
Mário Salimon (2009)
Do jornalismo em rede a uma rede de jornalismo, ou algo que o
substitua na era da desintermediação
Provocado a pensar sobre minha relação com o tema das redes, vi
minha carreira reduzida a uma imagem daquelas em que um macaco se
arrasta, vai ficando ereto e vê as estrelas, um conjunto inominável
de possibilidades.
Escrevo poemas desde os 8 e, também cedo, fantasiei e decidi,
dentro de minhas possibilidades, ser jornalista. Fantasiei a vida
de repórter, conhecendo gente interessante, viajando e mudando o
curso das histórias. Com o impulso dos pais, tracei um caminho
certeiro nessa direção e o desejado, descartadas as infantilidades,
simplesmente aconteceu. Em 1989, assumi posto de repórter de
cultura no Correio Braziliense, subindo rapidamente como crítico de
música e artes plásticas e escrevendo também sobre políticas
culturais.
Dois anos de redação foram suficientes para eu ver que a vida de
repórter não me servia. Havia uma brutalidade naquele ambiente, um
certo sentido de controle e agendas próprias que não permitiam o
relato imparcial da história, o que me causava profundo desgosto.
Segui meu editor e mentor Ruy Nogueira por um tempo, mas não via
futuro naquele tipo de contexto.
Comecei a imaginar o que poderia fazer da vida, como aproveitar o
conhecimento adquirido e concluí que poderia ser o outro lado da
moeda, a vidraça ou, como asseveraria Franklin Martins alguns anos
mais tarde, em uma entrevista com Ruth Cardoso, o outro lado do
balcão. Meu futuro parecia estar na assessoria de imprensa.
Minha esposa via as maquinações silenciosas pelos cantos da casa,
os rabiscos e esquemas que fazia e resolveu colocar alguma
estrutura no projeto, dando-me de presente um livro sobre
metodologia para consultores. Lamentavelmente, não o encontro na
biblioteca para poder listar como bibliografia.
Em 1992, assumi o posto de assessor de imprensa do Conselho Federal
de Psicologia, onde desenvolvi, por mais de dois anos, atividades
intensas de comunicação interna. Não sabia naquele tempo que era
isso o que fazia, mas era a única saída, visto que a organização
não gerava fatos jornalísticos de interesse da sociedade.
Três anos mais tarde, fui selecionado, após um processo bastante
complicado, para o posto de oficial assistente de informação no
UNICEF, uma verdadeira escola para mim. Ali, alem de ter fatos
jornalísticos de sobra, recebi formação em formulação de projetos,
monitoramento e avaliação de políticas públicas, desenvolvimento
com perspectiva de gênero e várias outras técnicas.
Até esse momento, tudo o que fazia era, na verdade, promover
processos de informação: transmissão unilateral de conjuntos de
dados articulados que, por se relacionarem a capacidades e
experiências anteriores, fazem sentido para um indivíduo ou grupo
de indivíduos que compartilham determinado contexto.
Deixei o UNICEF dois anos depois e, em 1997, escrevi um livro sobre
os índios Xavante, montei um piloto de restaurante em Alto Paraíso,
fiquei cabeludo, compus metade do meu primeiro CD e até tive
tranças afro por uma semana. Foi uma ano bem interessante. Uma
espécie de recreio.
Em 1998, entrei para a Comunidade Solidária e comecei a entender
melhor o funcionamento da máquina do desenvolvimento. Aliás, foi
ali que entendi a diferença entre crescimento e desenvolvimento,
entre democracia e direito ao voto, bem como muitos outros
conceitos fundamentais. À época, estimei um vocabulário adquirido
de cerca de 5 mil palavras, o que é bem mais que o volume
articulado por uma pessoa comum durante toda sua vida.
Na Comunidade Solidária, comecei a fazer gestão: análise, desenho,
condução, mensuração e realinhamento de recursos com objetivo de
geração de resultados específicos desejados.
Ali, também aprendi o verdadeiro significado da palavra
comunicação: processo através do qual elementos de determinados
grupos compartilham códigos e significados e tornam comuns ativos
de informação ou conteúdos.
Nessa etapa, um livro muito influente foi
Ecologia da
Informação (Davenport, Thomas - Futura, 1997), em que se
apresenta uma visão bastante original da organização em torno da
informação, desenvolvida a partir de uma analogia com sistemas
naturais. O capítulo Política da Informação é particularmente
interessante e traça paralelos entre os modelos de gestão da
informação e os tipos de regime de governo, transitando de
monarquia a anarquia e passando pelo feudalismo e o
federalismo.
Naquele contexto, em 1999, desenvolvi o primeiro projeto de gestão
do conhecimento, que é o processo pelo qual se coloca conhecimento
certo, em quantidade e qualidade certas, no momento certo, nas mãos
da pessoa certa. Meu livro de cabeceira para o tema, desde então, é
Managing Knowledge – a Web Based Approach (Applehans,
Globe,Laugero – Addison Wesley Information Technology Series,
1999).
Ao colaborar com a Comunidade Solidária, conheci Augusto de Franco
e com ele entendi a lógica dos “aminoácidos do desenvolvimento”,
que são a democracia, a cooperação sistêmica, o empreendedorismo e
a organização em redes.
A publicação
Aminoácidos (edição 1, AED, 2001) foi
fundamental no desenvolvimento de minha metodologia de análise de
situação e desenho de programas de informação, comunicação e gestão
do conhecimento, sobretudo por apresentar uma abordagem bastante
objetiva da questão da congruência organizacional nos meios interno
e externo. O capítulo Sistema Conceitual da AED é emblemático e
sintetiza o DNA das organizações tendentes à sobrevivência.
Em 2001, montei a empresa Heliocêntrica TIPG e prestei diversas
consultorias a empresa, órgãos governamentais e não governamentais
e mesmo pessoas físicas. Desenvolvi vários marcos referenciais de
comunicação, modelos de informação e comunicação baseados em mídia
digital e alguns sistemas pioneiros de gestão de conteúdo
online.
Seria desnecessário ocupar espaço com a importância dos novos meios
e a revolução decorrente dos potenciais por eles oferecidos. Fica
aqui um referência que considero fundamental, o livro
The Skin
of Culture (De Kerckhove, Derrick – Sommerville, 1995).
Um tema que estudei bastante nesse período foi identidade
corporativa, um elemento que via sendo mal aproveitado nas
organizações, geralmente preocupadas somente com manifestações
epidérmicas como papelaria, publicações, folders e banners. Sugiro
a leitura de
The New Guide to Identity (Ollins, Wolff –
Gower/The Design Council, 1995) para quem resolver adotar uma
postura mais séria sobre o assunto.
Escrevi sobre os temas acima nas edições 4 e 5 de Aminoácidos e em
outras publicações, principalmente eletrônicas. Esses textos estão
disponíveis no sitio
www.mariosalimon.com e no blog a ele
vinculado.
No ano de 2005, aceitei um contrato de longa duração com o IICA
(Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura), com
quem desenvolvi uma colaboração bastante frutífera. Nos quase
quatro aos que passei com eles, trabalhamos com bastante sucesso os
temas de informação, comunicação e gestão do conhecimento, criando
um modelo teórico/funcional de excelente custo-benefício para a
organização. No IICA, investi muito no estudo da economia do
conhecimento, psicologia organizacional, da gestão da estratégia e,
como decorrência, do método Balanced Scorecard, no qual acabei
sendo treinado e certificado. Dessa fase, destaco as seguintes
publicações, que me foram indicadas por especialistas das
respectivas áreas:
•
Principles of model building – the construction of models for
decision analysis (Rivett, Patrick – Wiley, 1972).
•
Psicologia social das organizações (Katz, Daniel/Kahn,
Robert – Atlas, 1966).
•
Intangibles – management, measurement and reporting (Lev,
Baruch – Brookings, 2001).
•
Balanced Scorecard – translating strategy into action
(Kaplan, Robert/Norton, David – Harvard business Press, 1996).
•
Balanced Scorecard Step-by-Step for Government and Nonprofit
Agencies (Niven, Paul – Wiley, 2003).
. Durante todos esses anos, segui acompanhando a mobilização de
Augusto, com suas Cartas DLIS e seus desdobramentos, até a atual
Carta Rede Social e a Escola de Redes.
Acho que não teria referencias sobre o tema que já não tivessem
sido postos na mesa a esta altura, sobretudo todos os livros de
Augusto. Mas, no momento em que resolvi participar do movimento e
apoiar a criação do Nodo Brasília da Escola de Redes, entrava em
uma nova fase profissional, justamente muito demandante no que toca
a mobilização de redes potenciais de pessoas.
Em setembro de 2008, assumi a gerência de comunicação da Fundação
AVINA, com o desafio de colaborar com uma organização
predominantemente virtual (por oposição a presencial e
centralizada), geograficamente dispersa e trilingüe.
O primeiro desafio que recebi foi trabalhar no projeto de uma nova
intranet, como principal ferramenta de uma estratégia de
comunicação interna, que imaginei ser factível com a criação de
comunidades de prática. Neste momento, estou lendo os seguintes
livros, como apoio aos processos de desenho desses projetos:
•
A promessa da política (Arendt, Hannah – Difel, 2008).
•
Cultures and organizations – software of the mind
(Hofstede, Geert/Hofstede, Gert Jan – McGrawHill, 2005).
•
Groundswell (Li/Bernoff – Harvard Business Press,
2008).
•
Presentation Zen (Reynolds, Garr – New Riders, 2008).
•
Novas visões (Franco, Augusto - Escola de Redes,
2008).
Vejo minha colaboração no projeto da Escola de Redes com uma ênfase
no tema da comunicação, pois é o fator de agregação do grupo com o
qual me relaciono.
Minha visão profissional sobre o tema das redes é de que são
potenciais dormentes. Podem resultar de construções sistemáticas,
decorrentes de estratégias organizacionais que são análogos de
circuitos (des)integrados, ou, simplesmente, por forças culturais,
como as eólicas ou hídricas, que vão cavando canais e comunicando
compartimentos estanques de maneira aleatória, casual.
Por serem potenciais, vão se realizar quando os circuitos, no
sentido da energia, e não social, forem fechados, quando houver uma
indução ou mobilização. Vão se estagnar quando houver uma
obstrução, quando a energia investida acabar ou o trabalho, no
sentido mesmo da física, for realizado. É isso que dói nas
organizações: aceitar que devem ter fim e não ser um fim em si
mesmas.
Portanto, ficou claro para mim que as redes não se decretam, mas
podem ser objeto de atenção dos gestores, sempre que estes se
abstiverem da tentação do controle. Nesse sentido, concordo
plenamente com Augusto quando diz que redes de organizações são
inviáveis. Elas sempre tentarão aplicar seus sistemas estratégicos
e programas verticais sobre a rede, gerando obstruções.
Mas as motivações das redes de pessoas podem ser entendidas como
uma co-missão para as organizações. Seu modo de funcionamento pode
ser uma lição de governança e seus protagonistas podem ser atores
importantes em um esquema de muitos benefícios a poucos custos.
Porém, isso vai muito ainda pelo caminho teórico, e por isso
Augusto insiste na experimentação como um elemento da Escola de
Redes. Agora, é preciso aceitar que isso não trivial nem fácil. Há
muito trabalho pela frente.