
É incrível como o padrão de organização vertical resiste à mudança. Quase diariamente recolho exemplos de pessoas criativas e empreendedoras que acabam erigindo organizações hierárquicas e perdem grande parte de sua energia "varrendo para dentro".
Essas pessoas deixam de ser exploradoras de novos mundos e de novas possibilidades para virar administradoras do seu quadradinho e desperdiçam sua capacidade de inovação ao recusarem (por puro medo de que alguém invada
o seu quadrado) exercer a função de polinizadoras. Sim, elas têm medo de
guardar o seu conhecimento nos seus amigos e partilhá-lo com eles: querem aprisioná-lo, confiná-lo, reservá-lo como quem esconde lá no fundo da adega aquelas garrafas do seu melhor vinho. O problema é que - separado desse jeito - o precioso "vinho" estraga.
Mas mesmo agora, com a abertura ensejada pelas ferramentas digitais de interação, tem muita gente que tem um blog ou um site e não publica seus trabalhos em outro lugar (só os links!). Por que? Ora, porque não querem "botar sua azeitona na empada" de ninguém. Querem que as pessoas se dirijam a eles, visitem o seu próprio espaço. Querem acumular visitantes. Querem somar comentários (em muitos casos mediando esses comentários, filtrando-os, para só deixar passar os que lhe agradam). Querem aumentar sua popularidade para incrementar seu currículo ou para, em alguns casos, atrair verbas de publicidade. Assim, não compartilham muito. É isso que significa o "varrer para dentro".
A blogosfera como um todo, sim, pode ter o padrão de rede distribuída, mas não os blogs proprietários. E ao contrário do que tanto se propagou,
blogs não são bons instrumentos de netweaving. Não raro, são também uma forma de erigir castelinhos, uma forma de cada um estabelecer um reinado no seu próprio quadrado. Porque não são as ferramentas tecnológicas que determinam o padrão de organização social: é justamente o contrário.
O fato é que (quase) todo mundo acha que precisa ter sua própria organização (ou pertencer a uma). Até aí tudo bem. Mas o problema é que, em 99% dos casos, as organizações que acabamos construindo (ou aderindo) são hierárquicas - seja uma empresa, uma ONG ou, o que é cada vez mais freqüente com a profusão dos sites de relacionamento, aqueles grupos proprietários incorretamente chamados de "comunidade".
É espantoso, mas é assim. Se você não manda em ninguém e não está representando ninguém, você não é nada (ou acha que não é nada porque os outros acham que você não é nada). A vida na Terra levou 3,9 bilhões de anos para chegar a esse ser complexo que somos, mas isso parece não ter a menor importância. Quando alguém vai a algum lugar tem vergonha de se apresentar como uma pessoa e tem que se apresentar como dirigente ou representante de uma organização vagabunda (em termos "evolutivos",
hehe), que tem, no máximo, quantos? 20 ou 30 anos? Para ter importância, alguém deve ser visto como reizinho de algum quadradinho. A medida da sua capacidade e do seu sucesso é dada pelo número de pessoas que você pode obrigar a fazer alguma coisa contra a sua (deles) vontade. É isso que se chama de hierarquia.
Se você é importante, então tem muitas secretárias, assessores, porteiros, seguranças e fica em um local separado, protegido. Sua importância é uma medida dos filtros pelos quais alguma mensagem tem que passar para chegar até você, ou seja, é
uma medida de não-rede. Aí sim, as pessoas lhe respeitarão, mesmo que você seja um idiota (e se você vive assim
você é um idiota mesmo, no sentido grego, original, do termo). Sim, Protágoras, Aspásia e outros amigos da comunidade de Péricles sabiam o que estavam dizendo quando admoestavam os sábios e os empresários atenienses que diziam não ter tempo para participar da
polis (a
koinomia política da Atenas do período democrático) alegando estarem muito ocupados com seus afazeres.
Esse comportamento se manifesta em todo lugar. Construtores de pirâmides pontificam em toda parte. Inclusive aqui na Escola-de-Redes, onde estamos tentando aprender como articular pessoas de modo distribuído (ou mais distribuído do que centralizado). Existem muitas pessoas conectadas aqui que poderiam compartilhar suas investigações, que poderiam replicar neste site o que estão produzindo e publicando nos seus próprios sites, blogs, livros, aulas e palestras, mas não o fazem. Por que? É uma pergunta retórica: a esta altura da exposição, a resposta parece óbvia. E não, não vale repetir a resposta do
ἴδιώτης (idhiótis): se alguém entrou nesta rede, sabendo que era uma rede, é porque, supõe-se, deveria estar disposto a compartilhar.
Às vezes fico abismado ao ver como as pessoas deixaram-se aprisionar nos próprios sistemas que criaram. Quantas idéias inovadoras poderiam surgir se essas pessoas decidissem cooperar. Sim, as inovações nascem, via de regra, por polinização mútua, por fertilização cruzada, quando uma idéia é fecundada por outra. É... mas elas, essas pessoas, (acham que) não podem fazer isso, porque senão vão perder a autoria exclusiva, o direito do uso patrimonial da idéia, a "identidade" (ou a marca que forjaram a partir dessa idéia e que fundiram com sua própria personalidade para ter todas as garantias de que ninguém lhes vai roubá-la). Elas não conseguem ver que todas essas salvaguardas e garantias para manter um acesso diferencial a um recurso - inclusive o que chamamos,
stricto sensu, de identidade - são programas que rodam na rede.
E aí se deixam tomar por essa vã preocupação. Vã porque, afinal, as idéias não são de ninguém. Mesmo as que achamos que são só nossas, não são. Elas, as idéias, como se diz, estão "no ar". Surgiram a partir da combinação aleatória de múltiplos
inputs, nasceram de outras idéias que brotaram por miríades de micromotivos diferentes. E também são programas que
rodam na rede.
Os céticos dirão que tudo isso não passa de blá-blá-blá. Que eu, como "criador dessa rede" (na infeliz denominação do Ning) estou apenas querendo aumentar o meu cacife ou a minha fama absorvendo ou encampando na Escola-de-Redes os trabalhos alheios. E que essa rede é centralizada pelo administrador desta plataforma.
Pois bem. Faço então um desafio. Acabado esse período de construção inicial da Escola-de-Redes, que estimei (por razões que já expliquei aqui em vários artigos) em 500 dias, vou abrir a administração deste site (que não é a rede e sim, apenas, uma ferramenta de articulação e animação de rede) a qualquer pessoa que também queira abrir mão de ter, dirigir e/ou propagandear sua própria organização hierárquica.
Bora ver quantos aparecem.
[]s
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