
Fabiano Morais (2009)
O clima no Jardim Botânico era de conspiração quando me aproximei
do
Bruno ,
Fernando, Iuri, Chico Lins e outros
netweavers do
Portal do Voluntário no
verão de 2004. Só se falava “na rede”. O Bruno (Ayres) fechava sua
dissertação de mestrado onde defendia que se é possível
conectar computadores para trocarem arquivos num esquema P2P, sem a
intermediação de um servidor central, porque não conectar
voluntários com voluntários sem necessariamente intermediação
institucional? Afinal, dizia, a percepção de voluntário atrelado a
uma instituição, pelo menos no contexto brasileiro, é um dos pontos
principais de estrangulamento entre voluntário e oportunidade de
ação. Meses depois, nascia o V2V
volunteer-to-volunteer, uma
rede de voluntários que se conectam entre si de forma distribuída
(sem necessariamente contar com intermediação institucional). A
rede se multiplicou como um vírus, foi adotada como plataforma para
voluntariado corporativo em várias empresas e desbravou para novos
países.
Esta experiência foi pra mim um
tipping point... Na época eu
estava interessado nos Coletivos (inteligentes). Depois de anos
levando minha empresa de uma forma “tradicional”: escritório,
reuniões presenciais... resolvi partir para um caminho menos óbvio:
trabalhar com a equipe de forma predominantemente virtual. O
primeiro ensaio de atuar com o conceito de distancia foi em 99,
quando passei uma temporada em San Francisco. Segui de lá com dois
clientes no Brasil e através do ICQ comecei a escrever um futuro a
distancia. Depois de alguns anos em Brasília, bateu aquela pergunta
do ratinho (quem mexeu no meu queijo) “o que vc faria se não
tivesse medo?”. Eu respondi: mudaria pra praia e seguiria com meu
trabalho normalmente. Criei uma plataforma de trabalho a distancia
(Maestro) e fui de mala e cuia pra Floripa - por um ano :| - me
rendeu, dentre outras coisas, clientes a menos, um curso de
Cosmologia, outro de Reiki Xamânico e o gosto pela estrada. Mudei o
sobrenome da
www.plannermob.com.br">
Planner, minha empresa, de ‘marketing de relacionamento’ para
‘mobilidade’ e assumi de vez uma vida nômade. Criei o
nomade.blog.br e ultimamente me
encontro mais na parte prática de viver em movimento do que de
alimentar o blog... mas acho que ainda vai dar jogo :-}
Li Pierre Levy começando por ‘A Conexão Planetária’ e depois
encontrei um
texto do
André Gorz na Trópico. Na sequência li ‘Misérias do Presente,
Riqueza do Possível’ e ‘O Imaterial: conhecimento, valor e capital’
(Annablume). O texto sobre o fim do trabalho assalariado em que ele
propõe em tom de manifesto uma reapropriação da vida no jargão “do
pleno emprego para a vida plena” me nocauteou. Emancipação do
indivíduo e rede tem tudo a ver! Foi natural encampar o discurso e
a prática (não sem riscos) de que trabalho e trabalhador não são
duas entidades separadas. Já tinha lido ‘A Teia da Vida’ (Capra) e
visto o filme ‘O Ponto de Mutação’ e era impossível não enxergar o
padrão de rede em tudo que olhava.
Descobri que
amador é
quem faz por (((amor))) e não necessariamente o anti-profissional.
Fiz até um encontro em Goiânia pra discutir o tema. Aliás vejo um
ótimo link entre o conceito de amadorismo e o de
autodidatismo. Escrevi um artigo sobre
Coletivos Inteligentes e outro com o Bruno sobre
Voluntariado em Rede.
Estive quatro vezes no
GIFE,
acompanhando o Bruno no curso ferramentas de gestão. Eu vinha de
dez anos de trabalho com CRM (gestão de relacionamentos com
clientes) onde a perspectiva era de centralização (organização
falando com público) e não pessoas falando com pessoas, o que pra
mim se apresentava como um novo desafio. Como pensar em ‘gestão’ de
relacionamentos numa rede, em que as pessoas se relacionam entre
si? Gladwell (O ponto de desequilíbrio), Steven Johnson
(Emergência, a dinâmica de rede em formigas, cérebros, cidades e
sotwares) e Barabasi (
Linked: How Everything Is Connected to
Everything Else and What It Means) apoiaram os novos
argumentos, mas os dois volumes de Escola de Redes: ‘
Novas
Visões’ e ‘
Tudo
que é sustentável tem o padrão de rede’ deram uma nova dimensão
sobre o assunto. Fiquei especialmente interessado em investigar os
fenômenos aglomeramento, enxameamento e ‘redução do tamanho
(social) do mundo’ utilizando
SNA (
Social Network
Analysis) no
www.moov.com.br">MOOV,
meu principal projeto atualmente.
Tenho interagido nos últimos anos com a equipe do
Somosmas, em Bogotá, onde estive
duas vezes e onde mantenho uma frutífera cooperação técnica no tema
Redes Sociais. Trabalhamos juntos no projeto Destapa Futuro, que
transformou um concurso de empreendedorismo em um
contexto, onde
empreendedores se conhecem e se interconectam de forma distribuída
a partir de afinidades. Em Bogotá participei ainda como
conferencista em dois encontros sobre Redes Sociais e fiquei muito
impressionado em como o tema está avançado por lá.
Participei de um curso no IPPUR que tinha como um dos objetivos
debater de que formas as redes técno-sociais podem ser uma
alternativa, que redefine as relações entre Estado e Sociedade.
Conheci então o trabalho da Professora Tamara Egler organizadora do
encontro e li seu livro
Ciberpólis – Redes no governo da cidade (7letras) e do
Professor Camilo Penna (ainda procuro o link de dois artigos sobre
SNA que ele escreveu).
Participei de vários encontros de arte e musica eletrônica onde o
sagrado e o lírico se misturavam e foi neles que experimentei na
pele fenômenos como emergência e autoorganização. Li
TAZ Zona Autônoma Temporária (super-recomendo!) na época do
Goiastexas, um encontro de gastronomia (tudo a base de
mandioca), musica
eletrônica e artes plásticas em Santa Teresa que organizei com
amigos e que depois virou blog (goiastexas.blog.br). As
manifestações se multiplicaram em outros encontros e blogs... e
pelo menos pra mim ficou provado que real e virtual não se
dicotomizam e senti o poder da rede ao reunir pessoas por afinidade
reconfigurando o sentido de pertencimento.
Meu envolvimento com a Escola de Redes começou com um convite do
Augusto para o encontro com
David de Ugarte em Campos do Jordão.
Reencontrei com Ugarte em Madrid numa animada conversa no bar em
frente às Índias Eletrônicas. Li ‘
O
poder das redes’ e quando comentei com ele meu interesse sobre
nomadismo, ele me deu o PDF do seu novo livro ‘
De las
naciones a las redes’, na época ainda inacabado e para minha
surpresa o capitulo de nomadismo estava em branco, prontinho para
ser escrito. Interessante que a abundância da rede se manifesta até
no silencio da página em branco.
Acompanho há um bom tempo as
Cartas Rede
Social (antes Cartas Capital Social e Cartas DLIS) e a série
Aminoácidos. Noutro dia revisando o número 3 de 2002 achei um
debate ótimo entre o Cássio, Augusto, Cláudia e Dolabela (que
conheci na época do projeto Gênesis) já com os fundamentos do que
estamos falando agora. A AED foi uma escola, pois foi lá que uma
nova perspectiva se abriu a partir do Terceiro Setor, território
que eu gravitaria nos anos seguintes. Foi lá também que conheci
alem do Augusto, o
Mário
Salimon,
Bia
Simonassi e
Cláudia
Amaral, pessoas que tem feito diferença na minha carreira.
Bem... a idéia aqui era fazer uma apresentação-histórico com um
itinerário de leitura. Parafraseando Augusto na apresentação do
livro do Ugarte, “por amor à brevidade” paro aqui – mas continuo
vestido com os ‘óculos de ver rede’. \o_