. Foi assim que
começou o meu namoro com o meio corporativo.
Paralelamente a isso conduzia uma carreira como dramaturga
especializada em textos para crianças.
Neste momento eclodiu o mais poderoso movimento teatral dos anos
90: o Arte contra a Barbárie. Não saberia precisar um percentual,
mas posso dizer que uma parcela significativa da classe artística
paulistana passou a se reunir regular e agressivamente para propor
soluções que viabilizassem a produção teatral de forma digna, como
obra de arte e não como bem de consumo. O movimento resultou em
manifestos que formataram uma política articulada com o poder
público que resultou o Programa Municipal de Fomento ao Teatro para
a cidade de São Paulo.
A estrutura dessas reuniões era descentralizada e, como era de se
prever neste tipo de organização, cada centro, levou proveitos para
seus respectivos nodos.
Não demorou muito tempo para surgisse aquela sensação de “A
Revolução dos Bichos”, do George Orwell.
A partir de 2000 comecei a trabalhar com teatro em várias ONGs,
sempre como voluntária: organizava oficinas, dava palestras,
mediava a formação de grupos e às vezes criava pequenos roteiros
educativos.
Em maio do ano passado, abandonei minha carreira de executiva em
busca de qualidade. Precisava de algo que desse mais que retorno
financeiro.
Em setembro, mudei para o interior de São Paulo, para a cidade de
Catanduva, comecei a animar um grupo de estudos sobre a arte, com a
organização de encontros e cafés filosóficos em uma livraria da
cidade.
Em novembro fui contratada pelo Senac Catanduva como mediadora da
Rede Social, para trabalhar com a metodologia de Desenvolvimento
Local.
Em dezembro, já munida de algum conhecimento sobre redes, promovi
um ciclo de leituras dramáticas chamado “Relações Degeneradas” com
o objetivo de localizar as pessoas que se interessam por arte na
cidade.
Minha história com redes
Meu contato com a terminologia das Redes Sociais na acepção usada
neste ning é muito recente.
Como disse em minha postagem anterior, em setembro troquei a
capital, São Paulo, por Catanduva, 387 km a Noroeste. Essa troca
também foi realizada pela necessidade de cambiar um modo de vida,
em que a conexão com as pessoas e os acontecimentos sociais
dava-se, prioritariamente, por meio do estudo de pesquisas de
mercado para a criação de campanhas de promoção de marca, por um
outro, em que me colocasse como agente das transformações.
Iniciei um processo de aproximação dos artistas da cidade, com o
objetivo de criar um coletivo de pesquisa, e, neste ínterim fui
convidada a trabalhar no Senac, em um projeto que era corporativo,
mas que tinha em seu cerne a ideologia da transformação do entorno,
chamado Foco Comercialização, para o fomento do comércio local.
O Foco consiste em um diagnóstico do comércio com a devolutiva por
meio de ações de consultoria.
Para a execução do relatório, precisei fazer um levantamento do
histórico do comércio de Catanduva e fui orientada a procurar o
mediador da Rede Social, Heveraldo Galvão, que tinha realizado
várias ações com moradores que poderiam me ajudar nesse
levantamento, uma vez que não existe um registro oficial
organizado. Mal sabia que, neste contato, iria ser apresentada a um
universo absolutamente fascinante que é o de Redes Sociais e de
Desenvolvimento Local.
Eu já havia tido contato com várias organizações do Terceiro Setor,
trabalhei como voluntária em muitas entidades, com destaque à ADEVA
– Associação de Deficientes Visuais e Amigos, onde mistri oficinas
de dramaturgia, – e participei na criação de projetos com a
consultoria da ONG Mais Diferenças.
Eu já tinha ensaiado um trabalho em rede em vários momentos, no
entanto, nunca houve um plano de ação sistematizado.
Em novembro fui convidada a atuar, ao lado do Heveraldo, como
mediadora da Rede Social Catanduva.
Assisti à conferência de lançamento do Programa de Desenvolvimento
Local para América Latina e Caribe na qual Augusto de Franco foi
palestrante, aprofundando algumas questões que já me haviam sido
apresentadas.
Quase que imediatamente após isso, passei a participar desse ning e
pus-me a fazer dowloads de tudo o quando fosse possível sobre
redes. Tenho feito fichamentos sobre o assunto. Reconheço minha
atuação passiva (se é que a antítese é viável) na Escola de Redes,
mas sinto-me pouco confortável uma vez que estou engatinhando neste
universo.
Por outro lado, o aprendizado é um processo de troca, portanto é
necessária a exposição.