
Estou reeditando este post em 29 de setembro de 2009. A parte acrescentada segue abaixo da parte original.
Parte original
Sérgio Storch abriu no último 9 de julho um fórum intitulado
Questões éticas relacionadas a negócios em nossa rede.
Seu texto inaugural abrindo a discussão foi o seguinte:
Caros
Ética não é uma coisa absoluta, e sim uma construção social.
Não sei se vejo fantasmas, mas creio haver algumas questões éticas que podem nos constranger ao falarmos de negócios, especialmente numa escola, e especialmente na Escola de Redes, onde há tanta ênfase às trocas não monetizadas.
Se alguém mais sente esse tipo de constrangimento, creio ser legal trazermos essas discussões para este fórum, para facilitar o confronto de visões alternativas, e para ficarmos à vontade (ou não) nas discussões de negócios nos tópicos específicos.
Um abraço
Sérgio Storch
O que vcs acham?
- devemos gerar negócios a partir de nossa rede?
- devemos desenvolver produtos que possam ser comercializados?
- como devem ser respeitados e valorizados os direitos de autoria? ou não, a autoria é sempre coletiva?
- como devem ser reconhecidas as participações na criação intelectual ou no netweaving?
Cada um desses temas poderá continuar aqui, ou dar origem a um novo tópico.
Mas vamos fazer aqui uma primeira rodada?
Eu pediria também a orientação do Augusto, que estabeleceu princípios para a Escola de Redes, e que deve ter bastante quilometragem nesse tipo de discussão.
Pois bem. Aí ocorreram as seguintes intervenções:
Augusto de Franco | O Sergio me convidou para opinar sobre esse assunto. Entrei no grupo para poder fazê-lo. Vou direto às questões práticas, colocadas pelas perguntas acima:
Penso o seguinte: em qualquer circunstância a Escola-de-Redes deve ser favorável ao
Domínio Público. Nada de patentes, propriedade intelectual (e, nem mesmo, o arremedo meio-caminho chamado de
Creative Commons). Minha posição sobre isso é a que está em um texto já pendurado aqui em nossa biblioteca:
UGARTE, David &
EEEE (2008):
Das primeiras patentes ao movimento pela devolução: ascensão e queda do conceito de propriedade intelectual (Tradução de Luiz de Campos Jr.).
Bem, mas o Domínio Público assegura o direito moral do autor ou autores. Assim, como sugeri no grupo
Transição Organizacional, creio que devem ser considerados autores os que trabalharem no desenvolvimento de qualquer projeto ou produto (seja um artigo, um livro, um programa, uma metodologia, uma tecnologia etc.).
Uma vez desenvolvido coletivamente um projeto ou produto, ele será de Domínio Público. Isso significa que qualquer pessoa poderá aplicá-lo em qualquer organização, seja por meio de trabalho voluntário ou remunerado, desde que seja preservado o direito moral dos seus autores e - no caso do projeto ou produto ter sido desenvolvido aqui - da Escola-de-Redes.
Gerar negócios a partir da Escola-de-Redes me parece ótimo. Criar produtos que possam ser comercializados também. Em que condições? Quem participou da produção, deve ter seu direito moral de autoria reconhecido e proclamado. Mas não pode privatizar o produto. E quem trabalhar na sua implantação - ou aplicação comercial desse produto - pode receber por seu trabalho, se quiser. Pode vendê-lo, alugá-lo, emprestá-lo, doá-lo, modificá-lo, customizá-lo. Mas não pode impedir que outros também o façam.
Sérgio Storch | Legal, Augusto, muito obrigado pelas reflexões. São parâmetros bem sólidos para irmos adiante.
Confesso que ainda preciso assimilar melhor a premissa Domínio Público, pois ainda sou daqueles que acreditam que não haja almoço grátis... A lógica da abundância me seduz mas para ela me convencer ainda tem tempo...
Mas os conceitos estão bem claros, e era isso que estava faltando para encararmos de frente a questão de negócios na rede.
Um abraço
Sérgio
Augusto de Franco |
Hehe, o almoço não precisa ser grátis, Sérgio. Se você vai prepará-lo, pode cobrar por ele. O que não pode é impedir os outros cozinheiros de fazerem o mesmo...
Sérgio Storch | Ô Augusto, impedir o outro cozinheiro não, mas tenho que dar pra ele, de graça, a receita que minha avó me ensinou, e que faz o sucesso de meu restaurante? Pra ele me tirar a clientela se instalando na esquina?
Acho que há um "missing link" nessa aplicação da lógica da abundância, que é a desconsideração do valor dos intangíveis na geração de valor.
Concordo com a tese como princípio ético e voluntário na Escola de Redes, mas é ético e não econômico. Ainda. Até que a
peer production vingue em muitos outros setores além daqueles onde ela hoje é reconhecida. Algumas décadas pela frente. Enquanto isso, a
peer production do Benkler é um modelo belo mas que se sustenta sobre hipóteses heróicas sobre um outro
homo economicus.
A lógica de que, ao abrir o conhecimento, ele pode crescer e se fortalecer, não se aplica a todas as situações. Até que, como profetizou Isaías, o lobo deite ao lado do cordeiro... Tem chão...
Augusto de Franco | Não acho que a questão aqui seja ética, caro Sérgio. Nem estritamente econômica, mas social mesmo (a economia, como sabemos, não vem de Marte, mas é um dos pontos de vista explicativos para fenômenos que ocorrem na sociedade, quer dizer, na rede social). O homo economicus é uma abstração reducionista. O que existe mesmo é o
homo sapiens (ou
sapiens-sapiens), que só pode se constituir como tal na relação e, inclusive, na troca.
A aplicação, o esforço, o trabalho, deve ser remunerado, mas não o conhecimento. Ninguém, a rigor, é dono do conhecimento que é sempre resultante de um processo coletivo. Alguma coisa rodou naquela nuvem que chamamos de mente (e que não está restrita ao nosso cérebro).
Sua avó lhe cobrou pela receita? Não? Então por que você não pode fazer o mesmo? Ah! Ela deu então para o próprio neto mas não daria para o neto de outra avó? Por que? Porque a estrutura familiar, no caso, privatizou o capital social. Vou dizer a você que isso gerou improdutividade, diminuiu a intensidade do fluxo econômico. E que, como conseqüencia, muitos perderam enquanto todos poderiam ganhar.
Sim, isso é pura sócio-economia, Sérgio, economia do capital social. Nossa produtividade aumentaria muito se o capital social - que é uma espécie de recurso sistêmico que enseja a geração dos outros capitais (para continuar com a metáfora, além dos capitais propriamente ditos, como o físico e o financeiro, aqueles outros que são considerados externalidades pelos economistas: como o capital natural, o capital humano e o social) - não fosse privatizado. Quero dizer com isso que aumentaria a geração de valor... para todos!
Não parece ser verdade que a
peer production seja uma coisa para um futuro longínquo. Temos hoje milhares de produtos (bens intangíveis e, inclusive tangíveis) sendo produzidos assim. Não preciso insistir no exemplo sempre citado do Linux. Posso lembrar a você toda a produção científica: retrocederíamos à idade da pedra sem a
peer production.
Bem, você dirá, mas o mundo não é (ainda todo) assim. É claro que não é. Se fosse, este nosso debate nem teria começado. E não seria necessário fazer escolas de redes e tantas outras coisas. Mas a tendência aponta nessa direção. Na medida em que a privatização do conhecimento vai se tornando, cada vez mais, impossível, vão perdendo sentido os esquemas que visam o seu aprisionamento.
A empresa tradicional se baseava nessa capacidade de aprisionar o conhecimento, deter o segredo, guardar a fórmula a sete chaves. Só que nós - os
hackers - estamos encontrando "O Chaveiro" (aquele programa do filme
The Matrix interpretado por Randall Duk Kim, lembra?). E nenhuma empresa conseguirá, sozinha, se manter na ponta da inovação (sem o que verá suas chances de futuro se reduzirem ou não será sustentável) sem lançar suas "hifas" para importar capital humano (conhecimento) e social (relações) do ambiente onde existe. Duzentos cérebros aprisionados trabalhando para um dono não podem competir com vinte mil cooperando para encontrar uma solução (de gestão, processo ou produto). Veja que estou falando disso que chamam de 'economia', mas sem manter uma posição genuflexória em relação ao princípios ideológicos proclamados pelos novos sacerdotes da modernidade (os economistas). Um desses princípios, muito conveniente para os privatizadores de conhecimento (como Gates) é aquele que reza que o principal incentivo para a inovação é o interesse material egotista (toda economia ortodoxa, como você sabe, se baseia na idéia de que o comportamento da sociedade pode ser explicado a partir do comportamento dos indivíduos, que os indivíduos se comportam fazendo escolhas racionais a fim de maximizar a obtenção dos seus interesses e que esses interesses são sempre, ao fim e ao cabo, egotistas. Isso é alguma coisa parecida com religião, mas aqui não é o lugar de tratar mais exaustivamente da questão).
Bem, mas então o Sr. Gates diz isso. E a realidade mostra que o mundo não funciona (mais) assim (se é que alguma vez funcionou). Os grandes inovadores da humanidade - em sua maioria - nunca agiram assim. Descobriram coisas porque deram curso àquela surpreendente capacidade humana de se maravilhar com o desconhecido e de caminhar na escuridão em direção à luz. E polinizaram com suas descobertas outras descobertas. Toda inovação surge dessarte, por polinização mútua, por fertilização cruzada. Ora, isso não acontece nos marcos do jogo comercial de interesses e nem poderá acontecer, no volume exigido pelo ritmo alucinante das inovações contemporâneas, apenas dentro de uma unidade fechada de aprisionamento de corpos e de cérebros (como a empresa como unidade administrativo-produtivo isolada). Isso ocorrerá, cada vez mais, dentro de redes de
stakeholders que serão as novas comunidades de negócios do mundo que já se anuncia, demarcadas por membranas (permeáveis ao fluxo) e não por paredes opacas.
Assim como está ficando cada vez mais difícil aprisionar o conhecimento, ainda há uma outra evidência a favor do domínio público: o conhecimento aprisionado estraga. É um bem que cresce quando compartilhado e descresce e perde valor quando não se modifica continuamente pela polinização.
Bem, o diálogo está neste ponto. E vai continuar certamente. Avaliei, porém, que valia a pena abrí-lo para toda a Escola-de-Redes e não apenas para os inscritos no grupo
Profissionais e consultores.
Parte acrescentada em 29/09/09
O assunto dessa conversa estava apenas começando. Mas o tempo é cruel. O que fica para trás é esquecido, sobretudo porquanto o Ning não tem uma forma de indexar conteúdos que sequer relembre o que ficou para trás. E nós não descobrimos ainda um modo eficaz e não-centralizante de "organizar o conhecimento" aqui nesta escola.
Bem, mas quero retomar a discussão por um outro viés. Quando começamos a discutir a questão em tese, vem logo a pergunta...
COMO SOBREVIVER?
Como podemos - a maioria de nós, que não vive de rendas - ao mesmo tempo ganhar dinheiro para sobreviver e participar ativamente da Escola-de-Redes e de outras redes e grupos formais ou informais sem fins lucrativos?
Muitos aqui já colocaram essa questão. Começo dando um depoimento pessoal.
Sou escritor, palestrante, consultor e
netweaver. Tenho que viver dessas atividades. Como escritor nada ganho, pois não escrevo textos de interesse geral, auto-ajuda ou romances (e romances, bem que gostaria de escrever, mas não tenho talento para tanto). Escrevo livros teóricos sobre desenvolvimento, sociedade civil, democracia e redes sociais. São livros considerados "técnicos". Meu livro mais "saído" atingiu a marca de pouco mais de 15 mil exemplares (o que já é muito - dizem - quase um recorde para esse tipo de literatura). Ademais, devolvi todos os meus livros ao Domínio Público e muita gente, estimulada por mim, faz o download dos textos ao invés de adquirir exemplares em papel (o que em geral não é verdade para livros de muita saída: destes, as pessoas querem adquirir exemplares em papel, mesmo que estejam disponíveis versões online ou para download; mas para artigos e livros teóricos de pouca demanda e circulação restrita, isso acaba valendo).
Como palestrante, ganho alguma coisa. Mas, freqüentemente, sou chamado a dar palestras e a participar de mesas em simpósios, conferências e encontros... de graça ou por um valor tão abaixo do que pratico que me recuso a aceitar e acabo atuando
pro bono (ou seja, de graça mesmo). Muitos organizadores de eventos alegam que não podem pagar, que o evento não tem fins lucrativos ou que no seu orçamento institucional não cabem os valores que cobro. Em alguns casos, chega a ser engraçado. Um funcionário de uma empresa ou organização, que ganha um salário (e férias e 13 salário e outros benefícios diretos ou indiretos), alega que não tem orçamento para pagar por uma palestra de alguém que (como eu) não tem salário (e nem qualquer outro benefício) e que só pode sobreviver do trabalho que faz. Às vezes o funcionário faz isso para mostrar serviço ao chefe ("
- Viu só, consegui trazer o fulano sem gastar quase nada!"). Neste caso, deixando a graça de lado, trata-se de um comportamento abusivo e ofensivo. Trata-se de exploração mesmo. Mas é impressionante a freqüencia com que acontece. Semanalmente recebo convites desse tipo. Mas não confundo tais propostas com os convites que recebo para atividades sem fins lucrativos, baseadas no voluntariado e voltada para causas importantes, aos quais procuro atender de bom grado (embora tudo deva ter um limite: eu, por exemplo, não tenho a cara de pau de ficar promovendo eventos sem me preocupar com o necessário
fund raising para pagar as pessoas que vivem das palestras que ministram; uma vez ou outra, vá lá , mas praticar sistematicamente tal esperteza, vamos dizer assim, é meio indigno, acho). Talvez um boa prática aqui seja a troca: eu vou falar de graça no seu evento e você vai fazer o quê em contrapartida (não-financeira)? Por exemplo, vai pesquisar, salvar e entregar em PDF novos livros para a Biblioteca; ou vai bolar um novo sistema de catalogação; ou vai contribuir para fazer isso ou aquilo em outro projeto (que não o seu).
Como consultor ganho pelos serviços que presto a instituições e empresas. Tenho um valor por hora trabalhada
in Company e
in Office (60% do anterior). Sem prestar tais serviços não poderia sobreviver. Como resolvi, décadas atrás, não ter propriedades, nem poupança e como decidi, há cerca de 5 anos, nunca mais participar de organizações hierárquicas (sejam empresas, empresas disfarçadas como ONGs ou cooperativas, ONGs, Cooperativas e assemelhadas, corporações, partidos, governos ou órgãos de Estado de qualquer nível), tenho que prestar tal serviço efetiva e diariamente como pessoa física.
Como
netweaver nada ganho. Há cerca de dois meses, resolvi fazer uma conta aproximada do tempo de trabalho que dediquei à Escola-de-Redes (desde junho de 2008) e à administração desta plataforma Ning (desde o final do ano passado). Monetizando pelos valores que cobro como consultor
in Office, o total chegou a aproximadamente 600 mil reais. Para se ter uma idéia, só para organizar a Biblioteca E=R foram cerca de 200 horas (pesquisar + selecionar + baixar (download) + salvar + subir (upload no 4Shared) + publicar na home (às vezes com imagem também pesquisada, baixada, salvada e "uploadada") em dois lugares, indexar na lista, indexar no grupo), ufa! Demora mesmo. E tem todas as outras coisas, que vão desde a administração normal mesmo da plataforma, aos textos escritos, aos comentários, aos vídeos e fotos, à divulgação de novidades no Twitter, em sites e outras plataformas etc.... Esse trabalho, conquanto às vezes bastante cansativo, é prazeiroso. E não é uma espécie de propaganda das minhas atividades: raramente (acho que nunca mesmo) recebi algum convite para atividade lucrativa por meio da Escola-de-Redes ou tendo como referência minha função de
netweaver nesta escola. Dos meus trabalhos remunerados atuais nem um sequer chegou por essa via ou a partir dessa referência. Pode ser que isso mude algum dia, mas até o momento em que escrevo foi assim.
Pois bem. Meu caso não pode ser generalizado, até porque as escolhas que fiz estão meio fora da curva. Mas serve para ilustrar a problemática. O melhor não seria poder aliar as duas coisas - e que eu não tivesse que trabalhar tanto "fora" para poder me dedicar mais ao
netweaving aqui - fazendo da Escola-de-Redes um ambiente também de negócios e uma fonte de receita? Isso ela hoje não é. E o argumento de que participando
pro bono da Escola-de-Redes alguém poderá ficar mais conhecido ou famoso e aí ser convidado para trabalhos remunerados é falso, para não dizer ridículo. O que torna alguém famoso é, invariavelmente, o
broadcasting, nunca ou dificilmente o
netweaving. Basta ver quem são os mais seguidos no Twitter. Basta ver quem são os mais premiados blogueiros. Todos, sem exceção, são frutos do
broadcasting (hoje: rádio, televisão, cinema, mídia impressa, jornais e livros editados e distribuídos pelos cartéis de distribuidoras e grandes "redes" de livrarias, aninhamento em grandes meios de comunicação etc.; ontem: aparições frequentes na Ágora, no
Circus Maximus, no Coliseu, na "carreatas" - de carroças ou bigas - de Triunfo, nas estátuas, relevos e afrescos etc).
Netweavers e
hubs (os novos papéis sociais emergentes e relevantes na sociedade em rede) são, em geral, reconhecidos por comunidades específicas, mas não conhecidos do grande público.
É uma discussão complicada. E solução não parece ser trivial.
COMO SERÁ POSSÍVEL FAZER NEGÓCIOS NA ESCOLA-DE-REDES SEM QUE ELA DEIXE DE SER UMA REDE?
Sobre isso, tenho pensado e conversado com alguns conectados aqui o seguinte:
Podemos, sim, fazer negócios na Escola-de-Redes, aproveitando a crescimento da plataforma (ainda que a plataforma não seja a rede) e o conhecimento nela embutido e constantemente desenvolvido e atualizado pela entrada constante de novas pessoas e pelas manifestações das pessoas já conectadas, para propor empreendimentos que possam gerar remuneração para quem neles quiser trabalhar.
Não há nenhum problema, ético ou econômico, em ganhar dinheiro em troca de atividade desenvolvida ou trabalho ou esforço realizado. Não há problema, nem mesmo, em ganhar muito dinheiro assim. Também não há problema em gerar excedente, sobrevalor ou o que valha. Ter resultado positivo em qualquer atividade econômica é uma condição de sobrevivência e uma obrigação social (haja vista que o prejuízo terá que ser arcado por alguém e afeta a todos os
stakeholders). O problema só aparece quando queremos administrar o excedente, (
aquilo que derrotou os Apaches: não foram as vacas que eles ganharam e sim a atribuição aos Nant'ans - os
netweavers da rede social apache - de administrar centralizadamente o excedente, redistribuindo as vacas pelos membros das comunidades). Se você administra o excedente, então introduz centralização. Ora, em uma rede que quer ser mais distribuída do que centralizada, isso, por certo, é um problema!
Portanto, a meu ver, quem quiser pode propor aqui algum empreendimento que remunere os que dele participam, mas desde que siga algumas orientações.
Trata-se apenas de uma sugestão pessoal.
1 - O empreendimento seja apresentado como de pessoas conectadas à Escola-de-Redes (que devem se identificar, no caso de optarem por mencionar a escola) e não da Escola-de-Redes.
2 - Nunca seja feito por uma organização hierárquica e sim por uma rede de pessoas.
3 - Todo o conhecimento (na forma de textos, metodologias, tecnologias, vídeos, software ou programa) desenvolvido para o empreendimento, seja entregue ao Domínio Público e disponibilizado aqui na escola para download. As pessoas receberão por seu trabalho e não pelo domínio privado individual ou coletivo sobre qualquer conhecimento.
4 - Qualquer pessoa que quiser usar o material referido acima, com ou sem fins lucrativos, poderá fazê-lo, desde que siga estas orientações e não omita, jamais, a autoria desse material. Em qualquer circunstância o direito moral do autor (ou autores) sobre a obra deve ser garantido, proclamado e reconhecido.
Particularmente, gostaria de acrescentar mais uma opinião: não me parece muito condizente com a natureza e os propósitos da Escola-de-Redes recrutar pessoas para trabalhar aqui (uma espécie de "pesca em aquário", no caso, não política, mas empresarial) em projetos em que há apropriação privada de excedente. Por exemplo, uma pessoa promove um curso de 8 horas para 30 alunos, cobra 1.000,00 de cada aluno, paga , digamos, 500,00 a outros 4 conectados que vão trabalhar, cada qual, 2 horas como facilitadores, cobre 10.000,00 de despesas efetivas (não vale computar os riscos inerentes a qualquer empreendimento para cobrir eventualidades: desde inadimplência, cheque sem fundo até furacões) e embolsa os 8.000,00 restantes a qualquer pretexto. Se houver excedente, ele pode ser distribuído por todos os envolvidos. Ou, quem sabe, pode ser destinado a um fundo de bolsas (para financiar uma parte da matrícula de alunos que não podem pagar o preço integral mas estão dispostos a retribuir com uma contrapartida não-financeira).
Nada contra ganhar dinheiro. Se for viável, se houver mercado, uma pessoa pode organizar uma atividade remunerada na qual ganhe 10 mil por hora por seu trabalho: o que não pode é subremunerar trabalhos equivalentes para ficar com o (ou uma parte maior do) excedente a pretexto de ter tido a idéia ou o trabalho de administrar pessoas (que, no fundo, é uma maneira de conduzí-las de tal sorte que elas gerem valor não-pago). E isso nada tem a ver com qualquer ideologia igualitarista. Não, nem todo mundo precisa ganhar a mesma coisa. Quem trabalha mais, quer desenvolvendo um produto, quer aplicando-o ou customizando-o, pode (e deve) ganhar mais. O problema não está aí e sim na administração do excedente que gera centralização e, consequentemente, exercício de comando-e-controle sobre os outros. É claro que isso não é um problema em organizações hierárquicas (a rigor, mais centralizadas do que distribuídas). Mas será um problema em uma rede (mais distribuída do que centralizada).
Esta, evidentemente, não é uma receita aplicável a uma empresa hierárquica que está querendo fazer sua transição para uma empresa em rede. As empresas nessa situação deverão encontrar outras formas de equacionar os problemas do lucro, da remuneração do capital e da gestão de pessoas. É apenas a minha opinião particular para esta Escola-de-Redes, que não é, nunca foi e nunca será uma empresa, senão uma rede em construção de pessoas interessadas em estudar, investigar e experimentar redes sociais.
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