
Consegui afinal colocar na
BIBLI.E=R, para download, a tradução brasileira - incorretamente nomeada "Sociedade sem escolas" - do livro de Ivan Illich,
Deschooling Society (1970):
ILLICH, Ivan (1970):
Deschooling society
ILLICH, Ivan (1970):
Sociedade sem escolas (PDF)
ILLICH, Ivan (1970):
Sociedade sem escolas (RTF)
Continuação de 30/07/09: 15:40-16:30
Bem, prometi que continuaria este
post. Agora seguem as razões da insistente divulgação do livro "Desescolarizando a sociedade" (assim deveria ter sido traduzido o título
Deschooling Society) do nosso saudoso Ivan Illich. Ele foi o primeiro inspirador das considerações que seguem e merece ser relido, quase 40 anos depois, a luz do que ocorreu no mundo nesse período.
Sim, é urgente desescolarizar a sociedade, mas Illich, conquanto tenha tido essa visão supreendentemente antecipatória, vivia em uma época que não reunia as condições para tal mudança e nem possuia os instrumentos necessários para promovê-la.
Nas últimas décadas a educação se transformou em uma espécie de panacéia, um mito moderno que não aceita ser contestado. Não há platéia, seja qual for o lugar do mundo em que se reúna, que não balance afirmativamente a cabeça quando alguém lhe diz que a solução para todos os males que nos afligem - da insegurança urbana aos obtáculos ao desenvolvimento, das mazelas da democracia realmente existente às ameaças à vida humana em escala planetária - está na educação.
Mas esse mito moderno que, tal como a visão reducionista (ambientalista) da sustentabilidade, parece inspirar um novo tipo de religião laica, é perigosamente regressivo. Pois o que se entende por educação ainda se resume a colocar todos as crianças na escola e a melhorar a escola, sem ver que a escola, longe de ser solução, é parte do problema. E, mais do que isso, sem ver que
ela é o problema.
Faço esses comentários preliminares para tentar explicar as razões pelas quais tem surgido com força ultimamente a idéia de promover a articulação de sistemas sócio-educativos, comunidades de aprendizagem, estruturadas em rede e livres dos mecanismos de obstrução, separação e exclusão que caracterizam as burocracias escolares.
A EMERGÊNCIA DOS SISTEMAS SÓCIO-EDUCATIVOS
Não é novidade para ninguém que, no mundo atual, qualquer pessoa que saiba ler e escrever e tenha acesso à Internet pode aprender muito mais do que podia há dez anos. Sim, isso é fato. Uma criança com noções rudimentares de um ou dois idiomas falados por grandes contingentes populacionais (como o inglês ou o espanhol, por exemplo), já é capaz de aprender muito mais – e com mais velocidade – do que um jovem com o dobro da sua idade que, há dez anos, estivesse matriculado em uma instituição de ensino altamente conceituada. Diz-se agora que, se souber ler (e interpretar o que leu), escrever, aplicar conhecimentos básicos de matemática na solução de problemas cotidianos e… banda larga, qualquer um vai sozinho.
A novidade é que isso não depende, nem apenas, nem principalmente, da tecnologia
stricto sensu e sim de novos padrões de organização social que estão se configurando na contemporaneidade. Uma sociedade em rede está emergindo e, progressivamente, tornando obsoletos as instituições e os processos hierárquicos da velha sociedade de massa, inclusive as instituições e processos educacionais. Novas tecnologias de informação e comunicação – que permitem a interação horizontal ou entre pares (pessoa-com-pessoa) em tempo real – estão acelerando esse processo. Mas novas tecnologias sociais, tão ou mais importantes do que essas (chamadas TICs), também estão contribuindo para mudar radicalmente as condições de vida e convivência social neste dealbar do século 21.
Tudo isso vai mudar - e em parte já está mudando - a maneira como executamos as nossas atividades empresariais, governamentais e sociais. Vai mudar a maneira como nos organizamos para produzir e comercializar, governar e legislar e conviver com as outras pessoas na sociedade. E – como não poderia deixar de ser – isso também está mudando a forma como aprendemos.
O problema é que as instituições e os processos educativos que foram pensados para um tipo de sociedade que está deixando de existir (à medida que emerge uma nova sociedade cuja morfologia e dinâmica já são, em grande parte, as de uma rede distribuída) ainda remanescem e continuam aplicando seus velhos métodos. Em que pese o papel fundamental que cumpriram nos últimos séculos, essas instituições e processos já começam hoje a ser obstáculos à criatividade e à inovação.
O que tivemos, pelo menos nos dois últimos séculos, foi, em grande parte, uma educação massiva e repetitiva, voltada para enquadrar as pessoas em um tipo insustentável de sociedade (instalando nas suas mentes programas maliciosos, elaborados para implantar noções de ordem, hierarquia, disciplina e obediência) e para adestrar a força de trabalho, para que os indivíduos pudessem reproduzir habilidades requeridas pelos velhos processos produtivos e administrativos e executar rotinas determinadas.
Agora estamos, porém, vivendo a transição para outra época, para uma nova era da informação e do conhecimento, na qual as capacidades exigidas são outras também. Nesta nova sociedade do conhecimento, o que se requer é que as pessoas sejam capazes de criar e de inovar, mudando continuamente os processos de produção e de gestão para descobrir maneiras melhores de fazer e organizar as coisas. E isso elas só conseguirão na medida em que tiverem autonomia para aprender o que quiserem, da forma como quiserem e quando quiserem e para se relacionar produtivamente com outras pessoas de sua escolha, gerando cada vez mais conhecimento – o principal bem, conquanto intangível, deste novo mundo que já está se configurando.
Faz-se necessário, pois, libertar o processo educativo das amarras que tentam normatizá-lo de cima para baixo, em instituições organizadas igualmente de cima para baixo, hierarquizadas, burocratizadas e fechadas, desenhadas para guardar em caixinhas o suposto conhecimento a ser transferido, de uma maneira pré-determinada, para indivíduos que preencherem determinadas condições (e, não raro, à revelia do que eles próprios desejariam de fato aprender). Ora, já se viu que
o conhecimento é uma relação social e não um objeto que possa ser estocado, transportado, transferido ou transfundido de um emissor para um receptor. O processo de geração e compartilhamento do conhecimento ocorre na sociedade e torna-se cada vez mais difícil, custoso e improdutivo quando tentamos parti-lo em pedaços para arquivá-lo nos escaninhos de uma organização separada da sociedade por paredes opacas e impermeáveis.
O que de tão importante se descobriu nos últimos anos é que, em última instância, quem é educadora é a sociedade, a cidade, a localidade onde as pessoas vivem e se relacionam. Na verdade, foi uma redescoberta democrática: Péricles, no século 5 a. E. C., já havia percebido este papel educador da
polis enquanto comunidade política, quando declarou – segundo Tucídides – na oração fúnebre proferida no final do primeiro ano da guerra do Peloponeso, “
que a cidade inteira é a escola da Grécia e creio que qualquer ateniense pode formar uma personalidade completa nos mais distintos aspectos, dotada da maior flexibilidade e, ao mesmo tempo, de encanto pessoal”.
Portanto, sistemas educativos deveriam ser, sempre, sistemas sócio-educativos configurados em localidades, em sócio-territorialidades, quer dizer, em redes sociais que se conformam como comunidades compartilhando agendas de aprendizagem.
Foi com base nessas considerações que surgiu a idéia de induzir a formação de comunidades de aprendizagem – estruturadas em rede – que receberam, então, por analogia com os Arranjos Produtivos Locais (APL), o nome de Arranjos Educativos Locais (AEL). A analogia tem um fundamento. Assim como os APL pretendem aproveitar o capital social de uma localidade como alavanca para induzir a formação do capital econômico, os AEL tentam fazer a mesma coisa para induzir a formação do capital humano.
OS ARRANJOS EDUCATIVOS LOCAIS (AEL) COMO EXEMPLO DE SISTEMA SÓCIO-EDUCATIVO
Arranjos Educativos Locais são uma forma de sistema sócio-educativo. São pessoas que se conectam em rede, em uma localidade, para aprender juntas.
São locais, mas entendendo-se local como
cluster, como sócio-territorialidade: pessoas conectadas com uma certa configuração – ou arranjadas de determinada maneira – criando um ambiente capaz de favorecer o processo educativo.
Esse ambiente não é conformado pelas instituições hierárquicas já estabelecidas na localidade e nem pelos recursos materiais disponíveis (salas, prédios e outros equipamentos) e sim pela rede social composta por pessoas interagindo. Quanto mais distribuída e conectada for essa rede, mais o ambiente será favorável ao aprendizado individual e coletivo.
Os AEL estão baseados na idéia de que, para aprender, uma pessoa deve aprender a buscar com autonomia o que lhe interessa da sua própria maneira (tornando-se um
buscador) e aprender a compartilhar o que buscou com outras pessoas gerando conhecimento a partir dessa interação (tornando-se um
polinizador).
Os AEL não são sistemas educativos (como as escolas) e sim sistemas sócio-educativos. Eles envolvem sempre, necessariamente, uma parcela da sociedade local onde se situam e estão voltados para o desenvolvimento humano e social sustentável (das pessoas e das comunidades) dessa localidade.
Qualquer pessoa que tomar a decisão de catalisar um processo educativo será capaz de fazê-lo em relação àqueles temas com que tenha alguma intimidade. Desde que queira fazer isso. Desde que goste de compartilhar.
Começando pelo mais básico: quem aprendeu a ler, escrever e contar – mesmo que só um pouquinho – pode ajudar outras pessoas a aprenderem isso também; e o melhor é que, assim procedendo, pode aprender ainda mais.
Um jovem que adquiriu habilidades de navegar e publicar na Internet pode ajudar outras pessoas a também adquirir, pelo menos, parte dessas habilidades. Uma pessoa idosa que desenvolveu, ao longo de anos e anos de experimentação, suas próprias práticas de permacultura, pode refazer seu itinerário de aprendizagem com outras pessoas, jovens ou adultas. Fazendo isso não só terá oportunidade de compartilhar o que sabe, mas também de reaprender o que já esqueceu que sabe. E criará conhecimento novo sobre o assunto.
Esta é a essência do AEL.
QUALQUER PESSOA PODE ARTICULAR UM SISTEMA SÓCIO-EDUCATIVO
Sim, qualquer pessoa ou grupo de pessoas pode tomar a iniciativa de articular e animar um sistema sócio-educativo, como, por exemplo, um AEL. Desde não caia em qualquer uma (ou várias) das
sete tentações seguintes:
1 – Reeditar, sob qualquer forma ou a qualquer pretexto, a relação professor-aluno.
2 – Definir currículos
top down.
3 – Separar os grupos (comunidades de aprendizagem) por idade, escolaridade ou por qualquer outro critério que não seja o interesse.
4 – Tratar o conhecimento como objeto (que possa ser transferido segundo o padrão emissor-receptor) e não como relação (o conhecimento se reinventa toda vez que uma interação entre sujeitos do processo educativo se realiza).
5– Estabelecer um padrão de ensino no lugar de aprendizagem: os AEL não dão cursos, nem têm classes ou turmas, mas somente comunidades de aprendizagem,
clusters conformados a partir de agendas compartilhadas de aprendizagem.
6 – Focalizar o trabalho na melhoria da escola, tentar complementá-la ou suplementá-la, ou montar uma escola ou para-escola dita “alternativa” ou “nova”.
7 – Estabelecer uma hierarquia, mesmo que meritocrática, encarando os agentes comunitários de educação (
stricto sensu, os catalisadores, facilitadores ou mediadores do processo de aprendizagem) como superiores, em algum sentido, aos demais agentes comunitários de educação (
lato sensu, as pessoas que interagem nas comunidades – em rede – de aprendizagem): no AEL todos são aprendentes.
Conseguir
não-fazer essas coisas já seria suficiente. Mas isso, infelizmente, é bem mais difícil do que parece. Na frente de um grupo qualquer de pessoas desejosas de aprender alguma coisa, somos tomados - se avaliamos que sabemos mais do que elas sobre algum assunto - por uma irrefreável compulsão de ensinar, de se comportar como professor, como um sujeito acima que vai então transfundir o seu conhecimento para os que estão abaixo. Na verdade, isso parece ser uma pulsão mesmo, um vaga inconsciente que vem lá daquelas profundezas escuras onde foram e permanecem implantadas as matrizes das separações - entre fortes e fracos, ricos e pobres, sábios e ignorantes, enfim, entre superiores e inferiores - que geraram esse tipo de civilização em que vivemos.
É preciso começar a desintrojetar essas matrizes perversas. Neste início do século 21, a releitura de Ivan Illich - com o olhar antecipatório das novas dinâmicas da sociedade em rede - pode ser um bom começo.
Continuação de 01/09/09: 12:30-12:40
Bem, este é um
post progressivo,
hehe. Vou acrescentando novas partes aos poucos.
Falei acima do que
não-fazer. Vou colocar agora
o que deveríamos manter em uma experiência de sistema sócio-educativo do tipo AEL.
1. A natureza dos AEL como clusters de aprendizagem: aglomerados locais de pessoas e organizações (presentes sempre por meio de pessoas) – conectadas em redes distribuídas – que se formam criando ambientes favoráveis às interações educativas.
2 – O caráter dos AEL de sistemas sócio-educativos (e não apenas sistemas educativos – como as escolas e outros aparatos burocráticos, hierárquicos, voltados ao ensino). Os AEL são uma forma de communityschooling, porém na linha do unschooling; quer dizer, de educação comunitária desescolarizada e viabilizada por meio da conformação de comunidades de aprendizagem (e não de “ensinagem”).
3 – A estratégia dos AEL de aproveitar o capital social existente em uma dada localidade para impulsionar ou alavancar o desenvolvimento do capital humano e incrementar, por realimentação (feedback positivo), o próprio capital social da localidade.
4 – A abertura dos AEL para todos que a eles quiserem se conectar desde que observando suas regras, sem qualquer critério de idade, escolaridade, condição sócio-econômica ou outra condição qualquer que não seja a do interesse em aprender.
5 – O referencial conceitual dos AEL que parte do conectivismo como teoria da aprendizagem e combina métodos de auto-didatismo (incluindo alguns processos já consagrados no
homeschooling) com métodos de comum-didatismo (
communityschooling), mas sem qualquer ortodoxia metodológica ou pedagógica.
6 – A composição dos AEL: um AEL é composto por agentes comunitários de educação lato sensu. Todas as pessoas que interagem em um Arranjo Educativo Local, individualmente ou representando uma organização social, empresarial ou governamental, são – no sentido mais geral da expressão – agentes comunitários de educação, inclusive os que os sistemas educativos chamam de “alunos”.
7 – O padrão de organização dos AEL, que se estruturam e funcionam sempre como redes distribuídas de pessoas, ou seja, como redes sociais, articuladas e animadas presencialmente e à distância. Essas redes devem buscar alcançar o grau máximo de distribuição e conectividade (todos-com-todos) de sorte a ensejar a geração de verdadeiras comunidades (de aprendizagem). Delas participam os agentes (
stricto sensu, os ACE – Agentes Comunitários de Educação), os educadores-educandos (aprendentes), as pessoas que representam os parceiros institucionais e outros stakeholders sociais da iniciativa.
8 – Os Agentes Comunitários de Educação (ACE,
stricto sensu), que são os catalisadores de processos de aprendizagem, especialmente preparados e voltados (motivados e capacitados) para essa função. Além de catalisarem o processo de aprendizagem, cabe também aos ACE visitar regularmente as pessoas da localidade, de preferência de casa em casa (tal como fazem os Agentes Comunitários de Saúde) no início para explicar o projeto e, depois, para relatar os avanços obtidos e as dificuldades encontradas, mantendo as pessoas informadas. Cabe ainda aos ACE fazer o netweaving da rede virtual que se organizará em cada AEL, administrando a plataforma interativa utilizada.
9 – As agendas de aprendizagem em torno das quais se formam as comunidades de aprendizagem em rede. Essas agendas podem ser variadas (por exemplo, alfabetização na língua natal ou em línguas estrangeiras, matemática, lógica, alfabetização digital, educação científica, artes, esportes e cultura, educação na sustentabilidade, educação para a democracia etc.), mas devem sempre ensejar oportunidades aos educandos de “andar com as próprias pernas”, transformando-se em buscadores cada vez mais autônomos e polinizadores (ou construtores coletivos de conhecimentos) cada vez mais interdependentes.
10 – A rede social mais ampla que deve ser articulada e animada conectando (pelo menos 1%) das pessoas da localidade, dos promotores, parceiros e apoiadores da iniciativa que estejam dispostas a acompanhar e interagir com o programa, mesmo que não participem diretamente como aprendentes (educadores-educandos) das atividades dos AEL. Essa ligação com a sociedade são as raízes sociais do programa, o seu lastro de capilaridade social. É por meio desses “dutos” que o capital social da localidade será “importado” como um recurso capaz de fazer a diferença no processo sócio-educativo.
11 – O engajamento da rede AEL na indução do desenvolvimento humano e social sustentável da localidade. Este é um trabalho prático – voluntário – de investimento no capital social da localidade.
É claro que outras visões são possíveis. Essa, entretanto, é a visão de algumas pessoas que - como eu - participaram da proposição de uma experiência fundante que está sendo ensaiada neste momento em duas localidades do Paraná (na iniciativa denominada Projeto Arranjos Educativos Locais Sesi-Senai/PR 2009, do Sistema FIEP).
Como escrevi em um comentário hoje cedo (ver abaixo), na verdade, apenas procurei prestar uma homenagem a Ivan Illich neste
post. Illich foi um dos meus inspiradores, mas o texto não resenha nada do que ele tivesse escrito (e nem poderia, àquela época) e sim um projeto com o qual estou envolvido nos últimos meses.
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