
Camila Santo (2009)
Vou tentar contar minha história a partir do seu ângulo mais
peculiar, para que acrescente algo além do meu perfil, que pode ser
lido
http://escoladeredes.ning.com/profile/MilaSan
Até dez anos atrás, meu destino parecia totalmente voltado para as
artes. Pintora desde os 8, primeira encomenda de quadro aos 12,
primeira exposição aos 15, reconhecimento da mídia aos 19.
Adolescente eu sempre respondi que seria artista quando crescesse.
Entretanto, até os 18 ignorei a importância de duas outras artes
latentes em mim, que eu praticava desde os 6 e 15, respectivamente,
e que com 19 se tornaram uma necessidade: a dança e a música.
Ao contrário da estrada reta que foi a pintura em minha vida, a
dança foi um verdadeiro labirinto. Balé clássico, moderno, jazz;
danças árabe, indiana, grega, russa, espanholas; técnicas
populares, sagradas, terapêuticas; de tudo eu experimentava.
Chegando até a fronteira das práticas meditativas de Chi-Kun e
Tai-Chi-Chuan, e a arte marcial do Kung Fu. E assim sempre quis
conhecer algo mais sobre o movimento do corpo humano. Dessa forma,
não priorizando a dança na minha carreira, mas sempre mantendo-a
presente, eu acabei entrando cedo na adolescência e desde os 9 anos
saia em festinhas, onde passava cerca de 8 horas dançando sem
parar. Um hábito que tenho orgulho de manter vivo, quando sobra
tempo para o laser.
Já a música, foi quase que passada pelo sangue, pela minha família
musical, e pela maioria de meus amigos, que sempre vieram a ser
músicos, onde quer que eu fosse. Apesar dessas oportunidades,
também aí nunca consegui adquirir a disciplina de aprender bem um
instrumento. E assim, por comodidade, escolhi a voz. Ao longo
desses 15 anos, foram variados os convites para integrar bandas, de
rock, de samba, de bossa, forró ou mpb. Mas eu sentia também com a
música, sempre a fome de algo mais, que não cabia em um só gênero
musical. E assim, passei os últimos 10 anos pesquisando, de forma
autodidata, as músicas tradicionais de todos os continentes, e
alguma coisa de física acústica. Me concentrando de quase três anos
para cá em técnicas vocais antigas.
A verdade é que eu me encontrei nas artes, quando me encontrei na
dança e na música. Foi descobrindo uma forma de criar que
correspondia à minha essência: a
improvisação. Junto com a
improvisação, que descobri quando caí de para-quedas, em um
workshop de dança contemporânea, eu conheci a arte da performance,
que vem a ser hoje, o meu xodó, já há 10 anos, no campo
artístico.
A relação da Arte com as Redes é engraçada em minha vida, porque
mudou totalmente o destino que eu tinha imaginado para minha vida.
E tudo foi muito rápido. Aos 20 anos, enquanto eu me descobria nas
artes, eu morava na França, onde estive por 7 anos, estudando e
buscava formas de ganhar dinheiro para viajar pela Europa, eu
comecei a trabalhar como burro-de-carga na produção de projetos
culturais e execução de campanhas de marketing da pior qualidade,
entre outros. Me aproximei de uma associação que fomentava a
difusão da cultura brasileira na França e participei da fundação de
uma outra, similar (porém unicamente voltada para cinema e
televisão), com a qual trabalhei como correspondente mais tarde ao
voltar ao Brasil, por 3 anos. E assim, decidi fazer um estágio na
melhor rede de televisão que já conheci, a ARTE, franco-alemã, e
patrocinada na época por apenas um único sponsor, uma marca de
relógio suíço. Caí na produção audiovisual e comecei a fazer vídeos
na faculdade em que estudava. Pronto, eu havia me apaixonado pela
tecnologia. E durante um ano ela namorou com a dança, enquanto eu
levava a câmera emprestada da faculdade para filmar dançando nas
jam sessions do centro de dança contemporânea de minha cidade.
As Redes nasceram em mim no dia em que escolhi integrar uma matéria
de prática de pesquisa que misturava, dança, vídeo, som e internet.
Estávamos em setembro de 1999 e eu, junto com 20 outras pessoas
batizamos o coletivo ESP, que já realizou 12 projetos diferentes
desde então, em rede, e com diversos países. Através do Coletivo
ESP eu tive a oportunidade de fazer workshops com os performers
franceses mais importantes da última geração Fluxus, e conheci
Kathelin Gray, que vinha a ser a pessoa responsável pelas relações
humanas dentro do importantíssimo projeto Biosfera 2. Lembram dele?
E neste ano entendi de forma extremamente sensorial o primeiro
conceito importante em Redes:
Sinergia.
Neste projeto aprendemos a criar dispositivos de baixa a média
tecnologia, com ou sem uso de internet, que permitiam a interação
audiovisual entre espaços distantes geograficamente, em/sem tempo
real. Um momento lindo e que apesar de eu ter voltado para o brasil
em 2001, não acabou. Colaborando virtualmente com o Coletivo ESP,
realizei ainda 2 performances, uma ação internacional (Brasil,
França, Argentina, Macedônia e Eslovênia) contra a escravidão
tecnológica em 2002, e outra unicamente entre Brasil e França, em
2003. Dessa forma entendi um segundo conceito importante para mim:
Telepresença.
Em 2002, foi o ano em que participei de um documentário sobre o
Fórum Social Mundial e que abre uma paréntese interessante. Em meio
a idealistas de todo o planeta, reinvindicando igualdade e justiça
social, estava um monge vestido de laranja meditando sozinho no
meio do parque, todos os dias. Fomos lá e perguntamos a ele:
"porque em meio a tanta gente clamando por uma nova sociedade, você
fica aqui sozinho em silêncio?". Ele respondeu: "uma nova sociedade
só será possível quando o homem aprender a ficar em paz consigo
mesmo. Para mudar o mundo precisa-se começar de dentro. Eu estou
ilustrando isso".
Em 2003, eu já estava no Brasil há dois anos e a produção tinha se
tornado uma atividade mais importante em minha vida. Comecei a
criar projetos socio-culturais, como no passado pintava quadros, e
a procurar captadores de recursos para eles, já que afinal eu era
"apenas uma artista". Fui indicada para uma pessoa do governo
estadual, que disse que precisava que eu escrevesse um projeto de
cooperação para o Brasil e a França. Este projeto deveria reunir
uma universidade, alguns órgãos governamentais e empresas para que
colaborassem em torno de um site. Ele disse que deveria ser "como
uma autarquia, mas menos burocrático e mais democrático que isso".
Eu acreditei, e levei 3 meses pesquisando sobre formas de chamar
isso. Eu enfim descobria as Redes!
O processo de elaboração do plano de negócios desta Rede foi
interessante, porque Redes não costumam ter forma jurídica e apesar
do projeto ser um site acabou sendo isso o que me pediram. Não sei
quais eram as intenções naquela época, mas isso acabou sendo o que
reforçou o projeto e permitiu que por fim acabasse se realizando
sem padrinhos. E hoje há 3 anos se sustenta unicamente com esforços
dos associados, como é possível de se fazer.
Em 2004 e 2005, enquanto eu entrevistava todos os interessados
nesta futura Rede, quanto às suas estruturas jurídicas de decisão e
cooperação, para fazer algo efetivamente democrático, consegui
compreender o terceiro conceito que considero importante quanto a
este tema: Identidade. E acredito que o resultado do projeto tenha
ficado bom, pois passei a ser indicada para ajudar em projetos
internacionais de cooperação desde então. Além da França, sendo
chamada para iniciativas do Brasil com a Espanha e com a Itália, e
da França com a América do Sul.
Por fim, a formação jurídica da tal Rede veio a ser uma associação,
que ao meu ver, no Brasil, é a única forma passível de efetivamente
atuar entre os 3 setores. Esta crença é reforçada pelo fato de eu
colaborar com outra associação francesa que é apoiada por duas
Redes Internacionais importantes, uma da Unesco e outra das Nações
Unidas. Uma pequena associação que permitiu que duas Cátedras da
Unesco fossem criadas em países diferentes e já organizou Grupos de
Trabalho entre parceiros de diversos setores, ao longo de 10
anos.
Mas as Redes não foram na minha experiência apenas um mar de rosas
e são os seus desafios que me trazem aqui. Na verdade o que aprendi
até aqui com as Redes é que existe uma proporção entre a
horizontalidade de decisão e o esforço de mobilização nelas. Com
efeito, observo que quanto mais virtual a rede, ao contrário do que
dizem as teorias, menos trocas efetivamente acontecem. Apesar de
serem de altíssimo nível na medida em que a telepresença se
manifesta por mais variados canais. E por outro lado, quanto maior
a capacidade de mobilização que a Rede trás, embora mais resultados
concretos sejam observados, mais ocorre a tendência humana de
concentrar informação e poder.
Por isso, se falo mais sobre arte que sobre gestão ou sociedade
neste post, é porque minha contribuição no tema Redes Sociais é
resultante da sorte de ter tido uma experiência sensorial de
interação artística, que é a forma mais prazerosa de vivenciar a
rede; e o que pude vivenciar na área de cooperação internacional,
que é a mais complicada e lenta forma de constituir rede. Dois
opostos complementares.
Volto ao monge e me digo que nada é por acaso. Que quem se
interessa por Redes tem uma missão social. Porque a Sociedade hoje
é Rede. Mas se "é preciso começar por si mesmo", a única coisa que
meus 30 aninhos permitem que eu diga, é que não são as idéias e sim
os sentidos que fomentam a cooperação em rede.
Um último exemplo engraçado. Leio livros do Pierre Lévy há dez
anos, desde que entrei no coletivo ESP. Desde 2006, vendo estudando
sobre administração, telepresença, redes, cooperação e ele sempre
aparece em algum artigo que eu esteja escrevendo. Em 2007, cheguei
a vê-lo em uma palestra que deu, organizada pela Rede São Paulo.
Fiz uma pergunta, ele respondeu, e nada mais aconteceu. Hoje faço
parte de seus contatos em uma ferramenta de relacionamento não por
causa de minha pergunta, ou pelo facínio por alguns de seus livros,
tão pouco pelos amigos que me levaram até aquela palestra naquele
dia, que de alguma forma estavam envolvidos com o evento também,
tão pouco pelos trabalhos que faço em redes sociais, ou qualquer
projeto em que ele hoje esteja envolvido. Nosso vínculo hoje vem do
fato que temos um amigo em comum, que vem a ser o curador do
primeiro festival que o coletivo ESP participou, no ano 2000. Se
hoje me pedissem para descrever a forma de uma rede, eu
responderia: um ciclo.
A minha contribuição na Escola de Redes, como meu caminho me
mostrou, é apontar direções para os mistérios da interação
cultural, que a rede traz.
Minhas referências, das quais falarei mais detalhadamente ao longo
do ano (agora exclusivamente concentradas no mestrado) são Capra,
Maturana, Lévy, Castels, Barabási, Watts, e a interação que faço
com os trabalhos de Tuomela, Desrosche, Moles, Bohm, Khrishnamurti,
Bourdieu, DeMasi, e Checkland.
No Brasil, costumo indicar o Augusto de Franco como referência,
pelo fato de que incorpora o lado "social" das redes com a nossa
visão cultural, além de escrever de forma acessível, e com espírito
de quem ama estar sempre aprendendo e não teme compartilhar seus
conhecimentos.